Antigo mentor de Zuckerberg: “Sinto-me desapontado. Sinto-me envergonhado”

Roger McNamee ajudou o fundador do Facebook no arranque e, culpando agora Zuckerberg, aponta algumas soluções.

Foto de Shifter/DR

As capas da TIME são frequentemente memoráveis, quer seja porque transmitem mensagens subtis, porque assinalam um marco histórico, porque enaltecem uma figura relevante no panorama actual ou por outro motivo. A capa da última edição da revista é sobre o Facebook e por esta razão digna de registo. É mais uma peça para o dossier de imprensa que temos vindo a construir desde o ano passado, onde já arquivámos a icónica capa da Wired, as peças do Guardian sobre a Cambridge Analytica ou a fundamental investigação do New York Times.

Quem é Roger McNamee?

A TIME de 28 de Janeiro introduz um novo elemento nessa história sobre o Facebook que tem vindo a ser contada: Roger McNamee, mentor de Mark Zuckerberg nos primórdios do Facebook, uma pessoa “a quem ele ligaria quando confrontado com novos ou desafiantes desafios”.

Roger McNamee publicou recentemente um livro intitulado Zucked: Waking Up To The Facebook Catastrophe — e o artigo na TIME funciona como uma espécie de preâmbulo. Assume-se desapontado e envergonhado com o Facebook, explica porquê e apresenta, por pontos, algumas soluções para resolver a gigante rede social e as outras grandes tecnológicas (Google, Twitter…).

Estou mesmo muito triste com o Facebook.

Envolvi-me na empresa há mais de uma década e vi com muito orgulho e alegria o sucesso da companhia… até há uns meses atrás. Agora estou desapontado. Sinto-me envergonhado. Com mais de 1,7 mil milhões de utilizadores, o Facebook é um dos negócios mais influentes do mundo. Quer se goste ou não – quer o Facebook seja uma empresa tecnológica ou uma empresa de media –, tem um grande impacto na esfera política e social. Cada decisão que a equipa de gestão tome impacta a vida das pessoas. A equipa de gestão é responsável por cada acção. Tal como são creditados por cada sucesso, têm de ser responsabilizados pelos falhanços. Recentemente, o Facebook fez algumas coisas que são verdadeiramente horríveis e não posso mais desculpar o comportamento da empresa.

É com este e-mail que McNamee enviou a Zuckerberg e a Sandberg, os números 1 e 2 do Facebook, que começa o texto agora publicado pela TIME, num especial que inclui também um texto assinado por Tim Cook, director executivo da Apple. McNamee pinta de seguida um quadro da situação actual do Facebook, desde o modelo de negócio assente na manipulação da atenção dos utilizadores para aumentar as receitas com publicidade aos filtros de bolha que criam a ilusão de que a maioria das pessoas acredita nas mesmas coisas.

O antigo mentor de Zuck – como é mais conhecido entre amigos e familiares – critica a estratégia de crescimento do Facebook baseado no “growth hacking”, em que a empresa testa algoritmos, novos tipos de dados e pequenas mudanças no design para prender as pessoas, e diz que Zuckerberg vive ele mesmo numa bolha que o iludiu de que tudo valia para conectar o mundo por essa ser uma missão demasiado importante.

Roger McNamee refere também que durante muito tempo a abordagem do Facebook aos problemas com que se ia cruzando foi usar mais inteligência artificial e mais código para criar soluções a curto prazo – enquanto publicamente negava, atrasava, desviava e desviava tudo o que pudesse desacelerar o crescimento da rede social. E quando evidências de desinformação e interferência eleitoral causadas pela plataforma do Facebook mostraram que mais negações e adiamentos não iam dar em nada, a empresa mudou de estratégia, e começou a pedir desculpas e a prometer fazer melhor. McNamee dá a entender que o Facebook chegou a um ponto dramático tal que é preciso a nossa intervenção civil para “exigirmos o nosso direito à auto-determinação”.

A capa da TIME de 28 de Janeiro de 2019

As ideias de Roger McNamee

Dividindo o seu discurso por pontos (democracia, privacidade, controlo de dados, regulação, humanização, adição e protecção infantil), McNamee parte, de seguida, para um conjunto de sugestões não só para o Facebook mas para outros monopólios como a Google, a Amazon ou até o Twitter.

Em resumo:

  • fazer mudanças substanciais ao modelo de negócio para reduzir o risco de interferência na democracia;
  • permitir a liberdade de imprensa, não interferindo com o modelo económico dos órgãos de comunicação social e não tratando desinformação e informação do mesmo modo;
  • favorecer feeds com perspectivas diversas e com as quais os utilizadores discordem, evitando ao mesmo tempo algoritmos que deixem proliferar teorias da conspiração e mensagens extremistas;
  • levar as possíveis interferências eleitorais a sério, mais do que apontar o dedo a quem as promove;
  • adoptar competências linguísticas e mostrar sensibilização cultural na expansão global;
  • dar controlo total dos seus dados aos utilizadores, explicando-lhes como são usados e por que organizações/pessoas;
  • permitir aos utilizadores que a portabilidade dos seus dados, para que possam mudar de uma plataforma para outra – o que pode quebrar barreiras na adopção de novas redes sociais, favorecendo assim o surgimento e crescimento de start-ups;
  • compensar melhor os utilizadores pelos dados e meta-dados que fornecem à plataforma;
  • permitir audições externas aos algoritmos por uma questão de transparência, mais que para marcar posições financeiras;
  • estabelecer limites à quantidade e tipos de dados que são recolhidos, permitindo aos utilizadores decidir que informação querem dar e que informação não querem dar – urgente antes da massificação das colunas e assistentes inteligentes (Amazon Echo/Alexa, Google Home/Assistant…);
  • impedir o desenvolvimento de tecnologias avançadas como a inteligência artificial e bots automatizados sem antes ter provas de que servem os direitos humanos – adoptando a mesma estratégia/regulação seguida, por exemplo, para as drogas;
  • estabelecer limites no mercado em que o Facebook actua, partindo a empresa ao meio nos seus diferentes produtos e impedindo a partilha de subsídios e de dados entre os mesmos;
  • colocar limites também nas aquisições que podem ser feitas – McNamee entende que empresas como o Facebook representam riscos económicos para os países, dizendo que, por um lado, é perigoso depender desses monopólios para a inovação, crescimento económico e criação de empresa e, por outro, restringem o leque de oportunidades para novos negócios e obrigam-nos muitas vezes a venderem-se demasiado cedo;
  • explorar a tecnologia de um ponto de vista humano, isto é, não criar tecnológica que se aproveite das fragilidades humanas para fins lucrativos;
  • avaliar modelos de negócio baseados em subscrições ou assentes em subsídios governamentais – McNamee entende que as redes sociais têm utilidade pública como os serviços energéticos, por exemplo;
  • além de regulação para colmatar o problema viciante da Internet, investir em investigação científica e em serviços públicos de saúde que pretendam ajudar a resolver casos de adição;
  • atender aos efeitos que as redes sociais podem ter nas crianças, seja no favorecimento do bullying ou na criação de hábitos de conversação por mensagens em vez de cara-a-cara.

Em conclusão

“O mal causado pelo Facebook e outras plataformas à saúde pública, democracia, privacidade e concorrência resultam do seu modelo de negócio, que tem de ser alterado. Como utilizadores, temos mais poder de forçar essa mudança do que pensamos. Podemos alterar o nosso comportamento. Podemos criar um movimento político”, conclui Roger McNamee. “Devemos responsabilizá-las e insistir em soluções para o mundo real, não em mais código.”

Além do texto do antigo mentor de Zuckerberg, a TIME publicou neste especial sobre o Facebook e as redes sociais em geral um artigo de opinião de Tim Cook, outro de um antigo membro do conselho de administração do Facebook, um testemunho de uma jornalista vítima da vigilância governamental permitida pelo Facebook e uma análise sobre os modelos de negócio vigentes entre as grandes empresas que controlam a Internet.