Uma terapia de jazz

Mais que um festival de jazz, o Évora Jazz Fest revelou-se um fim-de-semana terapêutico.

Sumrrá, a surpresa do Évora Jazz Fest (foto Shifter)

Sentados, de mantinha ao colo, na plateia de Theatro antigo, debaixo de um tecto cuja beleza misteriosa a luz do palco vai descobrindo. Estamos prontos para embarcar na primeira de três ou quatro viagens de uma hora ao som de jazz.

Estas viagens têm significados diferentes para cada um dos seus tripulantes. Para uns serve de momento de introspecção, para estarmos connosco próprios e com os nossos pensamentos como tantas vezes não conseguimos estar. Para outros pode ser uma aula de música misturada com performance teatral, em que nos focamos numa parte do combo de cada vez, explorando o seu som e apreciando a relação física que o músico desenvolve com esse instrumento. Estes dois exercícios podem, contudo, misturar-se ao longo das viagens; podem também experimentar-se outros ou passar por momentos em que só nos apetece fechar os olhos e concentrar no som puro que tão bem caracteriza o jazz.

O jazz, no fundo, pode funcionar como uma terapia. Um antídoto para acalmar o stress depois de um dia ou de uma semana complicada.

Mantinha para os concertos do Évora Jazz Fest (foto Shifter)

Festivais de jazz não são escassos em Portugal, é um género musical que serve de mantra de programação de norte a sul do país, convidando os apreciadores do estilo a embarcar nessa terapia. Estamos em Évora, no coração cultural do Alentejo. O Évora Jazz Fest, que se realizou no fim-de-semana de 15 a 17 de Março no Teatro Garcia de Resende, pelo segundo ano consecutivo, não é, por isso, um festival único mas não deixa de procurar ser singular. A organização diz que o Évora Jazz Fest se demarca “dos demais eventos similares do panorama nacional por fazer do jazz um elemento de ligação entre diversos estilos artísticos, ou, se se preferir, por fazer do jazz um eixo central para o desenvolvimento de várias artes”. Não poderia ser mais verdade.

O festival arrancou na sexta-feira e terminou no domingo com uma semelhança: piano + contrabaixo + bateria foi a combinação com que Victor Zamora Trio e Sumrrá, dois dos “cabeça-de-cartaz”, se apresentaram em palco, proporcionando, todavia, dois percursos únicos e, no caso de Sumrrá, particularmente inesquecível. Mas já lá vamos.

Começando pelo início. Victor Zamora nasceu em Cuba rodeado de ritmos latinos, mas foi o piano que os agarrou. Em Évora, o baixo definiu o ambiente e a bateria o ritmo para a melodia que Victor Zamora ia construindo no seu piano. Houve momentos de improviso, pois claro, ou não estivéssemos perante um concerto de jazz. O jazz tem essa magia do improviso que não é fácil de descrever e que, apesar de existir noutros géneros musicais como o rock, tem neste caso uma complexidade curiosa e empolgante. No trio de Victor Zamora, tal como em Sumrrá, cada um está por si, depois juntam-se e depois afastam-se, integrando-se sempre no ritmo. A magia está precisamente nesta coordenação, tudo acaba por fazer sentido musicalmente aos nossos ouvidos apesar de não percebermos o truque.

O disco de Sumrrá (foto Shifter)

Escutar Victor Zamora Trio foi um belíssimo começo para este fim-de-semana de terapia; fechámos os olhos, aquecidos pela mantinha, foi uma hora que se varreu num instante.

Mas Sumrrá – o trio de jazz do pianista Manuel Gutierrez, do contrabaixista Xacobe Martínez e do baterista L.A.R. Legido – acabou por ser a surpresa de todo festival. São da Galiza, têm quase duas décadas juntos e seis discos. O último deles – 6mulleres – foi o que trouxeram a Évora (concerto que contou ainda com uma revisita e outra a álbuns mais antigos); são seis faixas sobre seis “mulheres poderosas que foram ou ainda são fonte de inspiração”: Frida Kahlo, Malala Yousafzai; Rosa Parks, Qui Jin, Nawal El Saadawi e Rosalía de Castro. É um disco com uma ideia muito engraçada e com uma concretização que segue a toada: o ritmo, a energia e o sentimento de cada música encaixam com a figura e personalidade da mulher que retrata. Retratar é um bom verbo aqui; a música capaz de se substituir à pintura e fotografia.

O baterista em Sumrrá (foto Shifter)

Se escutarem este disco no vosso serviço de streaming favorito, não vão encontrar a mesma experiência que ao vivo. É em palco que o baterista, L.A.R. Legido, se dá ao trabalho de testar os limites do jazz, experimentando técnicas que não estamos habituados a ver neste género musical. De repente há panelas a cair em cima dos pratos da bateria, uma fita adesiva daquelas grandes a ser esticada à frente do microfone, um balão a esvaziar e a produzir aquele som agudo…

E quando pensamos que já vimos tudo, eis que em cima dos tambores surgem bonecos de corda a produzir barulhos inesperados mas que, tal como tudo o resto, parecem fazem tanto sentido na música. Tudo o que o baterista metia em cima ou à frente da bateria parecia ter um propósito muito claro, cair no momento certo, ter o som que se esperava para aquela panóplia de improvisação. Ficámos todos de boca aberta; o público aplaudindo calorosamente aquela actuação cheia de força, dramatismo e criatividade.

Sumrrá provam que o jazz não é um conceito estático e que pode ganhar as formas que os músicos entenderem. Mas a variedade coesa do Évora Jazz Fest pudemos ver sobretudo no “palco secundário”, à entrada do Teatro Garcia de Resende. Foi lá que Victor Zamora, de novo ao piano mas agora como parte dos Havana Way, mostrou que Cuba é capaz de produzir muito bom jazz e ao mesmo tempo dar outra vida a todos aqueles sons e ritmos que nos vêm à cabeça quando pensamos na América Latina. “Por favor bailem que bailar también es improvisación”, diz Victor Zamora. O público estava tímido, apesar do pedido; mas, de repente, um par que parecia profissional surge a convidar outros para dançar e o gelo quebra-se; a festa fica instalada.

Havana Way (foto Shifter)

A programação do Évora Jazz Fest tinha sempre um ou dois concertos na sala do Teatro, para ouvir sentado e concentrado no palco, e um “after hours” lá fora, mais mexido, mais dinâmico. No primeiro dia, foram os Havana Way; no segundo dia, viajámos até aos EUA dos anos 1910-1920, mais concretamente a Nova Orleans, para reencontrar o Dixieland jazz. Em Évora, os SevenDixie recriam essa energia com uma carrada de instrumentos em palco e um toque de swing que também convidava a dançar. Na terceira e última noite, uma indispensável jam session com o Beck & Lopes Grupo – improviso e experimentação nos verdadeiros sentidos das palavras.

SevenDixie (foto Shifter)

O sábado foi o dia mais concorrido; Elisa Rodrigues uniu a sua voz ao piano de Isabel Rato. Juntas são a Veia e apresentaram originais mas também algumas reinterpretações de canções que tinham a ver com a presença essencial da mulher no mundo e no amor. “O amor é um caminho bonito que se faz através de outra pessoa”, disse Elisa a certo momento do concerto.

Seguiu-se Ricardo Toscano com o seu saxofone, em modo quarteto: João Pedro Coelho, Romeu Tristão e João Pereira ocupavam o piano, contrabaixo e bateria. Na casa dos 20 e poucos anos, são jazz jovem a surgir em Portugal. São bons e têm muito para dar, como mostraram neste Évora Jazz Fest. A sua juventude notava-se na energia que colocaram no ritmo e melodia das músicas, mas também numa maior desconexão entre o quarteto; mas não deixa de ser um concerto rítmica e melodicamente com muito sentido.

Ricardo Toscano Quarteto (foto Shifter)

Com duas edições bem sucedidas, o Évora Jazz Fest é um festival que vale a pena visitar, visitando também Évora – cidade que, de comboio, está pertíssimo de Lisboa. Os bilhetes não são caros: 10 euros por noite ou 25 pelas três noites; e quem tem menos de 30 anos não paga nada.

Até para o ano!