Perigo antivaxxer: quando os pais põem os filhos em risco

Com a democratização de viagens aéreas low cost, o movimento antivaxxer passou a ter consequências nas políticas de saúde pública que vão além do nível nacional e do nível europeu.

Foto de Hyttalo Souza via Unsplash

O termo antivaxxer denomina pessoas do movimento anti-vacinas que se recusam a ser vacinadas ou a vacinar os seus filhos. Esta é uma questão que preocupa as autoridades de saúde pública, nomeadamente a Organização Mundial de Saúde, que definiu a hesitação em vacinar como uma das dez ameaças à saúde global a combater em 2019.

Os países europeus, vítimas do sucesso das vacinas, são dos com maiores taxas de recusa de vacinas, apesar do acesso facilitado. Actualmente, dentro das doenças evitáveis por vacinação, as maiores preocupações são com o sarampo pelo seu elevado nível de contágio, sendo a Roménia, França, Itália e Polónia os países com maior número de casos reportados em número absoluto no último ano.

A nível nacional, a implementação e cobertura de vacinação contra doenças contempladas no Programa Nacional de Vacinação é feita com resultados extremamente eficazes, sendo que os casos mais recentes de contágio por doenças contempladas pelo Programa são casos importados ou então em doentes não vacinados.

De forma a combater que esta hesitação se traduza em reincidência de epidemias semelhantes às existentes previamente ao advento da imunização, países como Itália tornaram obrigatório o cumprimento do programa de vacinação do país para crianças ao ingressarem na escola. São dez as doenças para os quais a vacinação é obrigatória, seja para ingresso em creche ou ensino pré-escolar: poliomielite, difteria, tétano, pertussis (tosse convulsa), hepatite B, contra Haemophilus influenzae tipo B, sarampo, papeira/parotidite, rubéola e varicela.

Esta decisão não foi tomada, no entanto, sem hesitação política: o Movimento 5 Estrelas (M5E), actualmente em coligação com o partido Liga Norte, tinha prometido em Janeiro do ano passado revogar a lei aprovada pelo governo anterior, mas afinal, a actual Ministra da Saúde, Giulia Grillo, decidiu manter a “obrigatoriedade flexível”, sendo que foi feita uma adenda que permite aos pais certificarem se os seus filhos estão ou não vacinados. As crianças com sete ou mais anos apenas poderão frequentar a escola primária sem estar imunizadas após o pagamento de uma multa que poderá chegar aos 500 euros.

Da Europa para o mundo

Com a democratização de viagens aéreas low cost, o movimento antivaxxer passou a ter consequências nas políticas de saúde pública que vão além do nível nacional e do nível europeu.

No estado de Washington, nos EUA, foi declarado estado de emergência em Janeiro deste ano após um surto de sarampo, com 72 casos confirmados, sendo apenas três destes casos adultos. A maioria das crianças afectadas não tinha as duas doses recomendadas da vacina MMR contra o sarampo.

O caso de Washington não tem comparação, apesar de tudo, com a crise de sarampo actualmente a decorrer nas Filipinas e Madagáscar: 261 pessoas já morreram no país asiático e 1141 na ilha africana, sendo a maioria das vítimas crianças, em ambos os países. No caso das Filipinas, esta epidemia segue-se a uma diminuição da confiança dos filipinos nas vacinas e consequentemente na taxa de vacinação, após um susto, em 2014 com a vacina contra o vírus da Dengue, a Dengvaxia, que conferia menor protecção a quem nunca tinha desenvolvido a doença previamente à vacinação.

No caso de Madagáscar, acontece justamente o oposto: existe vontade de os pais vacinarem as crianças mas a pobreza extrema e a mal nutrição são desafios que os cuidados de saúde precários não conseguem combater. Mais ainda o sarampo é uma doença endémica da ilha e apenas um terço das crianças encontram-se vacinadas, sendo a insularidade de Madagáscar um factor de preocupação, num país cujo o número de pessoas afectadas ultrapassou os 86 000 segundo o relatório da Organização Mundial de Saúde desta semana.

Também em Fevereiro a Costa Rica recebeu um novo caso de sarampo: de uma criança francesa, não vacinada, cujos contactos próximos incluíram a família, passageiros do voo para a América Central, hóspedes de um hotel em San José e de um resort na aldeia de Santa Teresa. A criança foi internada na cidade de Puntarenas, estando também a família em isolamento, sendo que a mãe da criança também não se encontra vacinada. Este é um país cujo último caso de sarampo foi em 2014, de origem estrangeira, e o último caso endémico foi em 2006.

A fraude por trás do movimento

O movimento anti-vacinas já existe desde o fim do século XIX, tendo origem em Leicester, Inglaterra, mas é no fim do século seguinte, em 1997, que ganha força no Reino Unido, Estados Unidos e Irlanda, após a publicação de um artigo na conceituada revista médica The Lancet, que sugere correlação entre a Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) e a administração da vacina contra a rubéola, sarampo e parotidite/papeira (MMR em inglês, vacina tríplice VASPR em português) pelo ex-médico britânico Andrew Wakefield.

Este artigo foi retirado em 1998 pela Lancet por diversos motivos, entre eles fraude, falsificação de dados e conflito de interesses. Vários artigos publicados por Brian Deer em 2004, jornalista de investigação pelo The Sunday Times, levaram a um inquérito pelo British General Medical Council, que posteriormente retirou a licença de prática médica a Wakefield. O inquérito revelou aquilo que já se suspeitava pela investigação jornalística: conflito de interesses de origem financeiraAndrew Wakefield recebeu cerca de 400 mil libras directamente de uma firma de advogados que preparava uma acção legal contra os fabricantes da vacina da MMR –, falsificação de dados e realização de procedimentos desnecessários a doze crianças, procedimentos esses que constituíram violação ética do interesse dos doentes.

Mesmo após a descredibilização total de Andrew Wakefield, a verdade é que o mito que as vacinas causariam autismo correu o mundo, reforçando crenças prévias que a imunidade ‘natural’ das crianças deveria ser estimulada por infecções reais e não por imunoterapia. Estudos epidemiológicos mostraram uma diminuição da cobertura geral das vacinas após 1997, embora ano após ano tenham sido realizados estudos com amostras significativas que não encontraram nenhuma correlação e causalidade para o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e administração de qualquer tipo de vacina, com microorganismos vivos, mortos ou atenuados.

O estudo mais recente foi publicado este mês no The Annals of Internal Medicine e possui a maior amostra até agora conhecida dentro de estudos do mesmo género: inclui 6517 crianças dinamarquesas com o diagnóstico de Perturbação do Autismo numa amostra de 650000 crianças que foram vacinadas nos últimos anos na Dinamarca. Este estudo volta a provar não existir correlação ou causalidade entre a administração da MMR/VASPR e autismo, mesmo em grupos com maior suscetibilidade (pais mais velhos ou irmãos com PEA).

Como consequência, este movimento que advoga a liberdade dos pais escolherem se querem ou não vacinar os seus filhos, acaba por tirar proveito de (e ao mesmo tempo enfraquece) o fenómeno conhecido como ‘imunidade de grupo’ (herd immunity): elementos de uma comunidade que não estão vacinados e/ou não podem ser vacinados por doenças associadas a imunodepressão grave, acabam por estar protegidos quando se atingem coberturas vacinais superiores à taxa de propagação de dada doença a partir de um ‘doente 0’ ou primário inserido numa população totalmente suscetível.

Se tens dúvidas em relação a vacinas incluídas ou extra Plano Nacional de Vacinação, consulta o site de FAQs da Direcção Geral de Saúde e o consenso da Sociedade Portuguesa de Pediatria. Se viajares, marca com antecedência uma Consulta do Viajante. As vacinas protegem-te a ti e aos outros.