Os documentários estão a reinventar-se e a conquistar espaço

Documentários como Free Solo estão a fazer sucesso não só na bilheteira e nos principais serviços de streaming – Netflix e Hulu –, como também em festivais de cinema.

O documentário Free Solo da National Geographic

Foi a 25 de Fevereiro, no famoso Dolby Theatre que se realizou a 91ª edição dos Academy Awards, nome proveniente da entidade Academy of Motion Pictures Arts and Sciences, ou como são popularizados, os Oscars. Logo no início da cerimónia, após o discurso de Regina King, Jason Momoa, acompanhado de Helen Mirren, presenteou os seus amigos Jimmy Chin, Chai Vasarhelyi e Alex Honnold com o Óscar de Melhor Documentário.

Free Solo, que se traduz para português como Escalada Livre – o acto de escalar sem o auxílio de cordas, arremessos e outros acessórios de escalagem – segue Alex Honnold, de 33 anos, na sua jornada pessoal que culmina com a Escalada Livre da formação rochosa El Capitan, em Yosemite, na Califórnia. A formação tem 900 metros de altura, e Honnold seria o primeiro a escalá-la sem auxílios, o que constitui um feito atlético ao nível de uma Medalha nos Jogos Olímpicos ou um Recorde no Guinness Book.

Em Portugal, o documentário pode ser visto no canal da National Geographic, a 17 de Março. Entre a equipa de Pós-Produção do documentário encontravam-se dois portugueses, Nuno Bento, “Sound Mixer”, e Joana Niza Braga, “Foley Artist”. Bento já foi distinguido nos prémios norte-americanos Golden Reel pelo trabalho de edição de som neste documentário. Niza, foi também distinguida no fim-de-semana passado noutros prémios específicos para montagem de som, os norte-americanos Cinema Audio Society Awards.

Os outros documentários nomeados incluiam RBG de Betsy West e Julie Cohen, que já tinha sido abordado aqui, Minding The Gap de Bing Liu e Diane Quon, Hale County This Morning, This Evening de RaMell Ross, Josslyn Barnes e Su Kim e, por fim, Of Father & Sons de Talal Derki, Ansgar Frerich, Eva Kemme e Tobias N. Siebert.

Como habitual, The Hollywood Reporter (THR) reuniu alguns destes nomes e juntou-os numa “roundtable” para falarem sobre o processo de criação dos seus documentários e sobre o ofício em si. A Vasarhelyi, Liu e Cohen juntaram-se Rashida Jones, filha do músico Quincy Jones e realizadora do mais recente documentário sobre o mesmo; Morgan Neville, realizador de They’ll Love Me When I’m Dead, um filme que explora os bastidores e o processo de criação do filme The Other Side of The Wind de Orson Welles; Tim Wardle, realizador de Three Identical Strangers, um documentário sobre três gémeos separados à nascença e adotados por famílias diferentes, sem conhecimento da existência uns dos outros.

O jornalista Gregg Kilday, do THR, inicia a conversa com a pergunta que nos leva à criação deste artigo: “Este ano vimos um aumento significativo na audiências de documentários no geral, inclusive com sucessos na bilheteira e streaming… Por que razão acham que o público está a responder desta maneira?”

Não só os documentários acima mencionados se demonstraram um sucesso na bilheteira e nos principais serviços de streaming – Netflix e Hulu –, como também fizeram furor nos festivais, como por exemplo, o Sundance Film Festival, em Utah, onde o documentário Knock Down The House – o filme que gira em torno de Alexandra Ocasio Cortez, Amy Vilela, Cori Bush e Paula Jean Swearengin e as suas campanhas para as eleições para o Congresso Americano – foi comprado pelo Netflix, pelo valor recorde de 10 milhões de dólares, o valor mais alto alguma vez atribuído a um documentário num festival.

Won’t You Be My Neighbor?, também de Morgan Neville, e Free Solo foram o primeiro e segundo, respetivamente, maiores sucessos de bilheteira em 2018. Segundo o site Box Office Mojo, o filme de Neville é o 12º documentário mais visto de sempre, com They Shall Not Grow Old em 16º, Free Solo em 17º, RBG em 24º e Three Identical Strangers em 28º, numa lista que reúne os 100 documentários mais vistos de sempre no cinema.

Em resposta à questão levantada pelo THR, a Presidente do National Geographic apresentou uma resposta interessante, em relação a Free Solo, co-produzido pelos mesmos:

“Estou muito contente que esta Era de Ouro dos documentários não esteja limitada aos pequenos ecrãs. Se existe um documentário para ver numa tela de cinema é este. É uma experiência tão visceral e imersiva que quase nos dá vertigens. É quase como se estivessemos em Yosemite com o Alex (Honnold). (…) Nunca há uma má altura para uma história aspiracional como a de Alex, pois ele é a representação física de que o impossível é possível.”

Com tudo o que se está a passar à volta, no espetro social e político, no mundo inteiro, não é uma coincidência que as audiências se refugiem na positividade e esperança que Honnold, Ruth Bader Ginsburg e Fred Rogers representam.

Em geral, o género do documentário sempre sofreu de estigmas premeditados e com a generalização da ideia do documentário com mero intuito educacional, com a típica narração voice-over. Hoje em dia, com a modernização dos tempos, já é possível apreciar uma apropriação contemporânea do típico Cinema Verité, ou Observational Cinema.

Um grande contribuidor para a destigmatização do Documentário é sem dúvida o Netflix, não só porque permite um fácil acesso e distribuição dos filmes, como também rapidamente se tornou o seu maior investidor, tendo comprando e disponibilizado na plataforma 18 documentários, só em 2018. Em 2018, foi o Netflix quem saiu vitoriosa dos Oscars, com a vitória de Icarus, um documentário que explora um ciclista russo envolvido num escandâlo de doping.

Alguns dos documentários que podem vir a criar burburinho em 2019 são Untouchable, um filme em volta de Harvey Weinstein; Love, Antosha, um último adeus a Anton Yelchin; Ask Dr. Ruth, um documentário sobre a sex theraphist Ruth Westheimer, uma ícon do feminisimo; What’s My Name: Muhammad Ali, uma biografia do famoso boxeur, produzido pela HBO; entre outros.