Comprar um iPhone é cada vez mais subscrever um iPhone

A era do iPhone terminou e é nos serviços que a Apple encontra o seu próximo futuro, com o software a ser aquilo que lhes dá forma e o hardware da Apple a ser onde eles vive. A keynote da Apple desta segunda-feira foi toda sobre serviços. Foi também uma apresentação do novo modelo de negócio da maçã.

Foto via Apple

O iPhone já não rende. Com o decréscimo nas vendas e na procura por aquele que foi a parte central do modelo de negócio da Apple, esta tem apostado no aumento do preço do seu smartphone, aumentado o ciclo de vida e apostando em serviços para fidelizar os consumidores. Acima de tudo, a Apple é um negócio e o iPhone foi apenas uma era.

Ao longo da sua história, a Apple já mudou o seu foco várias vezes para salvaguardar a empresa. Em 2001 foi o iPod e toda uma era em que o pequeno reprodutor portátil alavancou um negócio de música em torno do download e do iTunes, e puxou as vendas do Mac. A Apple podia, então, aumentar a sua oferta de hardware ao mesmo tempo que criava um ecossistema de software do qual os utilizadores não conseguiam ou queriam sair. Saíram novos Macs, apareceu o iPad, o iCloud, o Apple Music, a Apple TV e, claro, o iPhone. Este tornou-se rapidamente o produto de excelência da Apple, a base que sustentou o negócio durante largos anos.

A Oprah na keynote da Apple (foto via Apple)

A era do iPhone terminou e é nos serviços que a Apple encontra o seu próximo futuro, com o software a ser aquilo que lhes dá forma e o hardware da Apple a ser apenas um suporte ou uma forma de acesso. A keynote da Apple desta segunda-feira foi toda sobre serviços. Foi também uma apresentação do novo modelo de negócio da maçã. A maioria do que foi anunciado não vai chegar às mãos dos utilizadores tão cedo e nem todos os preços foram revelados. Mas a Apple prometeu. Vêm aí quatro subscrições: uma de filmes e séries (concorrente ao Netflix), uma de jogos, uma de notícias e uma bancária (piscar o olho ao Revolut). Chamam-se Apple TV+, Apple News+, Apple Arcade e Apple Card. Dos quatro, só o Apple News+ já está disponível por 9,99 dólares/mês nos EUA e Canadá (globalmente só mais à frente); já o Apple Card chega no Verão, e o Apple TV+ e Apple Arcade no Outono.

Com todos esses novos serviços, e os já existentes – iMessage, Apple Photos, iCloud, Apple Music e Apple Pay – comprar um iPhone é cada vez mais um acto de subscrição. E não só um iPhone, mas também um iPad ou um computador Mac. O ecossistema da Apple não será só um mundo em que os produtos da maçã comunicam perfeitamente entre si, mas também a única porta de entrada para um conjunto de conteúdos. Com excepção do Apple TV+, que também estará disponível em televisões da Samsung ou na box da Amazon, ou do Apple Music, que podemos ouvir num Android ou Windows (mas não num GNU/Linux), todas as outras subscrições funcionarão no hardware Apple. Mesmo quem assine o Apple TV+ num equipamento da Samsung, se calhar na hora de decidir o seu próximo telemóvel optará por um iPhone em vez de um Android porque também tem o serviço lá.

Em que consistem os novos serviços da Apple?

  • Apple News: o serviço de notícias da Apple vai passar a ter a modalidade gratuita de sempre, que agrega conteúdo publicado online por órgãos de comunicação social, e ganhar uma modalidade paga. O Apple News+ já está disponível por 9,99 dólares/mês nos EUA e 12,99 dólares/mês no Canadá, estando prometida expansão para Reino Unido, Austrália e Europa no final deste ano. O Apple News+ é uma subscrição que dá acesso ilimitado ao formato digital de uma variedade de revistas que costumam estar nas bancas, bem como aos conteúdos premium de algumas publicações, como a paywall do The Wall Street Journal ou o The Highlight by Vox. O Apple News+ poderá ser usado no iOS e macOS e famílias podem partilhar a mesma subscrição.

  • Apple Arcade: os jogos de telemóvel redefiniram a ideia de gaming, antes associada ao PC ou à consola da sala de estar. Na App Store há jogos para todos os gostos à base do download. O Apple Arcade é uma proposta diferente: trata-se de uma subscrição mensal, de valor ainda não anunciado, que dará acesso a mais de 100 jogos – Where Cards Fall, The Pathless, LEGO Brawls, Hot Lava, Oceanhorn 2: Knights of the Lost Realm e Beyond a Steel Sky são apenas alguns deles. O Apple Arcade estará disponível a partir do Outono em mais de 150 países (por isso, presume-se que Portugal esteja na lista) e permitirá jogar os títulos em qualquer dispositivo: iOS, macOS ou tvOS. É um concorrente directo ao Google Stadia recentemente apresentado.

  • Apple TV: Apple TV deixou de ser o nome da pequena box que ligamos ao televisor para passar a ser uma experiência de televisão em que o hardware é mero intermédio. A Apple apresentou a Apple TV como um serviço de filmes e séries que agrega conteúdos de diferentes distribuidores: plataformas de streaming como o Hulu ou o Prime Video, serviços de televisão de operadoras como a DirectTV Now ou a PlayStation Vue, filmes da loja iTunes e canais premium distribuídos pela Apple como a HBO ou a Showtime. Tudo junto resulta numa interface em que em vez de fazermos zapping pelos canais, escolhemos o thumbnail do programa que queremos ver – estilo Netflix. A app da Apple TV chegará em Maio ao iOS e tvOS em mais de 100 países; às televisões da Samsung ainda esta Primavera (televisões de outras fabricantes também terão a app da Apple TV mas só mais tarde), e ao macOS recebe-a no Outono. A app da Apple TV vai também ser a porta de entrada para o Apple TV+, um serviço de subscrição em que a Apple ambiciona entregar programação original dos “artistas criativos mais célebres do mundo, incluindo Oprah Winfrey, Steven Spielberg, Jennifer Aniston, Reese Witherspoon, Octavia Spencer, J.J. Abrams, Jason Momoa, M. Night Shyamalan, Jon M. Chu e mais”. O Apple TV+ ainda não tem preço e só chegará no Outono.

  • Apple Card: o iPhone vai passar a ser também um cartão bancário. O Apple Card é um cartão virtual que os utilizadores poderão usar para fazer pagamentos em lojas que aceitem pagamentos com telemóvel via Apple Pay. Nas lojas que não aceitem Apple Pay, podem pagar com uma versão física do Apple Card, que poderão adquirir. Na app Wallet do iPhone, estará um registo das despesas realizadas com o cartão, numa forma fácil de compreender e com gráficos que ajudam a visualizar os gastos ao longo de uma semana. O Apple Card contará com um programa de recompensas, em que os utilizadores recebem 2% do valor que gastaram na forma de Daily Cash, isto é, de dinheiro que depois podem gastar ao realizar pagamentos com o Apple Card. O cartão bancário da Apple é uma resposta ao sucesso do Revolut e chegará aos EUA no Verão. Esta novidade resulta da parceria entre a Apple e o o gigante grupo financeiro Goldman Sachs.

Comum a todos os serviços apresentados é a promessa de não existir publicidade, nem recolha de dados dos utilizadores para vender a anunciantes — sobram dúvidas sobre se por exemplo a Goldman Sachs não terá acesso a informação das compras efectuadas com o cartão de crédito. A Apple tem vindo a fazer da privacidade a sua aposta, como que em resposta às fragilidades que recentemente se veio a descobrir sobre o Facebook e à crescente sensibilização dos internautas para os modelos de negócio das grandes tecnológicas.

Uma panóplia de serviços, hardware e software para os consumir, e privacidade garantida. É este o novo mundo Apple, carregado de maravilhas e promessas, que a Apple nos quer vender. Será que é um bom mundo?