O ex-político de extrema-direita que se converteu ao islamismo

Joram van Klaveren foi durante sete anos um dos mais activos membros do partido liderado pelo polémico Geert Wilders, de quem era braço direito, e, portanto, uma das vozes mais contrárias à penetração do islamismo nos Países Baixos.

Foto de Roel Wijnants via Flickr

A canção de António Variações diz, e bem, “muda de vida / estás sempre a tempo de mudar” mas a verdade é que mudanças bruscas geram sempre alguma intriga, especialmente quando o eixo é o da política ou da religião. Lembremo-nos, por exemplo, da conversão do inofensivo Abel Xavier e da celeuma que isso gerou; ou da troça que ainda se faz do vídeo viral do Durão Barroso maoista.

O caso que aqui abordamos é mais uma dessas intrigantes mudanças mas, desta feita, a história chega-nos da Holanda, onde um ex-membro do partido de extrema-direita PPV anunciou uma mudança a 180º, revelando a sua adesão aos princípios islâmicos.

Joram van Klaveren foi durante sete anos um dos mais activos membros do partido liderado pelo polémico Geert Wilders, de quem era braço direito, e, portanto, uma das vozes mais contrárias à penetração do islamismo nos Países Baixos. Advogava, entre outras coisas que a burka devia ser banida neste país europeu. Agora, aos 40 anos, revela ter descoberto as suas verdadeiras convicções enquanto escrevia um livro precisamente contra a religião que adoptou — “foi como um chegar a casa religioso”, diz em entrevista à cadeira NRC.

Na mesma entrevista, o político holandês revela que aquilo que era ser um livro contra o Islão acabou por se tornar uma refutação dos argumentos com que os não-muçulmanos se debatem, acabando por se identificar com uma série de pontos islâmicos. “Se acreditas que houve um Deus e que Maomé foi um dos seus profetas, ao lado de Jesus e Moisés, então és formalmente um muçulmano”, disse.

A ruptura com Geert Wilders e o partido de extrema-direita já se tinha dado em 2014, mas esta mudança pessoal e intima agora anunciada é mais simbólica do que qualquer alteração de militância revelando, de um certo modo, a ignorância que o legislador tinha sobre aquilo que tanto criticava e que acabou por o seduzir por completo.

O caso foi tão repentino e é tão paradoxal que surpreendeu tudo e todos. Geert Wilders, envolvido num caso de discriminação racial que fez Klaveren abandonar o PPV, de que é líder, já teve ocasião de comentar o caso. Entrevistado pela RTL, foi peremptório: “Eu espero muita coisa mas não estava a ver isto acontecer”, disse, demonstrando a sua satisfação por, pelo menos, Klaveren já não ser membro do seu partido há cinco anos.

Depois de deixar o PPV, Klaveren teve uma passagem rápida pelo VNL, partido pelo concorreu às últimas eleições em 2017 e mesmo os seus colegas neste movimento estranham a mudança, levantando inclusive a hipótese de tudo não passar de uma manobra de marketing para promover o seu mais recente livro. Já do lado dos representantes religiosos a reacção foi previsivelmente diferente. Said Bouharrou representante das Mesquistas Marroquinas nos Países Baixos, elogiou Joram Van Klaveren, reiterando que é óptimo que alguém que fora tão critico perceba e assuma que afinal o islão não é tão mau ou perverso.