Fyre: o festival que nunca aconteceu e os documentários que revelam a história

Por muito estranho que pareça, foi em Portugal que toda esta história começou.

Screenshot via Netflix

Em 1967 nasceu o Monterey Pop, em 1969 o Woodstock, em 1991 o Lollapalooza, em 1999 o Coachella, em 2005 o Tomorrowland… e em 2017? Em 2017, era suposto ter existido o Fyre Festival – o festival que ficará para a história por nunca ter acontecido.

Após o sucesso viral da série do youtuber Shane Dawson sobre o fiasco da Tanacon – alternativa à VidCon organizada e encabeçada por Tana Mongeau em parceria com Michael Weist –, surgem agora dois documentários de serviços de streaming concorrentes, Netflix e Hulu, sobre o mais recente evento fraudulento: o Fyre Festival. Por muito estranho que pareça, foi em Portugal que toda esta história começou.

Foi em plena edição do Web Summit, em 2016, que os sócios Billy McFarland e o rapper Jah Rule apresentaram a Fyre App, uma aplicação que propunha a acabar com o gap entre grandes artistas e pequenas empresas/indivíduos, prometendo a possibilidade de agendar grandes concertos para pequenos eventos promocionais, por um valor reduzido, acordado entre ambas as partes.

Como forma de promover a aplicação, surgiu a ideia do Fyre Festival, uma experiência única e de luxo, numa ilha “previamente comprada por Pablo Escobar”, nas Bahamas. Com cabeças de cartaz como Blink-182, Migos, Major Lazer, Lil Yatchy, entre outros, o Fyre Festival apresentava-se como uma alternativa de luxo ao fenómeno millennial do Coachella, reutilizando a sua fórmula: a promoção do festival através dos ditos “digital media influencers”. As modelos mais seguidas do Instagram como Kendall Jenner, Bella Hadid, Hailey Baldwin, Emily Ratajkowski publicitaram às cegas, nas suas páginas, o nome deste novo festival. E assim nasceu o fenómeno.

Para além destas super modelos, a quem terá sido pago cerca de 250 mil dólares por post, a outros influenciadores foram prometidos entrada gratuita e uma estadia de luxo numa casa privada em troca da divulgação do festival. No entanto, quando chegaram ao terreno, poucos foram aqueles que conseguiram as tais villas, enquanto os outros passaram horas sem serem acomodados, acabando como outros, em tendas que eram, afinal, as as tendas de apoio a desastres naturais da FEMA (Federal Emergency Management Agency) que tinham sobrado. Para além disso, era suposto os visitantes serem levados para a ilha em jactos privados, quando na realidade foram transportados todos juntos num avião comercial de aparência económica.

Foi quando os primeiros “festivaleiros” já estavam a chegar á ilha que os headliners Blink-182 anunciaram o cancelamento da sua performance no Twitter: “Após consideração reforçada, queremos informar que não iremos tocar no Fyre Festival, neste fim de semana e no próximo. Não temos a certeza que teríamos tudo aquilo que precisamos para vos dar a experiência de qualidade que damos a todos os nossos fãs.”

Screenshot via Netflix

Em ambos os documentários, aprendemos que Calvin Wells teve acesso a diversos documentos, e-mails e fontes que comprovavam que a empresa estava sem dinheiro, ainda não tinha pago diversos serviços, entre outros, criando então uma conta anónima no Twitter com o username @FyreFraud de forma a alertar o público para o que estaria para vir, sem grande viralização. Mais tarde, Calvin entrou em contacto com o Wall Street Journal para contar tudo aquilo que sabia.

Antes de primeiros viajantes começarem a chegar, a ilha foi vítima de uma enorme tempestade que destruiu grande parte das poucas coisas que se encontravam construídas. Após a saída do avião, as pessoas foram encaminhadas para autocarros semelhantes ao típico “yellow bus” norte-americano. Já no recinto, rapidamente se apercebem no ‘pesadelo’ em que estavam prestes a entrar. Centenas de pessoas não tinham onde ficar,malas andavam perdidas. McFarland aparece do nada e diz às pessoas para se dirigirem a uma tenda, coisa que elas fizeram da mesma maneira que no The Hunger Games: os tributos correm para a Cornucópia para recolher a sua arma de escolha, como selvagens à procura de sobrevivência.

Quando chegam a estas tendas, apercebem-se que estas estão todas molhadas e que nem colchões tinham. Não havia água potável, pois não tinha sido efetuado o pagamento às entidades competentes, e a única comida servida foi duas fatias de pão com queijo e folhas de alface.

Screenshot via Netflix

Após vários testemunhos tomarem conta da internet, no dia 28 de Abril, a conta oficial do Fyre Festival anuncia no seu Twitter o cancelamento do festival: “Após avaliada a situação instaurada esta manhã, temos consciência que não temos as condições necessárias para acolher os nossos convidados, ao contrário daquilo que estávamos á espera.”

Como seria de antecipar, ambos documentários servem diferentes ‘agendas’. Dado a rivalidade entre serviços de streaming, acabou por existir uma certa polémica em que o Netflix criticou a Hulu por ter pago a McFarland para aparecer no seu documentário, enquanto que a segunda criticou o Netflix por contar a história de uma maneira mais soft, fruto da afiliação do grupo Jerry Media, equipa de marketing do Fyre Festival, como produtores executivos do documentário.

No entanto, e picardias à parte, para ter uma melhor percepção da situação é aconselhável reunir as duas perspectivas. Enquanto o Netflix escolheu uma abordagem mais focada no terreno, a Hulu optou por recolher testemunhos de vários intervenientes, incluindo o seu fundador, Billy McFarland, de forma a entender o que levou ao culminar desastroso do festival. Presente nos dois documentários é a reacção do público, principalmente no Twitter e em alguns talk shows, que fazia pouco da situação acusando as queixas de serem “rich people problems”.

O documentário da Netflix denota ainda uma coisa muito importante nesta história: a preparação para o Fyre Festival, desastroso ou não, tomou por completo grande parte dos habitantes da ilha, muitos eles que até agora ainda terão recebido pagamentos. No filme é entrevistada a responsável pelo serviço de catering, que conta abdicar das suas poupanças pessoais para pagar aos seus empregados, tendo sido deixada sem nada. Entretanto, a senhora criou uma página GoFundMe e com o contributo de milhares de pessoas sensibilizadas conseguiu reaver pelo menos 170 mil dólares.

Foi no fim do ano passado, em Outubro de 2018, que McFarland foi sentenciado a seis anos na prisão, por consequente de várias acusações de fraude e lavagem de dinheiro. O negócio anterior de McFarland, o Magnesis, já tinha dado muito que falar. Consistia na replicação do cartão de crédito preto executivo, permitindo o acesso a festas e variados eventos privados de luxo , sobretudo em Nova Iorque.

Segundo diversos artigos, também as modelos poderão ter que testemunhar em pleno tribunal, dado que o dinheiro que receberam para publicitar o evento foi adquirido através de esquemas fraudulentos. Ao todo, estima-se que foram gastos cerca de 5 milhões de dólares somente para a promoção do festival, com a produção do vídeo promocional incluída.

Para além do desastre que foi o festival e dos problemas que trouxe para todos os seus intervenientes, existe uma maior moral nesta história, que nos convida a avaliar melhor aquilo em que acreditamos e porquê – nomeadamente na cada vez mais afluente cultura de influenciadores. Encontraamo-nos presos numa era em que a propaganda extensiva e glamorizada de algo derrota a mais simples das lógicas. Neste caso, as pessoas estavam tão vidradas no desejo em se igualar a estatuto e vida das celebridades promotoras que nem se aperceberam que, numa situação ‘real’, teriam que pagar muito mais do que aquilo que pagaram de forma a usufruir de toda a experiência que lhes tinha sido prometida.