The Favourite: uma envolvente tragédia grega na corte britânica

Yorgos Lanthimos dá corpo a sonho antigo da estreante Deborah Davis.

Emma Stone in the film THE FAVOURITE. Photo by Yorgos Lanthimos. © 2018 Twentieth Century Fox Film Corporation All Rights Reserved

Vindo da marginal cultural que é o cinema grego, Yorgos Lanthimos tem tido um trajecto linear e permanentemente ascendente. Pelo caminho vê-se obrigado a deixar cair alguns dos elementos mais pesados do seu cinema, como a língua grega que pautava as primeiras longas e reforçava o carácter dramático das narrativas, mas nem por isso perde a essência ou a originalidade do seu olhar. The Favourite é a última prova de que mesmo fazendo filmes cada vez mais consensuais para o grande público, Yorgos não abdica do seu toque de autor que nos lembra a audácia dos grandes cineastas, mantendo-se afastado de modas ou normalizações estéticas.

The Favourite é o primeiro filme marcadamente de época do realizador grego e mais um tema comum a que empresta a sua interpretação —  Yorgos parece querer mostrar-nos que não se resume a uma fórmula deambulando livremente entre temas e abordagens díversas mas nem por isso distantes do nosso imaginário. Neste caso não nos leva numa viagem ao espaço, nem acompanha histórias de jovens triufantes, infiltra-se onde tudo parece banal revelando todas as particularidades e estranhezas através do seu enquadramento. Depois de Dogtooth sobre o papel subversivo da educação na juventude, Alps sobre o luto, Lobster sobre o amor, e The Killing of a Sacred Deer, o thriler psicológico que se presta a várias interpretações mas que se pode sintetizar em torno da ideia do poder da sugestão mental, The Favourite é sobre a corte, um dos mais simbólicos núcleos de poder na história da humanidade.

Se quem vinha de Dogtooth e Alps, os dois filmes gregos mais mediatizados do autor, estranhou os dois primeiros rodados em inglês pela sua suavização do estilo de Lanthimos, em The Favourite as diferenças são ainda mais notórias. Os parâmetros técnicos do grego evoluíram mas o total de um filme depende da soma de outras partes como o argumento. E se nas 4 obras referidas Yorgos assumia a escrita em cooperação com Efthymis Filippou, neste caso o trabalho ficou a cargo da estreante Deborah Davis e Tony Macnamara, e começou pelas mãos da primeira há mais de 20 anos atrás.

Deborah Davis revelou em entrevistas o momento da sua vida que a motivara a empenhar-se na história. Quando era mais jovem lera num jornal londrino algo parecido com “Toda a gente sabe que Rainha Ana tinha uma affair com Sarah, Duquesa de Marlboroug” uma história que a cativara por revelar um pormenor intrigante que não lhe tinha sido contado nos seus tempos de estudar história na universidade. De lá para cá passaram-se mais de 20 anos, um número incerto. Em 1998 terá entregue a primeira versão do argumento à produtora Ceci Dempsey que lhe respondera que não estava pronta para a produção. Nos 2000 depois de estudar Guionismo entregou uma nova versão à produtora que ainda não tinha perdido o seu entusiasmo pela história. Em 2007 Ceci terá contactado Lee Magiday, de quem terá partido, em 2010, a ideia de dar o trabalho a um realizador “avant-gard” que acabaria por ser Yorgos Lanthimos.

Do mais que se pode saber das entrevistas de Deborah é importante dizer que terá sido o realizador grego a redifinir o final da história conferindo-lhe mais um volteface do que estava inicialmente previsto. É esse passo extra que Lanthimos empresta a história que a torna numa película especial sem ser todo um filme brilhante.

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O trama passa-se em 1708 quando, sob o reinado de Ana da Grã-Bretanha (Olivia Colman), as tropas inglesas enfrentavam as francesas e foca-se sobretudo na figura desta rainha coadjuvada por Sarah Churchill (Rachel Weisz), a quem se junta mais tarde Abigail (Emma Stone) na luta pelo lugar de favorita. The Favourite torna-se uma reflexão sobre a permeabilidade do poder mesmo nas questões mais sensíveis ao demonstrar a forma como Sarah explorava emocionalmente a rainha ao ponto de a persuadir a tomar as decisões que esta propunha. Abigail, a personagem que surge depois nesta disputa, acrescenta um nível a esta reflexão; não só porque discute com Sarah o papel de favorita e todo o simbolismo persuasivo que isso acarreta como pelo facto de entre elas, Sarah e Abigail, a luta pelo poder ser explícita embora motivada por diferentes objectivos. Sarah Churchill fala em sentido patriótico, Abigail só pretende recuperar o estatuto entretanto perdido.

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Em síntese: The Favourite não é o melhor filme de Lanthimos mas é uma prova da sua versatibilidade e capacidade de adaptação aos diferentes desafios. Para além disso pode ser visto como uma aproximação pop ao cinema de um dos cineastas mais icónicos do momento. Estão lá a música clássica e as orquestrações minimalistas a carregar o ambiente de tensão, está lá o humor negro, os planos arrojados, e o ritmo certo; a história pode não ter os contornos surrealistas que estávamos à espera mas nem por si deixa de estar marcada pelo toque do realizador do grego e pelas interpretações irrepreensíveis do trio feminino, de que muito dependem os seus filmes.

“O script era interessante mas eu queria fazer um filme diferente, em termos de tom. Restruturámos a história para focar mais nas três mulheres e reduzir o lado político” Yorgos Lanthimos

Uma última nota para o design da produção. Se Lobster já tinha tido um cartaz marcante, em The Favourite, o género, os marcadores entre capítulos e os créditos são um trabalho tipográfico interessante que traduz com mestria a tensão que se estabelece envolta do próprio projecto: com uma tipografia clássica, serifada, a ser trabalhada livremente mas sem adornos ou sem excessos, brincando simplesmente com o espaçamento entre linhas e o alinhamento das mesmas.