O combate do ano é entre dois “perigosos” pensadores: Peterson vs Žižek

Slavoj Žižek (69 anos, Eslovénia) é filósofo, professor no Instituto de Sociologia e Filosofia da Universidade de Ljubljana vs Jordan Peterson (56 anos, Canadá) é um psicólogo clínico e professor de Psicologia na Universidade de Toronto.

Slavoj Žižek (69 anos, Eslovénia) é filósofo, professor no Instituto de Sociologia e Filosofia da Universidade de Ljubljana e Director Internacional do Instituto Birkbeck para as Humanidades da Universidade de Londres. Jordan Peterson (56 anos, Canadá) é um psicólogo clínico e professor de Psicologia na Universidade de Toronto — por curiosidade, na Wikipedia em português Peterson aparece como filósofo apesar de não haver nada no seu currículo que comprove este grau. São dois dos pensadores mais antagónicos do panorama intelectual contemporâneo com apenas uma coisa em comum: serem autênticas estrelas pop no mundo do conhecimento — um pelos anos de carreira em que foi colecionando medalhas, outro pelo poder das redes sociais, da internet e dos podcasts. Anunciaram agora um debate que a internet previa e pedia há muito, dia 19 de Abril deverão encontrar-se em Toronto para um verdadeiro tête-à-tête, caso nenhum deles decida esquivar-se à última da hora.

Žižek é um filósofo que se conota à esquerda e se caracteriza habitualmente como pós-marxista, buscando inspiração na tese central de Karl Marx mas afastando-se na substância da teoria ao cruzá-la com as ideias de outros intelectuais como o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) ou o filósofo alemão Hegel (1770-1831). Aos 69 anos conta uma vastíssima obra publicada quer no domínio da escrita onde se contam a maioria dos títulos — só em inglês são mais de 4 dezenas — quer no domínio audiovisual. Žižek é um cinéfilo confesso e esta relação com o cinema já o levou a participar em 5 filmes com destaque para o díptico O Guia de Cinema do Depravado e O Guia de Ideologia do Depravado. No domínio das letras pode, por exemplo, destacar-se o seu livro de anedotas onde com piadas provocadoras vai levantando questões filosóficas ou, um dos mais recentes, Problemas no Paraíso em que estabelece uma metáfora irónica entre o paraíso e o estado actual de desenvolvimento do capitalismo para a seguir partir para a crítica do sistema. Apesar de todo este trabalho, Žižek é especialmente famoso pelas suas afirmações provocadoras e contra a corrente, pelo seu estilo peculiar, and so on and so forth. Por exemplo, durante a corrida presidencial nos Estados Unidos da América Žižek surpreendeu tudo e todos ao dizer que se fosse obrigado a votar, votaria Trump — rapidamente esquecida a explicação em que revela considerar Trump uma verdadeira catástrofe e resultado do declínio da democracia de esquerda, perdurou o soundbite.

A sinopse de Jordan B. Peterson é bem diferente. O psicólogo canadiano justifica grande parte da sua fama com conteúdo digital que foi produzindo, e aparições polémicas como num debate com Cathy Newman no Channel 4. Em contraste com o esloveno, Jordan Peterson tem apenas 2 obras publicadas sendo que a última, 12 Regras Para a Vida tem sido um sucesso de vendas, tornando-se numa espécie de bíblia para os seus seguidores. Peterson descreve-se a si próprio como o classic british liberal e a sua ascensão não é totalmente distante do movimento da alt-right nos Estados Unidos da América. No país vizinho, Canadá, foi envolvendo-se no mesmo tipo de discussões que Peterson foi forjando o seu estatuto. Em 2016 lançou uma série de vídeos criticando o politicamente correcto e agarrou como uma das suas bandeiras a luta contra os pronomes gender-neutral, sinalizando a cultura dos campus universitários como um antro de social justice warriors. 

Any time, any place, Mr. Zizek

O debate agora anunciado por Jordan Peterson e sobre o qual, até acontecer, restarão dúvidas, não surge propriamente do nada. O filósofo e o psicológo já tinha trocado alguns galhardetes e foi em reacção a uma das últimas referências de Žižek a Peterson que este último o desafiou para um debate através do Twitter com a frase “Any time, any place, Mr. Zizek”. Já antes Peterson se tinha envolvido numa discussão introdutória a este debate mas, nesse caso, com um bot de twitter que se limita a publicar as quotes de Žižek.

A forma como Peterson gera e atrai controvérsia torna-o uma figura polarizante na internet e faz com que, quer pessoas que o apoiam quer outras que dele discordam, sejam expressivas da sua opinião. Este debate não é excepção e a prova disso são as centenas de respostas ao tweet em que anuncia a data do evento e o tema escolhido — Felicidade: Marxismo vs Capitalismo. Há quem não acredite que Jordan leve a palavra até ao fim e aposte que o debate vai acabar por ser cancelado, quem simplesmente critique a palhaçada em que se tornou o debate intelectual e os outros que se divertem a preparar memes e paródias sobre o que aí vem. É que tanto o esloveno como o canadiano têm estilos próprios e tiques, no mínimo, caricatos. Há até quem veja entre ambos algumas parecenças, sobretudo no que toca à aversão ao “politicamente correcto”. Žižek até já tinha confessado apreciar essa particularidade no canadiano, o ponto de discórdia terá sido quando Peterson alinhou na onda retórica da alt-right norte-americana começando a acenar com o fantasma do marxismo cultural e outras teorias da conspiração, como o esloveno explica neste post.

Para além destes grandes grupos, há ainda quem se oponha a este debate por entender que deste modo se equiparam duas pessoas com uma carreira e uma substância comprovada, factualmente, díspar. Zizek é um filósofo com anos de carreira e uma vasta obra, Peterson é o mais recente viral mas com poucas provas dadas — yup, em matéria de estudo não se contam as views, os followers, nem os apoiantes de Patreon.

Anteriormente Peterson já tinha merecido a atenção de outro nome grande da teoria marxista. Richard Wolff dedicou-lhe um pequeno vídeo de 4 minutos em que fala directamente para o psicólogo canadiano desmistificando rapidamente aquilo que tanto Wolff como Žižek consideram ser uma visão reducionista da história; isto é, que não abona em nada para uma melhor compreensão dos fenómenos mas apenas para a polarização de todas as discussões, facilitando a identificação e… a viralização.