Mudar para Linux é menos um peso na consciência

Troquei o macOS pelo Linux e aqui está um resumo dos primeiros meses com o sistema operativo do pinguim.

À medida que crescemos, vamos ganhando consciência e maturidade, e o nosso dia-a-dia deixa de ser uma festa para passar a incorporar sob o mote do estilo de vida os princípios de cada um. Comer menos carne porque as vacas poluem, recusar palhinhas porque são de plástico, não usar a apps de transporte porque pagam mal aos motoristas… As escolhas variam em função das possibilidades e, sobretudo, das prioridades de cada um, a menos que – como no caso do plástico – se tornem lei.

A tendência acaba por fazer com que abracemos as causas que nos são mais próximas e sobre as quais sabemos mais. A quantidade de informação que nos chega actualmente sobre os problemas infinitos que nos rodeiam exigem que, como diz José Gil, pensemos agindo e a não ser que sejamos confortavelmente negacionistas ou insensíveis tudo aquilo que não cumprimos acaba por se transformar num peso na nossa consciência. Ninguém é excepção e, porque este artigo não se pode escrever sem ser na primeira pessoa, imagem o caso de alguém como eu que passa grande parte dos dias a ler e escrever sobre o monopólio tecnológico que cada vez mais se solidifica nas nossas vidas.

Sempre me considerei uma pessoa com princípios e, embora não seja de modas circunstanciais pela próxima grande causa tento moderar os meus comportamentos para que se adequem aos meus pensamentos. Sem pressão ou obrigação externa, faço-o porque me apetece e para que a consciência não me pese nos momentos mais reflexivos – como acontece quando penso no apelo quase pornográfico que um entrêcote maturado exerce em mim. Por muita preocupação que colocasse nas decisões do meu estilo de vida, uma coisa sempre foi certa para mim desde que comecei a utilizar o computador com âmbito profissional: quero macOS para a vida e que a Adobe nunca me acabe.

As certezas começaram a mudar, por mais estranho que pareça, na primeira edição do Web Summit em Portugal. Richard Stallman foi o homem que plantou a semente e o auto-colante anti-DRM que ironicamente colei no meu MacBook fez com que dificilmente me esquecesse da pequena mas significante hipocrisia em que encontrava todos os dias. Escrever sobre as big-five, o perigo do monopólio tecnológico, começar a usar ferramentas de código aberto, advogar licenças de Creative Commons e… estar completamente preso, por um preconceito, a um sistema operativo em que ainda para mais não podia personalizar grande coisa. A relação com o macOS começava a perder aquela chama intensa e, aos poucos, voltava a cruzar-me com o Ubuntu.

O meu primeiro contacto com o sistema operativo do pinguim fora nos tempos de escola e por engano – quando nos esquecíamos de seleccionar o Windows no arranque o computador ligava no Ubuntu, mas tudo o que nos ensinavam era a reiniciar com atenção para escolher o sistema operativo correcto. Nessa altura, sou franco, o sistema pareceu-me inútil; anos mais tarde voltei a contactar com ele e… nesse caso, pareceu-me confuso. Lembro-me de um colega de trabalho, na agência Live Content, que poucos anos antes desta mudança me tentar vender a ideia que o Ubuntu estava altamente, mas ainda me lembro melhor de como pensava na altura que nada daquilo era para mim.

Foi por mera curiosidade e quando se começou a falar ainda mais dos direitos digitais, no último ano, que resolvi fazer uma partição no disco do meu Mac e fazer uma instalação do Ubuntu just 4 fun. Ver o sistema operativo anos depois dos primeiros preconceitos e da propaganda feita por terceiros foi uma diferença considerável. Sem querer forçar a analogia previsível foi como ver aquela pessoa dos tempos de escola com um ar completamente renovado e… interessante. Em regime dual boot ia escolhendo o Ubuntu quando não tinha grande coisa que fazer mas tudo mudou tempos depois.

Numa manhã como outra qualquer, ligo o MacBook, ponho música a tocar no YouTube e do nada o ecrã desliga-se. Fiquei sem computador a 400 km de casa e com um orçamento previsto a roçar os 500 euros de arranjo. O primeiro pensamento foi “com esse dinheiro mais vale comprar um computador” e… assim fiz. Já lá vão quatro meses e poucas saudades senti.

Ao contrário do preconceito reinante, o Ubuntu não é um bicho de sete cabeças que nos dá problemas a toda a hora, nem é uma espécie de alienígena em que andamos permanentemente a lidar com incompatibilidades. Pelo contrário, é um sistema operativo leve, prático e altamente personalizável, que tem na sua comunidade um gigantesco ponto forte de que já me tinha apercebido antes do switch.

Ao primeiro tweet que fiz a pedir sugestões sobre a instalação de Ubuntu, ainda na partição do Mac, não podia pedir mais respostas. Prontamente a comunidade de utilizadores de Ubuntu portuguesa se disponibilizou para me ajudar e para o que não soubessem procurar mais camaradas. Em poucas horas, estava num grupo de Telegram com três geeks (termo que se deve assumir como elogio) prontos a responder a qualquer dúvida que me surgisse antes, durante ou após o processo de instalação. Já na primeira vez em que me surgiu uma pergunto, no caso sobre os snaps – uma espécie de apps para Ubuntu — bastou um tweet para o ar para que o Diogo Constantino, um dos geeks acima referidos, me pusesse em contacto directo com um dos programadores que participara no desenvolvimento dessa componente do software.

No Ubuntu, ou Linux no geral, não reinam as versões de software proprietário a que estamos habituados como Photoshop, Illustrator ou iTunes, para dar alguns exemplos; e esse é a princípio o grande ponto fraco da mudança. Contudo, a procura por alternativas revelou-se um desafio mais interessante e enriquecedor do que o velho de hábito do que fazer tudo sempre na mesma. Por fazer gigs habituais como designer, fui forçado a estrear-me no Inkscape e no Gimp, as alternativas livres aos programas da Adobe, e, ao contrário do que esperava, até agora ainda não senti necessidade de algo melhor.

É certo que estes programas têm um aspecto mais cru, que passa a ideia de que podem ser mais rudimentares; contudo, a sua utilização desvenda coisas em que nunca antes tínhamos pensado, voltando a aproximar a minha experiência do computador daquele fascínio de quando era novo e ia aprendendo enquanto criava, mais do que replicar aquilo em que me tornei bom a fazer. Por serem feitos pela e para a comunidade, as versões estáveis destas apps têm algumas falhas que não vale a pena esconder mas que não são de todo impeditivas do seu uso comum.

Este foi o meu contacto com o sistema operativo do pinguim nos primeiros meses. Se tens uma experiência com Ubuntu ou Linux para contar ou queres saber mais sobre a minha utilização, partilha comigo pelo e-mail joaoribeiro@shifter.pt, pelo Telegram ou através do Twitter.