This is America: 21 Savage e duas contradições

A detenção de Savage 21, na noite do Super Bowl, pelo US Immigrations And Customs Enforcement (ICE), ainda herança da América de Bush, e a sua libertação uma semana depois, já depois dos Grammys, é uma história inacabada e acompanhada por contradições.

Tem sido um início de ano de particular actividade para a música nesta luta pelos Direitos Civis 2.0. “This Land” de Gary Clark Jr., o vídeo para “Noid” de Yves Tumor e até o vídeo dos Killers para “Land of the Free”, simbolicamente dirigido por Spike Lee.

E agora, a detenção de Savage 21, na noite do Super Bowl, pelo US Immigrations And Customs Enforcement (ICE), ainda herança da América de Bush, paranóica pós-11 de Setembro. Uma semana depois, já depois dos Grammys, o rapper saiu em liberdade. Mas esta é uma história inacabada e acompanhada por contradições.

Contradição 1: os motivos

Muito resumidamente, She’yaa Bin Abraham-Joseph, é esse o nome de Savage 21, será um cidadão britânico cujo visa norte-americano terá expirado há alguns anos. Terá entrado nos radares da ICE, depois de pedir um U-Visa, visa destinado a não imigrantes e reservado a vítimas de crimes de abuso físico e mental. No entanto, segundo os advogados do rapper, a família estará toda legal, o que tem trazido novamente à ordem do dia a política de tolerância zero, que se traduz em separação de famílias e, neste caso, longe da fronteira com o México.

Na defesa da detenção, um funcionário do ICE, naquela que será uma das poucas justificações públicas para uma detenção ruidosa, referiu que “toda a sua persona pública é falsa” – o que é irónico visto que o que o rapper escreve anda muito a volta de gangs, armas e crime; e o argumento público número dois do ICE é que o rapper foi detido por ter cadastro (já lá vamos). Em que ficamos? A persona é falsa, mas escreve sobre armas e tem cadastro? O que nos parece que o responsável do ICE queria dizer é que a ideia do rapper ser de Atlanta é falsa.

Mas, vá lá, mesmo ignorando o facto de lá viver há anos, Atlanta é uma espécie de capital do trap e cidade-fetiche do género. Numa das mais celebradas canções de 2015, Desiigner diz ter “broads” em Atlanta e, mais tarde, viria a confirmar nunca ter lá metido os pés. A própria imprensa musical tem destacado o rapper como sobrevivente e classificado as suas letras como “reais”. O produtor Metro Bloomin disse que ele é “um dos últimos street niggas a fazer música”. O próprio rapper mencionou à XXL: “My voice is needed, if it weren’t for my voice, niggas wouln’t even know niggas shoot in Atlanta.” Mas 50% dos argumentos públicos do ICE para a detenção do rapper apontam para uma “falsa persona”.

As contradições são muitas, daí que as opiniões dividam-se: Black Lives Matter, Cardy B e principalmente Jay-z apoiam-no. Shawn Carter “emprestou-lhe” o advogado que está a bater-se com o argumento do cadastro que também parece encontrar contradições, embora o rapper tenha de facto cadastro. O próprio 21 Savage tem sido muito aberto em relação ao seu passado: no 7º ano foi apanhado com uma arma na escola e expulso. Depois, terá sido apanhado também a conduzir sem carta e sido castigado com serviço comunitário. No dia do seu 21º aniversário foi atingido por 6 disparos e perdeu Tayman, o seu irmão mais novo. Mas é no caso de 2014 que a polícia se foca: terá sido apanhado com 22 gramas de erva, 89 comprimidos de hidrocodona, uma Glock 40, uma Ruger 9 mm e 1775 dólares em dinheiro. Mas até aqui a coisa parece correr mal: este texto cita um artigo do New York Times para defender que a acusação de 2014 terá “expurgado” em 2018.

A detenção de 21 Savage acontece nem dois meses após a edição do seu segundo álbum, I Am > I Was, que arranca com o tema “A Lot”:

How many times you got shot? (A lot) How many niggas you shot? (A lot) How many times did you ride? (A lot) How many niggas done died? (A lot)

Quatro dias antes da detenção, o rapper adaptou a canção no Late Night with Jimmy Fallon. A parte de J. Cole foi completamente alterada, com destaque para a referência à imigração:

Went through some things, but I couldn’t imagine my kids stuck at the border.

Chris Geraldi, jornalista nova-iorquino, escreve no The Nation um dos poucos artigos de opinião sobre o caso 21 Savage: “É um negro. É um rapper com tatuagens na cara. Fala de gangs e esteve envolvido em drogas e violencia com armas. E, surpresa!, é um imigrante.” Geraldi traça um perfil genérico do rapper e extrapola que essa é uma tentativa de o “demonizar” para continuar a colocar o combate à imigração como uma das prioridades da administração Trump.

“Gostem ou não da música, não há como negar que 21 Savage é um tipo assustador”… é assim que arranca um artigo do DJ Booth de 2016, que reforça esta ideia de 21 enquanto personagem (ou persona) assustadora. No The Guardian, um texto de Rashad Robinson, líder dos direitos civis, e José Antonio Vargas, activista, defende que o rapper não representa um perigo, excepto para a supremacia branca, sublinhando o facto da detenção ter acontecido meia dúzia de dias depois da actuação no Fallon. No entanto, segundo a Rolling Stone, citando fontes familiares próximas do rapper, 21 terá ficado na Irwin County Deterntion Center, “um dos piores centros de detenção de imigrantes”.

Contradição 2: os Grammys

Aqui é mais simples. De notar que 21 Savage sai em liberdade duas noites após os Grammys. Mas recuemos: no dia 7 de Dezembro, o rapper é nomeado para as categorias Gravação do Ano e Melhor Colaboração Rap, com “Rockstar”, colaboração com Post Malone.

Dois meses depois, a única menção ao rapper surge da boca de um representante do grande vencedor da noite, Childish Gambino. “He should be here”, concluiu Ludwig Göransson, depois de vencer a categoria da noite, Gravação do Ano. Por um lado, a vitória de “This is America”, a mensagem política e social implicita no grande vencedor da cerimónia 2019, do outro o silêncio para com o 21 Savage e a inerente situação política de Trump. Num tweet, Kei Henderson, o manager, diz ter tentado contactar vários artistas para se manifestarem publicamente. Nem Drake, nem Cardi B, nem Post Malone (este último tem algumas atenuantes subliminares). Um silêncio estranho que se estendeu a todos os que colaboraram com 21.

À Fader, o rapper diz que só quer ser rico e comprar uma boa casa e um bom carro para os seus. Um sonho americano.