Uma viagem à intimidade dos First Breath After Coma ao som de NU

Sabem quando estamos a ouvir rádio semi-distraídos com algo e, de repente, passa uma música que nos chama à atenção e nos arrepia? Aconteceu-me com “Change”, do novo disco dos First Breath After Coma.

Os First Breath After Coma a apresentar o seu NU em Leiria (foto via Shifter)

Leiria é aquela pessoa que não se dá a conhecer facilmente. Não é uma cidade turística como Óbidos ou Nazaré; é mais tímida e discreta, mas quando insistimos e puxamos conversa começamos a descobrir os seus encantos. De Leiria para o resto do país e para o resto do mundo também, por exemplo, tem saído muito boa música: Surma, Nice Weather For Ducks, Whales, First Breath After Coma… Nomes editados pela Omnichord Records, que é de cá. Há uma “cena musical” muito forte em Leiria, que as fachadas por vezes semi-adormecidas do centro histórico não contam. Mas se há algo que aprendi no curto tempo que estive em Leiria é que não podemos julgá-la pela fachada.

Lá todos se conhecem e quando não se conhecem passam a conhecer-se. “Queríamos jantar para ir ao concerto a seguir”, “olha, nós também vamos”. O concerto dos First Breath After Coma ‘em casa’ (e com promessa de casa cheia) para apresentação de NU era tópico de conversa até no bar do hostel, onde fiquei que, por coincidência, é de um dos membros dos Nice Weather For Ducks.

A viagem de Lisboa a Leiria para ir ver os First Breath After Coma foi dolorosa; já a viagem por NU teve a sensação oposta. Sabem quando estamos a ouvir rádio semi-distraídos com algo e, de repente, passa uma música que nos chama à atenção e nos arrepia? Aconteceu-me com “Change”, do novo disco dos First Breath After Coma. Perdoem-me ter começado este texto na primeira pessoa, mas venho falar de um álbum, algo com que cada um estabelece uma relação diferente. A minha com NU começou com um arrepio. E depois desse arrepio vieram outros.

A capa de NU (imagem via Omnichord Records)

Foi em 2012 que o Rui Gaspar, o Telmo Soares, o João Marques, o Roberto Caetano e o Pedro Marques se juntaram; um ano depois estavam a editar The Misadventures of Anthony Knivet e, em 2016, colocavam cá fora Drifter, aquele sempre difícil segundo álbum. Entre os dois trabalhos de estúdio, tocaram cá dentro e lá fora numa dezena de países; uma dessas viagens contada na primeira pessoa no Shifter, quando com o Drifter foram convidados para representar Portugal no festival germânico Reeperbahn. Passaram também pelo Eurosonic em 2016, o ano em que todos os holofotes estavam na música portuguesa.

Um álbum íntimo e completo

NU é o seu novo trabalho e um convite dos First Breath After Coma para descobrirmos a sua intimidade. Um disco criado por cinco rapazes a viver durante seis meses na mesma casa, reabilitada pelos próprios numa localidade chamada Reixida, a poucos metros de distância do seu estúdio pessoal, onde costumavam trabalhar. Partilharam gostos, angústias, medos, sonhos. As oito faixas – que descrevem como oito telas – foram sendo pintadas por um, por outros e por uns e outros, nem sempre ao mesmo tempo. Cada um com o seu pincel mas todos com a mesma ideia para o quadro final.

Foto promocional dos First Breath After Coma (via Omnichord Records)

A produção, gravação e concretização deste NU há de ter sido tão diversa e espontânea como é a dinâmica de cinco amigos a viver juntos numa mesma casa, conhecendo-se melhor entre si e de formas a que antes não se permitiam. Uma das músicas, por exemplo, a “I Don’t Want Nobody”, que encerra o disco, saiu da cabeça do Rui às seis da manhã depois de uma bebedeira, contou a banda durante a apresentação do disco em Leiria. Mas, apesar da dinâmica no processo criativo, o resultado final é coeso, como oito telas da mesma série.

Com menos de rock e sem colaborações, NU é, acreditamos nós, um reflexo despido de quem são os First Breath After Coma. Um trabalho que trata as fragilidades e forças do ser humano, a partir das angústias e paixões da banda leiriense. NU, o disco, vem acompanhado de NU, o filme, no qual as oito telas sonoras ganharam cor e imagem num processo criativo que também decorreu ‘em casa’. Sem narrador, nem diálogos; o som do filme é o álbum, com cada canção a dar lugar a uma cena. São 35 minutos, oito cenas, oito faixas, oito palavras: fragility, fondness, empowerment, attraction, wreckage, helplessness, anguish e maze. A Casota Collective, um colectivo audiovisual do qual Telmo, Pedro e Rui fazem parte, e que se dedica sobretudo à produção de videoclipes, deu uma ajuda no filme.

NU, o álbum visual (screenshot via Omnichord Records)

Com o álbum sonoro e o visual na bagagem, os First Breath After Coma têm mais uma digressão europeia agendada e vontade de mostrar o filme que fizeram em festivais de cinema. Esta quarta-feira, actuaram em Leiria perante uma sala cheia que dava a ideia de que toda a cidade se tinha ido despedir carinhosamente da banda. Sentados e sem telemóveis no ar (porque não eram permitidos), pudemos ter acesso no Teatro José Lúcio da Silva à terceira forma de NU: o álbum ao vivo. Depois de Leiria, os First Breath After Coma seguiram para Lisboa e tocam esta sexta-feira no Porto. Coimbra vai ser no sábado, antes de apanharem o avião para Espanha, Holanda, Luxemburgo ou Alemanha. A Portugal regressam pelo menos a tempo dos festivais tendo para já concerto marcado para o Vodafone Paredes de Coura.