Aheneah: a artista que eleva o ponto-cruz ao estatuto de arte urbana

Esta é a história de alguém "que quer dar algo positivo às pessoas, com o sentimento que seja provável uma resposta semelhante"

Ana Martins aka Aheneah (foto de Mário Rui André/Shifter)

Há qualquer coisa que nos fascina na arte urbana. Perante uma peça artística exposta ao mundo, há uma tendência natural para olhar, observar e ponderar cada detalhe. Acima de todos os objectivos, uma obra numa parede serve um propósito comunitário, que de uma forma ou de outra, impacta na vida e no quotidiano do individuo. Aheneah é uma artista plástica que coloca o ponto-cruz ao serviço da arte e das pessoas. O Shifter foi conhecer a pessoa artística mas também a história de Ana Martins.

Uma bancada de trabalho, um pátio ao ar livre, três pessoas a conversar e uma coelha assustada pelo barulho dos aviões. Foi este o cenário onde a artista nos contou como descobriu o ponto-cruz enquanto arte urbana e como se processou esta evolução.

Ana estudou design gráfico na ESAD das Caldas da Rainha e rapidamente se apercebeu que a unidade digital que estudava todos os dias tinha paralelo com a unidade cruz. Esta luz que se acendeu despertou uma técnica que a mãe e a avó a tinham ensinado no passado. De um pano pequeno para uma parede de uma fábrica abandonada foi um pequeno passo que lhe dera a certeza que tinha descoberto a sua forma de arte. A artista resume numa frase o paradigma que orienta a sua forma estar. “A arte urbana em ponto-cruz permite que esta técnica tradicional não morra.”

A família é algo que Ana Martins procura preservar e homenagear. Cada peça em execução conta com a preciosa ajuda do clã feminino da família, sobretudo na componente das lãs. Uma das primeiras obras públicas de Ana foi precisamente um tributo à bisavó Narcisa, que a ensinou a tricotar a primeira peça de roupa e que ficou imortalizada no WOOL, o festival de arte urbana da Covilhã.

A técnica de abordagem de Aheneah é especial. Tudo parte do local onde a obra vai viver. Depois da escolha/atribuição da parede, Ana sente aquele lugar e as dinâmicas do mesmo, de modo a que o mural seja parte integrante de uma terra e as pessoas o possam sentir como delas. “Cada obra tem de interagir com o espectador”, é um pensamento ouvido e que demonstra que este estilo e esta técnica procuram uma relação entre espectador, criador e obra.

O processo de produção atravessa fases mais e menos monótonas. Depois da ebulição entusiasmante de ideias e da formalização mental do mural, surge a componente digital onde “um espacinho para aqui, outro espacinho para ali” são o garante que o trabalho vai correr bem. De seguida, procede-se à escolha das lãs e das cores procurando preparar-se tudo para a intervenção final na rua. Placas de madeira colocadas, centenas de pregos fixados, cruzes individuais a cruzes individuais e muitas dores nos braços depois, a criação está pronta numa semana.

Setembro de 2018 marca a vida e a carreira de Ana. Foi nesta marca temporal que criou a obra que chegou a mais pessoas, a mais órgãos de comunicação social e a mais países. Switch-Over está em Vila Franca de Xira e surgiu na necessidade, em termos mediáticos, de ter um mural numa localidade perto da área de residência. Não foi de todo um processo fácil, mas a Junta de Freguesia de Vila Franca, mostrando que existe cada vez mais vontade de um determinado poder local em abrir horizontes, deu-lhe a mão, ajudou-a na instalação e concedeu-lhe um espaço nobre na cidade que lhe diz bastante.

A construção está situada numa rua que é utilizada por centenas de alunos todos os dias no caminho de casa para a escola. Aheneah, uma dessas estudantes em tempos, procurou representar essa mesma passagem da escola para o mundo, mas ao mesmo tempo a rapidez da idade juvenil, muitas vezes imbuída em pensamentos e sonhos. A aceitação não poderia ter sido melhor. A artista ficou contente com o trabalho final, a autarquia mostrou a sua satisfação e até um senhor de um parque de estacionamento junto à rua confessou o seu agrado perante a obra.

Ana Martins tem um futuro brilhante à sua frente. Este ano dará dois workshops, um em Lisboa e outro no Porto, onde poderá transmitir os seus sentimentos e ensinamentos. Para a artista, o objectivo destas sessões está muito claro. “Quero que os formandos aproveitem a técnica que vou passar, para que levem o pensamento e as próprias ideias mais longe.” Mais do que ensinar um modo de fazer arte, é importante que cada pessoa saia do workshop com a inspiração para tentar coisas novas. A própria Aheneah já tem em mente um novo twist na sua arte. Pretende para este ano ir além da parede e proporcionar ao espectador novas sensações através de uma escultura em ponto-cruz, algo que possa ser visto de diversos lados. Sendo o segredo, a alma do negócio, podemos dizer que o mistério é a essência do artista.

O ano de 2019 trará de forma natural a internacionalização. Quem passe os olhos nas redes sociais de Aheneah percebe que os conteúdos estão claramente virados para o global. Os convites internacionais começam a surgir e será uma questão de pouco tempo até esta arte urbana, única no mundo, chegar a outras latitudes e longitudes.

O leitor terá percebido a utilização discriminada de Aheneah e Ana ao longo do texto. Os artistas são muitas vezes associados a personalidades especiais e particularmente complexas. Neste caso, o estereótipo cai pela base. A pessoa humana e a persona artística são um só individuo que através da sua arte procura dar às pessoas aquilo que tem de melhor, da forma mais apaixonada possível. Utilizando palavras da própria, adaptadas a este contexto, esta é a história de alguém “que quer dar algo positivo às pessoas, com o sentimento que seja provável uma resposta semelhante”.

Fotos de Mário Rui André/Shifter