O dia em que o império do Facebook caiu

A família de apps e serviços do Facebook, composta pelo Facebook, Messenger, Instagram, WhatsApp, Workplace e Oculus, sofreu a maior interrupção de sempre: 14 horas. Razões ainda desconhecidas.

Foto de Anthony Quintano via Flickr

Nunca se tinha visto algo assim. As aplicações e serviços do Facebook – Facebook, Messenger, Instagram, WhatsApp, Workplace e Oculus – estiveram parcialmente inacessíveis para vários utilizadores por todo o mundo durante 14 horas. Foi a maior interrupção de sempre sofrida pelo Facebook; empresa (ainda) não avançou os motivos.

O que aconteceu?

De acordo com estimativas oferecidas pelo site DownDetector.com, que monitoriza alguns dos sites mais populares da internet, as aplicações do Facebook começaram ‘aos soluços’ por volta das 16 horas de quarta-feira e só estabilizaram pelas 5/6 da manhã desta quinta-feira.

Screenshot via DownDetector.com

Durante as 14 horas que durou a interrupção, era possível abrir os sites ou apps do Facebook, Messenger, Instagram e WhatsApp, mas algumas partes dos serviços encontravam-se inoperacionais. Por exemplo, novos posts ou Stories não carregavam no Instagram, dava erro quando se tentava publicar algo no Facebook, o envio de fotos pelo WhatsApp não funcionava e o Messenger estava igualmente instável. De acordo com a BBC, empresas que usam o Workplace, o concorrente do Facebook ao Slack, para comunicação interna ficaram sem conseguir fazê-lo; a Oculus também esteve em baixo, impossibilitando jogadores de aceder aos jogos comprados através da Oculus Store e a outras funcionalidades da plataforma de realidade virtual do Facebook, segundo o The Verge.

Além de todos esses constrangimentos, quem usa a sua conta de Facebook para entrar em aplicações como o Spotify ou Tinder ficou sem conseguir fazê-lo durante as 14 horas de interrupção.

Facebook usa Twitter para explicar situação

Como habitual quando o Facebook ou o Instagram sofrem interrupções, a empresa recorreu ao Twitter para informar a sua comunidade. O primeiro tweet do Facebook sobre a interrupção foi feito às 17h49 de quarta-feira, quando ainda, muito provavelmente, não se previa a magnitude que a situação viria a ganhar. “Sabemos que algumas pessoas estão a ter problemas a aceder à família de apps do Facebook. Estamos a trabalhar para resolver o problema o mais rápido possível”, escreveu a rede social.

Passada uma hora, o caso começa a parecer mais grave que o habitual, à medida também que mais pessoas começam a aperceber-se que algumas das apps que mais usam não estavam a funcionar correctamente. As interrupções no Facebook não costumam ser tão demoradas nem ser transversais a todas as aplicações. Às 19h03, a conta de Twitter do Facebook publicava uma actualização: “Estamos empenhados em trabalhar para resolver o problema o mais rápido possível, mas podemos confirmar que não está relacionado a um ataque de DDoS.”

Só às 4h41 de quinta-feira é que a conta de Twitter do Instagram publicava: “Eeeee…. estamos de volta”, juntamente com um GIF da Oprah. A conta do Facebook não publicou mais nenhuma novidade, mas por essa hora toda a plataforma parecia estar a dar sinais de normalidade.

Quebras no Facebook, Instagram e outros serviços da empresa de Mark Zuckerberg não são frequentes mas acontecem ocasionalmente, durante geralmente alguns minutos ou poucas horas. Como põe o correspondente da BBC em Silicon Valley Dave Lee, “o intervalo de tempo, mais o número de utilizadores afectados, faz desta interrupção confortavelmente a mais grave na história do Facebook”. Em 2010, uma grande interrupção deixou os então 500 milhões de utilizadores do Facebook ‘à nora’ durante duas horas; o problema esteve relacionado com uma parte (um cluster) da base de dados e foi resolvido com um simples desligar e voltar a ligar. Hoje, o Facebook tem 2,3 mil milhões de utilizadores a usar só a sua rede social principal; o Instagram soma mais um mil milhões e o WhatsApp, que também pertence à família, conta mais de 1,5 mil milhões.

Qual foi a causa?

O Facebook não chegou a avançar a causa da gigantesca quebra desta quarta e quinta-feiras. No Twitter, entre as hashtags #FacebookDown e #InstagramDown que rapidamente se tornaram tendência, memes e piadas, começaram a circular rumores de que se trataria de um ataque de DDoS, um tipo de ataque em que piratas inundam a rede de uma empresa colocando a sua plataforma offline. O Facebook prontamente desmentiu essas suspeitas, mas não apresentou qualquer fundamento.

Ainda sem explicações oficiais, um repórter da NBC News avança, citando uma fonte do interior do Facebook, que o já histórico incidente esteve relacionado com uma sobrecarga das bases de dados: “Estamos numa correria para colocar de pé novas máquinas à medida que outras se desligam. Quase resolvido… mas demora tempo”, terá dito essa fonte.

O especialista em redes sociais Matt Navarra especula que o Facebook dará uma explicação para o sucedido em 24-48 horas.

Falta de timing do Facebook e timing para o Telegram

Quarta-feira, 13 de Março de 2019, foi o dia em que o império de Mark Zuckerberg caiu para só se erguer de novo na madrugada do dia seguinte. Mesmo com a “casa a cair”, a empresa não deixou de apresentar novas funcionalidades. Irónico e notório de falta de timing.

A interrupção foi tão grave que, segundo avançou a repórter de tecnologia da Bloomberg Sarah Frier no Twitter, citando um porta-voz do Facebook, a empresa está (ou chegou) a considerar devolver o dinheiro que anunciantes investiram em publicidade na plataforma aos donos.

A quebra magnânima em todo o Facebook aconteceu um dia depois de vários serviços da Google terem sofrido problemas durante cerca de duas horas: Gmail, Google Drive e YouTube estiveram entre os serviços afectados, conforme reporta a publicação BGR. Quem ganhou com a interrupção de 14 horas na família Facebook foi o Telegram – a aplicação de chat concorrente ao Messenger e WhatsApp passou a contar com três milhões de novos utilizadores nas últimas 24 horas, conforme anunciou o CEO, Pavel Durov, no seu canal no Telegram. Segundo os dados mais recentes, o serviço tem 200 milhões de utilizadores activos. “Boa. Temos verdadeira privacidade e espaço ilimitado para todos”, escreveu Durov.

O incidente que colocou o império do Facebook parcialmente offline não foi a única notícia a marcar ontem a actualidade da empresa; pelo New York Times, enquanto os engenheiros do Facebook provavelmente estavam numa correria para resolver a falha, soube-se que a tecnológica está em investigação pela justiça norte-americana por causa das parcerias que a firma de Mark Zuckerberg fez com algumas empresas, permitindo-lhes acesso especial a dados dos utilizadores.

Duas notas finais

Não se podia terminar este artigo sem lançar o mote para duas reflexões:

  • a nossa dependência dos serviços do Facebook é tal que, quando uma interrupção desta dimensão acontece, ficamos sem conseguir usar convenientemente algumas das apps que mais abrimos diariamente. A nossa dependência dos serviços do Facebook é tal que, mesmo que não usemos a rede social Facebook, sentimos de algum modo esta interrupção, seja porque estávamos a tentar enviar uma foto pelo WhatsApp ou porque queríamos entrar na nossa conta de Spotify;
  • afinal de contas, o mundo seria melhor sem Facebook?