Serão as redes sociais o Quinto Poder?

A polémica com os programas da SIC e TVI revelam um poder do público através das redes sociais. Com a TVI a cancelar o seu programa devido a "fracas audiências", será que as redes sociais conseguem mandar programas abaixo?

Ilustração de www.thoughtcatalog.com via Flickr

Nas aulas da universidade, aprendi que o jornalismo era o quarto poder e o contra-poder. Acredita-se que os media podem influenciar a nossa vida e costumes, nomeadamente nos tipos de assuntos que achavam mais relevantes e condicionam o nosso olhar sobre a sociedade. A sua influência diária era grande para a sociedade, pois poderia formatar o pensamento dos cidadãos.

Era ainda assim um contra-poder. Pois, apesar de influenciar os cidadãos, não esquecia o poder de vigilante, como um polícia dos três poderes, como um “check and balances” à americana. Os media influenciavam a sociedade, mas tinham o poder de desmarcar corrupções contra o povo e retirar políticos dos seus cargos – não é por acaso que o Watergate é o melhor caso jornalístico, ainda tratado com um cunho heróico da descoberta de um presidente corrupto, que teve de pedir demissão pois não aguentou o escândalo.

Actualmente, a conversa sobre o futuro dos media tem mudado, uma vez que estes próprios conheceram a internet como novo canal de divulgação de informação. As gerações mais jovens não sabem o que é um telejornal e as novidades são actualizadas ao minuto. Contudo, não é necessário abrir os websites de notícias preferidos: o feed do Twitter ou do Facebook são bons agregadores. Assim, parece que estamos a criar seres que “só lêem as gordas” e sentem que sabem dos assuntos, quando na verdade há uma enorme falta de literacia e de interpretação de informação que leva a crise das fake news – era assim a excelente altura para o jornalismo aparecer como contra-poder e criar ferramentas de rever fontes e educar o público no sentido de reconhecer informação factual e não factual.

O poder das redes sociais aparece em casos como o mais recente que vimos na área de entretenimento. Os mais recentes acontecimentos com dois reality-shows de duas televisões privadas mostram-nos isso. Apenas dois dias depois do Dia Internacional da Mulher, divulgaram-se programas em que mulheres concorrentes eram escolhidas por homens como se tratassem de gado. As críticas não pararam de chover e continuam passado semanas – ao ponto da TVI indicar que as «fracas audiências» ditaram o fim precoce do seu programa. E tal já tinha acontecido, com um outro programa que já foi cancelado muito pela opinião pública.

Assim, fica a pergunta: foram as redes sociais que cancelaram programas de entretenimento? Serão as redes sociais um quinto poder, um poder constituído por uma audiência heterogénea, mas que utiliza a mesma ferramenta para expressar aprovação ou ódio? É possível uma comunidade produzir voz e influenciar outras entidades que actuam na sociedade? Serão as redes sociais o novo poder e o poder do público em geral?

Este debate apenas está a começar quando vemos as principais redes sociais a passarem a primeira década de existência (Facebook, 2004; Twitter, 2006; WhatsApp, 2009; Instagram, 2010). Por isso, ainda não podemos afirmar que as redes sociais sejam assim um poder.

Contudo, é possível identificar alguns efeitos que já ocorrem na sociedade, bem depois de a World Wide Web ter sido criada há mais de 30 anos.

As redes sociais podem acabar com programas, mas o public shaming pode levantar questões mais profundas como cyberbullying, subida de taxas de suicídio, depressão generalizada. A vivência na internet levanta também a questão do tratamento de dados, onde podemos encontrar uma fotografia nudez na web, jogar uma aplicação em que investimentos dinheiro ou até mesmo utilizar dados para influenciar campanhas e resultados eleitorais internacionais.

Apesar de a atenção das pessoas estar cada vez mais online, não nos podemos esquecer do espaço público físico. É possível perceber que a maneira como as pessoas expressam descontentamento e aprovação nas redes sociais ajuda a disseminar falsas informações que têm consequências directas nas leis que regem as sociedades. Se a informação que chega a todos pode promover medidas de inclusão, pode também ela promover medidas de exclusão e perigosas para o discurso do ódio?

No fundo, as redes sociais deixam-nos uma questão muito pertinente para a vida política e para a cidadania: será que estamos a viver demasiado virtualmente e esquecemo-nos de que o espaço público dos cidadão é físico e vivido nas nossas freguesias e escritórios? Será que estamos mesmos só a jogar Candy Crush ou estamos a mudar a política do mundo em que vivemos cada vez que colocamos um like?

Os próximos anos certamente irão trazer ainda mais questões e esperemos que a comunidade online e a offline colaborem em conjunto para o bem da sociedade mundial.

Texto de Rita Amaral