Ministra da Justiça israelita protagoniza anúncio a perfume chamado Fascism

No final do vídeo de campanha provocatório, a Ministra diz: "A mim cheira-me a democracia."

É um anúncio que já vimos milhares de vezes. Uma mulher sedutora borrifa-se suavemente e em câmara lenta com um perfume de luxo ao qual só conseguimos imaginar o cheiro. Só que, desta vez, o formato foi adaptado a uma campanha política e a sedutora protagonista é ministra de um dos Governos mais influentes do mundo.

Ayelet Shaked é a Ministra da Justiça israelita e líder do partido Nova Direita e esta foi a forma como escolheu responder às críticas de que tem sido alvo pelas alterações que quer implementar ao sistema judiciário do país, visto como uma barreira à sua agenda de extrema-direita. Shaked tem sido uma crítica ávida do Supremo Tribunal israelita por ser “muito intervencionista”, o que tem levado vários activistas e políticos de esquerda a acusá-la de ser fascista.

No anúncio, uma voz feminina sussurra frases em hebraico que marcam suas principais políticas: “reforma judicial”, “separação de poderes”, “limitar os poderes do supremo tribunal”. Borrifando-se com o perfume, Shaked termina, olhando directamente para a câmara: “A mim, cheira-me a Democracia”, dando a entender que o nome do perfume devia ser outro, bem como as acusações que lhe têm feito.

O objectivo da campanha podia ser promover as reformas judiciais que a ministra defende e, tentar, de forma original, responder com ironia àqueles que a acusam de ser fascista. Mas o resultado acabou por ser uma mensagem que confundiu ainda mais os israelitas, que se preparam para ir às urnas no próximo dia 9 de Abril, e toda a comunidade internacional.

Quem não domina o hebraico, acabou por interpretar o anúncio de forma literal – é que este anúncio não podia ser inventado, há mesmo uma Ministra da Justiça a perfumar-se de forma elegante e despreocupada com fascismo. Outros consideraram que a piada estava demasiado próxima da verdade, salientando que Ayelet Shaked defende políticas ultra nacionalistas e autoritárias e que o assunto é demasiado sério para ser transformado numa brincadeira.

Com as eleições parlamentares cada vez mais próximas, alguns analistas viram outro motivo por trás do anúncio. Anshel Pfeffer, colunista do jornal Haaretz, escreveu no Twitter que Shaked conseguiu exactamente o que queria: chamar a atenção para o seu partido de extrema-direita que está a cair a pique nas sondagens, usando humor ultra provocatório para fazer pouco da esquerda e tentar ganhar alguma street cred. E “pelas reacções”, disse, “está a funcionar”.

Shaked pertence ao partido Nova Direita, um grupo nacionalista, religioso e secular que é parte do Governo de coligação de direita de Benjamin Netanyahu. Naftali Bennett, co-fundador do partido e actual Ministro da Educação, rejeita a possibilidade da criação de um Estado palestiniano independente e quer anexar a Cisjordânia ocupada. Os membros do grupo têm vindo a tentar suprimir organizações de direitos humanos e a reduzir a possibilidade de os tribunais julgarem soldados acusados de abusos.

Consideram os tribunais israelitas, sobretudo o Supremo Tribunal, demasiado liberais e intervencionistas. No domingo, o maior tribunal do país afastou da corrida eleitoral um político judeu racista e permitiu a candidatura de um partido árabe, por exemplo. Shaked considerou a decisão “uma interferência crassa e equivocada no coração da Democracia israelita”.