Tchüss, Elmar! O adeus de um dinossauro do Parlamento Europeu


Plenary session - Situation in Venezuela

Quanto e como vai mudar o Parlamento Europeu depois das eleições de maio de 2019 ainda não sabemos. No entanto, a configuração do hemiciclo já se prevê historicamente diferente pois, a partir de maio, deixará oficialmente de ter lugar reservado para Elmar Brok, o eurodeputado mais antigo da instituição e um dos mais icónicos.

Esta mudança parecia inimaginável para aqueles que já não equacionavam uma Europa sem o veterano, agora com 72 anos, que figura ininterruptamente na bancada do Partido Popular Europeu (PPE) desde as primeiras eleições europeias em 1979, concorrendo pelo partido conservador alemão, CDU. Após quase quatro décadas no Parlamento Europeu, Brok comunicou que não iria concorrer ao cargo, apesar de já ter demonstrado vontade de seguir para um novo mandato e ter sido apoiado por vários políticos alemães e europeus, entre eles o próprio Presidente da Comissão Europeia. Isto acontece semanas após o surpreendente anúncio da CDU de que não o iria integrar na lista estadual de candidatos às eleições europeias, apesar de, para muitos alemães, Brok continuar a ser o rosto da União Europeia no país e um forte angariador de eleitores.

Está, assim, pronunciado o fim da era de Elmar Brok e da geração vista como a “velha guarda” de que faz parte. Considerado um político influente tanto em Berlim quanto Bruxelas, Brok manteve-se durante toda a sua carreira um aliado próximo dos Chanceleres alemães Helmut Kohl (que o descreveu como “nascido, casado, eurodeputado”) e Angela Merkel. É conhecido, também, por manter relações estreitas com o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. Além disto, é um dos poucos rostos realmente familiares do Parlamento Europeu e um dos favoritos dos meios de comunicação para quem é o predileto no comentário de desenvolvimentos importantes na política europeia.

Ao longo dos seus 39 anos de carreira, Elmar Brok esteve envolvido de perto em vários momentos da construção europeia, nomeadamente na preparação dos tratados da União Europeia de Maastricht, Amesterdão, Nice e Lisboa. Liderou várias comissões em Bruxelas, mas foi enquanto presidente da prestigiada Comissão dos Assuntos Externos que se destacou mais, sendo particularmente respeitado pelo seu conhecimento em relação aos Estados Unidos e Rússia e afirmando-se um transatlântico convicto e um crítico feroz de Vladimir Putin.  Desempenhou, também, um papel influente na Comissão dos Assuntos Institucionais, um fórum central para o debate sobre o futuro da Europa. Atualmente, além de representante do PPE para o Brexit, é membro do Grupo Diretor do Parlamento Europeu sobre o Brexit. E é ainda o mentor de Manfred Weber, spitzenkandidat do PPE nas próximas eleições europeias.

Durante este período, Brok evoluiu gradualmente na cena alemã, tornando-se para muitos o alemão mais importante de Bruxelas. Naturalmente, cresceu na CDU, onde, após liderar vários comités do partido, finalmente foi recompensado pela sua lealdade a Angela Merkel com a elevação a membro do Conselho Nacional da CDU, o que lhe permitiu ter voz em todas as decisões partidárias importantes.

No entanto, a reputação de Elmar Brok não escapou a associações menos positivas ao longo da sua carreira. Além das suas funções enquanto eurodeputado, Brok trabalhou durante anos como lobista e conselheiro da Bertelsmann, o gigante alemão dos meios de comunicação, uma dualidade que levantou várias dúvidas a muitos, mas não foi questionada pelos Chanceleres que o eurodeputado serviu. A forte influência de Brok atuava também em Bruxelas onde procurou ajudar os seus amigos no seio das instituições europeias, mais notavelmente o seu protegido da Bertelsmann, Martin Selmayr, o polémico secretário-geral da Comissão Europeia, um cargo de topo da hierarquia dos funcionários europeus. Recentemente, e ofuscando o fim da carreira parlamentar de Brok, surgiram denúncias de cobranças aos eleitores que visitassem o político alemão no Parlamento Europeu, tendo conseguido obter mais de 18 mil euros indevidamente. Por estas e outras, o Politico reservou a Brok um lugar na lista dos eurodeputados que interessam pelas piores razões.

Não terão sido, contudo, estas polémicas a afastá-lo de um nono mandato europeu. O compromisso de longa data de Elmar Brok para com a Europa continua a evocar admiração em todo o espectro político, apesar destas persistentes questões sobre a sua ética. Os meios de comunicação alemães atribuem antes esta decisão histórica ao esforço do grupo regional da CDU a que Brok pertence em rejuvenescer e dar lugar a uma nova geração de políticos alemães, ao mesmo tempo que notam uma correlação entre que o fim da carreira de Brok, uma reflexão sobre o poder decrescente de Angela Merkel e a ascensão de novas dinâmicas dentro da CDU. Seria apenas inevitável – independentemente do cargo político, o fim é sempre certo e prova-se que qualquer um é substituível.

Ainda assim, será difícil conceber o Parlamento Europeu sem Elmar Brok. Até os seus adversários políticos notam que as décadas de experiência do eurodeputado alemão são essenciais para os tempos difíceis que se avizinham para a União Europeia, em particular o Brexit e a formação de uma nova Comissão Europeia. Aos que já sofrem de antecipação pela abstinência do futuro ex-eurodeputado, nada temam. Poderá deixar de existir um assento para Brok no hemiciclo, mas este continuará por perto a ser uma figura influente na política alemã e europeia, tendo sido eleito para os conselhos administrativos tanto da CDU como do PPE. Elmar Brok não se retirará, por isso, da cena política e promete lutar em campanha eleitoral pela Europa e pela CDU.

“A União Europeia está perto do meu coração e acredito que ainda posso contribuir com algo para o seu sucesso num momento difícil”, fez saber.

Aguardemos pelas suas palavras de despedida. Pelo fim da era de Brok no Parlamento Europeu.

Artigo de Sara Epifânio