‘Hacker’ vs ‘Pirata Informático’: a riqueza de uma definição perdida na tradução

Um "hacker" pode ser um pirata, um pirata pode ser hacker mas a sua definição não é equivalente, é puramente complementar nos casos em que se verifica.

Foto de JC Gellidon via Unsplash

Na recente entrevista de Rui Pinto – o “John” do Football Leaks de que te falámos nesta peça – publicada pelo Expresso (por pertencer ao consórcio de investigação jornalística europeu), a palavra dita em inglês “hacker” foi traduzida em português para a expressão “pirata informático”. Se à primeira vista esta é a tradução que nos habituámos a ver e fazer, a verdade é que não é totalmente rigorosa ou culturalmente completa. Um “hacker” pode ser um pirata, um pirata pode ser hacker mas a sua definição não é equivalente, é puramente complementar nos casos em que se verifica.

De resto, a confusão entre as palavras está estabelecida até no dicionário português online mais comum, o Priberam, onde quer uma expressão, quer a outra têm a sua entrada própria mas com um significado semelhante. A questão pode ser ambígua mas uma leitura mais profunda de matérias especializadas sobre o universo tecnológico rapidamente nos mostra as diferenças significativas entre os dois termos, algo que se revela igualmente na nossa relação com os termos.

A questão pode parecer fútil mas não o é; com a proliferação da internet e da tecnologia no geral, uma grande parte das palavras que entram para o nosso léxico são provenientes do inglês e surgem em contextos muito específicos, sendo por isso, mais do que uma questão de conhecimento de línguas, uma questão de cultural, onde cada nuance pode ser determinante. Se uma definição como esta parece um pormenor, importa percebermos como o significado que atribuímos a uma palavra molda a nossa versão de uma história, no mínimo, criando espaço para a ambiguidade que nos faz querer saber mais sem estabelecer um juízo. As palavras representam conceitos que podem estar mais ou menos ligados a preconceitos – os termos ou expressões podem ou não carregar um julgamento inerente face ao fenómeno que simbolizam.

Sem entrar em demasiados detalhes (que dariam para escrever um capítulo de um livro), tentemos neste artigo estabelecer as principais diferenças entre os dois conceitos. Entre “hacker”, uma derivação do “hack” que não pode perder essa referência; e “pirata informático”, um aproveitamento da expressão que utilizámos e utilizamos há décadas para definir os marinheiros especialistas em pilhar outras embarcações.

O que é um “pirata informático”?

Comecemos pela definição mais simples, a de “pirata informático”. Esta foi provavelmente a primeira definição techie que muitos de nós descobrimos. Entre EMule, Limewire, os sites de Warez e o mundo dos torrents, com destaque para o Pirate Bay, a terminologia “pirata” surgiu como natural para classificar aqueles que disponibilizavam gratuitamente software ou conteúdo copiado. Nem mais nem menos. Com o intuito bem definido e uma prática circunscrita que em parte se assemelha à dos piratas dos mares, este conceito é simples de entender mas ganha imediatamente uma conotação pejorativa.

Um pirata informático define-se, sucintamente, como alguém que obtém cópias legais ou ilegais de algo e as distribui de forma ilegal online. Não é necessário que a sua motivação seja explícita e muitas vezes os piratas actuam por diversão, daí que possam ser confundidos com “hackers”. No entanto, o termo inglês mais correcto para substituir piratas seria “crackers“, visto que é esse o seu papel fundamental no circuito: mais do que copiar o ficheiro e disponibilizá-lo online, arranjar uma forma de abrir o seu acesso a quem o descarregar: cracká-lo, aportuguesando.

No mundo online há uma série de piratas clássicos – individuais ou grupos – como o Skidrow, reconhecido por ser dos mais rápidos a desbloquear jogos, ou o Zii, por fazer o mesmo no universo Adobe.

Todavia, a definição “pirata informático” merece uma outra leitura na sua relação com o mundo do crime e das ilegalidades. Por exemplo, o Partido Pirata utiliza a simbologia por se identificar com a essência copyleft – o contrário de copyright –, advogando a partilha e o acesso livre a conteúdos sem que incorra propriamente em ilegalidades; fá-lo, por uma questão também cultural e histórica. O seu nome, ‘Partido Pirata’, deriva directamente do nome do think-thank Piratbyrån, no qual artistas, tecnófilos e pensadores se reuniam para discutir alternativas ao estado da propriedade intelectual imposto na Suécia nos anos 2000. Foi daí que nasceram vários spin-offs como no domínio tecnológico, o ilegal Pirate Bay, ou no domínio político, o legal Partido Pirata.

E o que é um “hacker”?

A definição “hacker” é mais ambígua e sobretudo mais rica, especialmente se tomarmos em consideração todas as formas que foi assumindo nos últimos anos em que foi sendo utilizada. Para termos uma ideia da sua abrangência, ao pesquisarmos no Google a diferença entre as palavras, a primeira definição que nos surge de “hacker” cita um músico, Brian Eno, numa referência à forma como gosta de alterar sistemas.

Basicamente, é isso que define normalmente um hacker com toda a ambiguidade inerente. Um hacker é alguém que explora sistemas, num computador (hacker), num telefone (phreaker), através da interação pessoal (social hacking), ou simplesmente na sua vida.

“A coisa mais interessante num sistema é a quantidade de coisas que ele faz que não era suposto fazer.”

– Brian Eno

O termo original “hacker” não tinha qualquer conotação com o mundo do crime ou do acesso não autorizado, antes pelo contrário: servia apenas para referir alguém que passava muitas horas a produzir código. O desvio no significado deu-se por volta dos anos 1980 quando os ciberataques começaram a surgir mas, actualmente, com o aprofundamento do conhecimento generalizado em torno do mundo digital as nuances voltam a emergir. O fenómeno mediático deu-se nos essencialmente nos Estados Unidos, mas a sobreposição semântica por cá ficou – excepto em exemplos esporádicos.

“This is our world now… The world of the electron and the switch, the beauty of the baud. We make use of a service already existing without paying for what could be dirt cheap if it wasn’t run by profiteering gluttons, and you call us criminals. We explore… And you call us criminals. We exist without skin color, without nationality, without religious bias… And you call us criminals. You build atomic bombs, you wage wars, you murder, you cheat, and lie to us and try to make us believe it’s for our own good, yet we’re the criminals.

Yes, I am a criminal. My crime is that of curiosity. My crime is that of judging people by what they say and think, not what they look like. My crime is that of outsmarting you, something that you will never forgive me for.”

– citação de The Conscience of a Hacker, vulgarmente conhecido como The Hacker Manifesto de The Mentor, publicado a 8 de Janeiro de 1986.

Se no termo “pirata” não há grandes voltas a dar, na ideia de hacking há várias particularidades que interessa conhecer, desde os whitehat hackers, passando por toda a sua extensão conceptual até à sua relação com makers. A cultura hacker é auto-consciente e intencional mas não é bem definida ou conceptual. Mais do que uma abstracção sobre um grupo de pessoas aleatórias, os hackers têm a sua essência comum mas variam na sua abordagem.

Na maior parte dos casos e, entenda-se, naquilo que se entende como a teoria da cultura hacker, a principal motivação do actor não é explorar as debilidades a fim de obter lucro ou proveitos mas pessoais mas simplesmente por curiosidade, geralmente construtiva. Mas nem essa teoria é consensual ou nem sempre os hackers bebem da mesma fonte. Para o explicitar, peguemos em dois exemplos simples e evidentes. Em 1986, o internauta conhecido como ‘The Mentor’ escreveu o texto The Conscience of a Hacker, entendido como um manifesto teórico para o grupo e focando a prática no mundo informático e da computação. Já em 2004, o professor de Estudos dos Media da New School, de Nova Iorque, McKenzie Wark, editou uma outra obra chamada Hacker Manifesto, em que propõe uma leitura mais vasta do termo em função da evolução dos tempos e das práticas.

“Where does new information come from? From what I would call the ‘hack’. It doesn’t matter if you are a programmer, a philosopher, a musician, a bio-chemist, if you produce new information, that’s a hack. I want to expand the meaning of the word beyond a narrow, specialized field. Because I think that all kinds of new information production are now rendered equivalent by the regime of intellectual property.”

Hacker Manifesto, McKenzie Wark

Para McKenzie Wark, a ideia de hackar define-se, resumidamente, como pegar em algo e dar-lhe um novo significado, extraindo dessa prática uma nova informação até aqui inexistente ou indisponível, podendo o conceito aplicar-se em áreas inimagináveis. Uma forma fácil de percebermos como o conceito é ambíguo mas não é ambivalente é vermos em que circunstâncias o termo hacker se pode aplicar. Tomemos como exemplo os biohackers, pessoas que se dedicam a fazer implantes e modificações através de tecnologia do seu corpo. Se o termo “hacker” lhes serve que nem uma luva, façamos a tradução recorrendo à expressão portuguesa habitual. Serão, portanto, “bio-piratas-informáticos”?

De resto, a confusão é tão grande que se criou uma espécie de cultural gap entre quem está dentro do universo tecnológico e quem não está. Para dar um exemplo concreto e bastante corriqueiro, podemos dizer que a expressão “hack” é uma das mais repetidas no Slack do Shifter – onde serve, como na proposta de McKenzie Wark, para definir o acto de criar algo subvertendo o que existe. Seja perante uma ideia de artigo, uma fonte informativa recheada de conteúdo ou um problema informático difícil de resolver com os nossos recursos, hackar torna-se para nós uma espécie de sinónimo contemporâneo de uma realidade tão portuguesa como o desenrascar.