Tiro no porta-eleitores: Democracia ao fundo

Quase todos já jogamos batalha naval. Todos, sem excepção, já fizemos política.

Foto de Paweł Czerwiński via Unsplash

Num ou noutro tabuleiro, poderão dizer-me que o manual de instruções é igual há décadas enquanto questionam novos desfechos, contudo o estaticismo dos navios ou da discussão política a que muitos se habituaram venceu-os com um renovado ímpeto.

As novas formas de fazer e comunicar política são infindáveis e, pela outra face da moeda, também os novos interesses e preocupações na cidadania activa desafiam, logicamente, o status quo.

No entanto, a responsabilização política avança numa queda desamparada, perdida na moderna dicotomia combativa entre jovens adiados e velhos ultrapassados, absorvidos por mundos, e consequentes votos, díspares.

Não suficiente, alguns actores ágeis na futebolização da política, que têm como alvo o eleitorado com algum interesse e desmesurada paixão, hipnotizam pelo cúmulo do simplismo trazido à política, tirando proveito de velhos hábitos de seguidismo e ainda de uma ilusória valorização da opinião popular.

Só há um caminho: destruir a contra-informação associada a este fenómeno pela via da argumentação lógica e fundada, sem nunca menorizar ou passar ao lado de combates. A missão é capital: salvar a Democracia.

Enquanto mete água continuamente, presenciamos uma política que navega à vista e ao ritmo de ondas mediáticas, assente num oceano de conceitos mal explicados, prioridades cruamente inexistentes e propostas em nada debatidas.

Estas peculiaridades consagram-se na substituição de um selectivo conjunto de visões fortes por um reality show intelectualmente aleatório, com o velho “bitaite” levado a esferas que enfraquecem o seu conteúdo de forma a vincar a marca deixada no eleitor: a fast-politics. Um poder pelo poder assente no (i)mediatismo social, eleitoral e popularucho que não tem lugar na construção permanente e perpétua da sociedade ideal.

“Fala para as pessoas”, tantas vezes ouvimos. É este o salgado oásis no deserto de ideias. Mais do que este entretenimento em horário nobre, breve, superficial ou estrábico, é fundamental que se ambicione final e verdadeiramente a política transparente, formadora, informadora e reformadora.

A responsabilidade na política deriva da objectivada nobreza dos seus cargos e tem de ser vista como um jogo de médio ou longo prazo, sem receios de não chegar de imediato ao eleitor.

Não esquecendo que a política é a conjunção de vontades populares, é fundamental que a sociedade possa recuperar a confiança nos seus representantes políticos à medida que estes investem verdadeiramente na sua comunicação e responsabilidade. Se o eleitor não tiver informação suficiente e digerida com honestidade intelectual para completar o círculo da responsabilização, o sistema falhou à partida.

Haverá melhor retrato do ponto a que chegamos de irresponsabilidade, superficialidade e constante alienação políticas vividas do que esta aproximação a dois atos eleitorais que ameaçam romper paradigmas?

Numa sociedade afogada por rotinas vertiginosas será certamente verdade que não sobra muito do dia para qualquer prática cívica, mesmo que esta signifique apenas andar a par com a comunidade em que nos inserimos. É exactamente por isto que partidos, representantes ou eleitores devem trabalhar em conjunto por novas formas de estar na política, activa ou passivamente. Por outro lado, se é verdade que o homem é um animal político, também o é que o cidadão receoso não pode continuar a ser uma presa por via da desinformação ou descrença.

Mais do que vitórias emocionais em combates políticos desprovidos de ideias, um representante deve ao seu eleitorado a constante recusa de experimentalismos ou radicalismos, bem como a manifestação permanente do respeito pela sociedade de que é parte integrante. A Democracia está doente, mas parece que ninguém a quer curar.

Texto de Rui Guilherme Araújo