Uma mensagem do Shifter para o João Vasconcelos

Obrigado. Não sei se vais receber este agradecimento que provavelmente peca por tardio. Obrigado por teres sido dos primeiros a acreditar em nós, continuaremos a vingar o espírito que despertou essa crença.

Apesar de desde o início termos adoptado uma estrutura virtual (através de plataformas digitais como o Slack), um espaço físico onde nos pudéssemos encontrar, conhecer e debater tornou-se importante a partir de uma certa fase do nosso crescimento. E em Fevereiro de 2015 tivemos o nosso primeiro espaço físico; a oportunidade surgiu na Startup Lisboa.

Foi o João Vasconcelos, então director, que nos abriu a porta da Startup Lisboa, deixando-nos, sem pedir nada mais que a continuação do nosso sucesso, ficar com um espacinho na sala partilhada do 3º piso. Naquela sala – que partilhávamos com outros empreendedores, como o Paul Boyce, um irlandês apaixonado por Lisboa e com uma contagiante energia positiva –, muito se passou.

Foi ali que eu e o João Miguel Dordio começámos a dar gás à primeira versão do Shifter. Foi ali que eu e o João Ribeiro nos encontrámos muitos dias ao final da tarde, ouvindo a Prova Oral e jantando kebabs enquanto procurávamos redefinir o Shifter. Foi ali que eu a Rita Pinto nos juntámos para rever os e-mails de todos os que queriam colaborar com o Shifter. Muitas discussões aquela sala ouviu, inúmeros brainstormings também; ali dormimos algumas vezes. Foi naquela sala também que os nossos primeiros colaboradores se conheceram cara-a-cara pela primeira vez, em reuniões de equipa que íamos promovendo.

A Startup Lisboa foi importante para o Shifter. Não nem nunca esqueceremos o apoio que o João Vasconcelos nos deu na fase de arranque, numa altura em que pouco ou nenhum dinheiro tínhamos. Só nos abriu uma porta, mas essa porta aberta abriu-nos outras.

O João foi, desde cedo, um apaixonado pelo empreendedorismo e por quem tivesse vontade de arriscar, fazer, e perder ou ganhar. Isto sentia-se na forma próxima e amável com que falava connosco e com todos os outros incubados na ainda recém-nascida Startup Lisboa; o João não era um mero director ou gestor, procurava saber como os projectos estavam e como se estavam a desenvolver. Pela Startup Lisboa fez muito; recorrentemente lá ia à sala (e a todas as outras), mostrar a incubadora a quem a ia visitar. Empreendedores, visitantes, políticos, investidores, gestores de empresas… Sabia sempre descrever todos os projectos, fazer aquele pitch curto que para os empreendedores nem sempre é fácil.

Em 2015, o ecossistema empreendedor da capital ainda era pequeno, mas muitos apelidam de núcleo a Startup Lisboa. Ao lado, no mesmo piso que o Shifter, por exemplo, começava a Citydrive, a empresa de carsharing que não sobreviveu aos gigantes da BWM e da Brisa, ou a Landing.jobs, instalada numa salinha pequenina antes de se mudar para um piso inteiro no edifício à frente e mais tarde para um escritório próprio. Não podemos esquecer todos os outros além do João que faziam a Startup Lisboa no ano em que lá estivemos (saímos no início de 2016): a Ana Santiago, o Bruno Gomes, o Jorge Rodrigues ou a Lúcia Silva, a senhora da limpeza que nos ajudava a manter a sala cuidada – éramos muito novos, uns putos a tentar criar um media a sério.

O João partiu cedo, 43 anos, ataque cardíaco. Ainda ontem estava a deixar um like num artigo do Shifter – coisas desta era digital. Obrigado. Não sei se vais receber este agradecimento que provavelmente peca por tardio. Obrigado por teres sido dos primeiros a acreditar em nós, continuaremos a vingar o espírito que despertou essa crença.