Mas depois há o Instagram de Patti Smith

Porque para quem é uma lendária cantora punk e escritora não é difícil ser lendária no Instagram, mesmo aos 72 anos.

 

Patti Smith parece daquelas pessoas que, o que quer que faça, fará bem feito. Aconteceu assim com a música, com a escrita e é assim desde Março do ano passado, com o Instagram. Faz agora um ano que a artista chegou à rede social das modas efémeras para nos lembrar que as melhores e mais duradouras coisas da vida são as mais simples, para tornar a rede social de Mark Zuckerberg num lugar de alegria desenfreada, por entre a paisagem infernal em que vivíamos.

O objetivo da maioria das contas nas redes sociais é a auto-promoção. E isto é verdade para os famosos e para os não famosos. Para os que partilham fotos de publicidade ao último refrigerante do mercado, do concerto de ontem à noite, para os que publicam piadas auto-depreciativas sobre ficar em casa a um sábado à noite ou os que tentam encontrar o melhor ângulo para a fotografia do carro novo ou do anel de noivado.

Mas depois há Patti Smith.

Screenshot via Instagram

Patti Smith não precisa de nos dizer nem mostrar que é óptima. A sua curadoria é instintiva e as longas e reflexivas legendas em jeito de poemas que escreve para as fotografias são um tipo de sabedoria mágica que vai desde o problema da gentrificação em Londres à sua rotina de fazer malas. Nem o seu primeiro post foi uma publicação experimental de alguém que ainda não sabia bem como funcionava o Instagram.

Patti Smith criou o @thisispattismith e todas as suas partilhas começam dessa mesma forma: “This is a leaf”, “This is a picture Kate Simon shot of Neil Young and me in the seventies”, “This is a book of essays by Virginia Woolf”. A sua chegada ao Instagram foi pensada para nos mostrar o que é a vida na sua forma mais básica de beleza.

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E apesar de parecer que tem tudo pensado, Patti, como tantos de nós, desabafa que continua a ter algumas dificuldades com essa coisa dos “self portraits” (ou selfies, como aqueles de nós que não ganharam o National Book Award gostam de lhes chamar). Só que Smith detalha o seu problema com as selfies no meio de uma legenda poética num post com várias fotografias de uma viagem a Londres. “This is the hotel telephone. And this is a simple hello, with a morning nod to the changing skyline. London, like all our great cities, is struggling with overbuilding, a Babelesque encroachment upon the historical,”, escreveu na legenda. Sem 🇬🇧 nem 💂.

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A sua conta está recheada de outras delícias, como a lista de tudo o que leva na mala para qualquer viagem, para que todos nos possamos preparar para as nossas aventuras como verdadeiros ícones punk: “1 suitcase. 2 books. 6 tee shirts. 6 pairs of bee socks. 1 black jacket. one black vest. black pants. Tibetan shirt. toothbrush salt toothpaste. Vitamins flaxseed work visa. notebook. pen and refills. passport. handkerchiefs. travel talismans from Jesse.” Devemos preparar-nos também “to place mental burdens in an invisible sack. A weightless one despite the weight”.

Também podemos ver fotografias daquela vez em que participou na série Law & Order: Criminal Intent em 2011, ou aquela vez em que actuou com Neil Young nos anos 1970, ou a outra em que visitou a campa de Susan Sontag no cemitério de Montparnasse. Throwbacks, chamamos-lhe nós, que Patti não destaca com hashtags nem confina às quintas-feiras.

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E no meio de tudo o que nos parece impressionante na sua vida, Smith também publica fotos perfeitamente comuns e aparentemente mundanas das chávenas de café em que bebe, aos livros que lê, aos momentos com as pessoas de quem gosta. A beleza da sua vida sem tentar agir como uma marketeer. Patti Smith é uma observadora atenta de um mundo que nos deixa tantas vezes desapontados. A forma como recria histórias e experiências é um alívio e um conforto no meio de tudo aquilo que nos é mostrado ou vendido de cada vez que nos ligamos na app.

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E claro que Patti também partilha a nova capa de Just Kids, por exemplo, e diz que está a trabalhar num novo livro, ou agradece ao público do espectáculo que deu a noite passada. Mas no dia seguinte, publica uma fotografia do seu chá e diz que esteve a despachar algum trabalho. E que a manhã agora se está a transformar em tarde, e que tudo o que quer é apreciar o momento. E todos os dias dedica tempo a desejar um feliz aniversário às pessoas – literalmente, todas as suas fotografias têm pelo menos um comentário de alguém que faz anos ou tem uma prima que faz anos ou o gato de uma vizinha que faz anos e Smith, sem qualquer sinal de exasperação, responde a todos.

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A autenticidade da vida de Smith pode ser uma projecção; nunca poderíamos saber como isso se desenrola o seu dia-a-dia na verdade. Pode chegar o dia em que a sua actividade nas redes sociais se torna menos refúgio e mais oportunista. Mas até lá, a biografia do Instagram de Smith serve como um lembrete importante para todos: we are all alive together. A simplicidade de uma vida vivida sem um brilho brilhante é linda, tudo bem. Está tudo bem.

É que, se Patti Smith, uma lenda na música, uma poetisa intocável, dona de uma criatividade inata, consegue arranjar tempo para aproveitar o presente – e ainda dar os parabéns ao mundo –, nós também conseguimos.

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