Porque pode ser boa ideia trocar as redes sociais por sites pessoais

As redes sociais são uma confusão; têm tanto de útil como de fútil; não nos dão controlo sobre o conteúdo, mas antes a ilusão de que o temos.

Foto de Con Karampelas via Unsplash

Tenho saudades dos tempos pré-redes sociais. As pessoas escreviam e partilhavam em blogues. Não o faziam em posts, 280 caracteres ou em Stories, nem ficavam à mercê de likes, retweets ou views. Não usavam frases curtas ou técnicas para chamar à atenção no mar de ruído que são os feeds. Escrevia-se com mais tempo, calma, reflexão.

As redes sociais são uma confusão; têm tanto de útil como de fútil; não nos dão controlo sobre o conteúdo, mas antes a ilusão de que o temos. São os seus algoritmos que definem quem vai ver e quando vai ver o que é publicado – ao contrário do RSS, que nos dá um feed cronológico do conteúdo dos sites e fontes que seguimos.

Os blogues não morreram, contudo, passaram para segundo (ou terceiro?) plano à medida que as pessoas passaram a consumir tudo e mais alguma coisa nas ‘novas plataformas’. O RSS também não caiu em desuso com o fim das principais aplicações de leitura. Foram o Facebook, o Twitter, o Instagram… que mudaram os comportamentos. Mandar um tweet é mais fácil que estruturar uma ideia em três ou quatro parágrafos; criar uma página no Facebook não precisa de tanto conhecimento técnico que montar um site; ir fazendo stories no Instagram tornou-se um ritual aparentemente mais valioso do que montar um álbum de fotografias bonito e apelativo no final.

As redes sociais deram-nos essa noção de instantaneidade e a possibilidade de recebermos feedback imediato em relação aos nossos conteúdos, sejam observações no Twitter ou fotos no Instagram. Mas se as redes sociais nos permite chegar aos amigos e a outras pessoas, também criam uma ilusão de comunidade. A certo ponto são tantos os feeds que diariamente consultamos, tantas as publicações pelas quais passamos no scroll e tão diversos os momentos em que abrimos as redes sociais que será que todos os likes que recebemos são genuínos? Isto é, será que as pessoas que clicaram no botão pararam para ler efectivamente o post até ao fim ou deram a atenção que se calhar a nossa foto ou o nosso vídeo merecia?

Posso falar por mim, que recorrentemente abro as redes sociais à procura de algo específico ou num momento de aborrecimento em que não me apetece ler um “testamento” sobre um assunto que exige tempo e disposição, ou para clicar naquele artigo que um determinado amigo recomendou. E vejo este comportamento noutras pessoas.

Ainda há dias ia no comboio e reparei em alguém que freneticamente passava pelo feed ou pelas stories do Instagram, fazendo uns likes aqui e ali, sem prestar muita atenção à foto. Não é estranho ver isto e quando acontece meto-me a pensar: a pessoa do lado de lá, que publicou essa imagem, vai receber o like e não só ver um número maiorzinho junto ao coração como, se calhar, ficar contente por aquela pessoa ter gostado do post. Isto leva-me a pensar na qualidade do feedback que recebo através das redes sociais e lembra-me também comentários que são recorrentes: “ah pois é! Lembro-me de ter visto algo sobre isso, sim, é verdade”. Sim, às vezes as pessoas vêem e nem se lembram. Viram algo que não fica na memória, não se recordam do que viram.

Um blogue pode ser lido quando há pré-disposição para tal, como um podcast – não porque apareceu no feed que abrimos no autocarro ou na casa-de-banho. Num blogue podemos centralizar e condensar pensamentos, experiências, fotos, portefólio, etc. Podemos contar uma história e não stories. Um blogue é universal – ao contrário do conteúdo que publicamos num perfil de Facebook que só pode ser visto por quem tenha uma conta; é semelhante noutras redes sociais. Um blogue pode ser seguido indo ao URL guardado nos bookmarks do browser ou através de um leitor RSS. E não há ruído, não há polémicas; os conteúdos são mais genuínos ao não terem de responder a uma determinada estrutura, imposta pela plataforma ou pela sociedade.

Falámos até aqui de blogues, mas os sites pessoais podem assumir tantas outras formas. Um fotógrafo amador pode tirar uma galeria com os seus trabalhos; um profissional do vídeo ou um artista pode disponibilizar o seu portefólio; um podcaster pode arrumar todo o seu conteúdo aí. E todos juntos podemos estimular um novo hábito de acompanhar as pessoas e as entidades de que mais gostamos se blogue em blogue, de site em site – isto sem depender de plataformas que, através dos seus algoritmos, privilegiam o que é viral/popular, que restringem por vezes a liberdade do que podemos e não podemos publicar e que são sobretudo desenhadas para conteúdos de produção e consumo rápido.

Montar um site ou blogue pessoal não é uma tarefa árdua. Só precisas de um domínio e de um alojamento, sendo que podes encontrar estas duas coisas em empresas como a WebHS. Por exemplo, por 40 euros/ano tens 18 GB de espaço para alojares o teu site; já um domínio .com pode custar-te 11 euros/ano e um endereço .pt fica-te a 15 euros/ano. Podes ainda adicionar um certificado SSL para o teu site ficar em segurança. É assim que o Shifter se mantém online, dia após dia.

(Artigo escrito em colaboração com a WebHS.)