A influência de Beethoven e Weininger no génio de Ludwig Wittgenstein

"Wittgenstein levou uma vida de tortura. Era um intelectual incapaz de interagir satisfatoriamente com outros intelectuais, um homem outrora rico incapaz de colocar uma fortuna em uso construtivo, um homossexual incapaz de ter relações duradouras, um académico que menosprezava actividades académicas, um filósofo que tentava afastar os outros da filosofia."

Admirador obstinado de Beethoven, Ludwig Wittgenstein (1889-1951) é um caso paradigmático de génio. O que hoje é considerado um dos maiores filósofos do século XX, foi confrontado e profundamente influenciado por um livro que ganhava crescente popularidade e admiração na Viena da sua adolescência e do clima pré-guerra: Sex And Character, de Otto Weininger.

Este livro bizarro expunha ideologias machistas e antissemitas, de tal ordem que as mulheres eram consideradas criaturas amorais, dividas em duas concepções platónicas: as que tinham mais tendência para mães e as que tinham maior propensão para prostitutas, apenas interessadas ou nos frutos das suas relações sexuais (mães) ou nas relações em si (prostitutas) – por isso tinham necessidade de se juntarem a homens. Na continuação do raciocínio, é referido o povo judeu. Este, consequentemente, era um povo de índole impregnadamente feminina.

Weininger chega mesmo a afirmar que “o judeu mais viril é mais feminino que o ariano menos viril”. O povo judeu tinha, assim como a mulher, um instinto para se emparelhar, o que demonstrava um sentido de individualidade parco e uma necessidade de preservar a raça forte. Ora, sendo a mulher amoral, ou seja, não tendo capacidade de distinguir o bem do mal e, consequentemente, não tendo alma e o judeu tendo carácter feminino, formando o silogismo, conclui-se que o judeu é amoral. A teoria de Weininger era auto-destrutiva de duas formas: a sua condição de judeu e homossexual reduzia-o, à luz da sua teoria, a nada; e tornava toda a sua teoria num enorme paradoxo, já que a sua amoralidade ontológica o impedia, até, de validar tudo aquilo que escrevera, uma vez que é regido por instintos e não por faculdades cognitivas.

A única solução ética para a sua vida seria o suicídio, o que veio a acontecer quando tinha apenas 23 anos. Em 4 de Outubro de 1903, Weininger foi encontrado morto no chão da casa, precisamente onde Beethoven tinha morrido – uma morte simbólica – já que este o considerava, nas palavras de Ray Monk, “o maior dos génios”. Em Viena, esta notícia foi acolhida com um sensacionalismo exacerbado, entendendo o fim ponderado de Weininger, não como um ato covarde, mas como um ato heróico. O resultado, embora trágico, seria o lógico, a fim cumprir o seu livro. Seria o encerrar perfeito de um ciclo. Este acontecimento desencadeou uma onda de suicídios de réplica e Viena começou a temer movimentos de emancipação femininos ou judaicos. Neste quadro, Wittgenstein não passou incólume e, na condição de judeu, começou a alimentar uma vergonha de não ter coragem de acabar com a vida. No entanto, havia um detalhe na teoria do Weininger que Ray Monk, com clareza, expõe:

“Ao contrário da Mulher, o Homem, segundo Weininger, tem uma escolha: ele pode, e deve, escolher entre o masculino e o feminino, entre a consciência e o inconsciente, a vontade e o impulso, o amor e a sexualidade. É dever etário de todo Homem escolher o primeiro de cada um desses pares, e a extensão em que ele é capaz de fazer isso é o quanto ele se aproxima do mais alto tipo de Homem: o génio.”

Em Weininger, este génio era sinónimo do nível máximo de distinção e clareza. Génio era quem teria a memória mais desenvolvida, a melhor forma de formar juízos e o maior sentido moral. Lógica e ética são uma e a mesma coisa e, portanto, eles são o dever de si próprios. O génio era, enfim, “a maior moral e, portanto, o dever de todos”. Vidrado nesta ideia, e nesta esperança de salvar a sua condição, Wittgenstein digladia com tendências suicidas durante nove anos. Esta acção de adquirir o estatuto de génio, sendo um fim em si mesma, tornou-se um imperativo categórico para o filósofo. E o modelo era Beethoven. O seguinte relato é do próprio Wittgenstein:

“… como um amigo descreveu enquanto se dirigia para a porta de Beethoven e o ouvia ‘a amaldiçoar, uivar e cantar’ sobre sua nova fuga; depois de uma hora inteira, Beethoven finalmente apareceu à porta, parecia que tinha estado a lutar contra o diabo e que não tinha comido nada durante 36 horas, porque o seu cozinheiro e a empregada estavam longe de sua raiva. Esse é o tipo de homem para ser.”

A angústia da sua condição só foi amainada quando foi reconhecido por Bertrand Russell e, mais tarde, por G. E. Moore, como génio. Russell descreveu-o como: “talvez o mais perfeito exemplo que alguma vez conheci de um génio como tradicionalmente concebido, apaixonado, profundo, intenso e dominante”.

A partir deste momento, a produtividade de Wittgenstein galopou para dimensões impressionantes. Tal como Pessoa, Wittgenstein é um autor maioritariamente póstumo. Editou em vida o Tractatus Logico-Philosophicus, que lhe deu e ainda dá a maior notoriedade. Não obstante, as obras que foram publicadas, já depois da sua morte, são incontáveis. A sua história está cheia de meandros, detalhes e mistérios, pelo que parece impossível descobrir a verdadeira essência do filósofo. Ainda assim, a conclusão provocatória de Sir Alistair McFarlane parece-me ser bastante abrangente e conclusiva:

“Wittgenstein levou uma vida de tortura. Era um intelectual incapaz de interagir satisfatoriamente com outros intelectuais, um homem outrora rico incapaz de colocar uma fortuna em uso construtivo, um homossexual incapaz de ter relações duradouras, um académico que menosprezava actividades académicas, um filósofo que tentava afastar os outros da filosofia. No entanto, o seu génio foi um manifesto para os seus colegas, que lhe deram uma lealdade à qual, tragicamente, não conseguiu responder. O seu nome é agora um sinónimo de um certo tipo de génio académico – para um intelecto imponente, distante e isolado. Foi impulsionado por uma paixão implacável para entender, e uma absoluta recusa ao compromisso.”

Numa conversa com o meu professor de composição sobre Wittgenstein, fiquei a conhecer a casa que o filósofo desenhou e projectou de raiz para a sua irmã, ainda hoje encarada como uma casa-bíblia, estudada por qualquer arquitecto. O professor fez uma conclusão curiosa que, parafraseando, será algo como “o génio é entrar em áreas que te são desconhecidas e conhecer-lhes a essência”. Talvez seja isto verdade: uma predisposição invulgar para entrar em mundos novos que faz com que o génio, no mesmo grau de dedicação, ora construa uma casa ora transforme a concretização de uma ideologia bizarra numa meta a atingir.

Acredito na tese de que aquele que se diz génio será lunático e cego de si próprio. Após este e outros escrutínios meios desordenados de casos que tenho vindo a investigar, mantenho a minha opinião. Só reitero é que o facto de se ser lunático ou ter uma imagem distorcida do eu não invalida que deixe de se pertencer à categoria de génio; pode, até, essa própria visão distorcida e resignada impulsioná-lo a sê-lo, de facto.

Texto de Jónatas Pereira