Sustentada por mulheres, chefiada por homens: a saúde e alguns desafios de género

Se há áreas onde um género é predominante, a saúde é uma delas.

Foto de Piron Guillaume via Unsplash

Se há áreas onde um género é predominante, a saúde é uma delas. Isso nota-se quando se entra em qualquer clínica, centro de saúde ou hospital. Infelizmente, nota-se pouco em reuniões de direcção ou conferência de imprensa. Os números são claros: segundo um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), apesar de 70% da força de trabalho a nível mundial na saúde ser composta por mulheres, os homens ocupam 75% dos cargos de chefia. As mulheres trabalham mais, são mal pagas (nos casos em que chegam a ser pagas) e ocupam os lugares da base da pirâmide hierárquica.

Há razões diversas para inverter isso, com ganhos de ordem económica, científica e de saúde. Um recente estudo de revisão publicado na revista Lancet olha para a evidência das consequências da discriminação e das normas de género e mostra resultados claros. A normatividade leva a um aumento das desigualdades em saúde através da modulação da exposição a factores de risco, exposição essa que é imposta pelos “papeis” esperados da sociedade. Isso tanto prejudica mulheres como homens, na verdade. Quanto mais rígidos os “papeis” de género, maior o risco de as mulheres serem vítimas de violência, mas também de os homens se calarem quando são vítimas. Todos sofrem de maior ansiedade em sociedades mais normativas: elas por serem “cuidadoras” universais, eles pela pressão de serem “ganha-pão”.

Há também enviesamentos no acesso a serviços de saúde e a ganhos da investigação científica. Amartya Sen, Prémio Nobel da Economia, perguntava onde estão as mulheres desaparecidas, já que em algumas sociedades há muitos mais homens que mulheres, algo inexplicável apenas pela natureza. O facto de as mulheres terem sido excluídas da participação em ensaios clínicos de medicamentos ou dos testes de segurança em veículos levou a que estes produtos fossem optimizados para um humano-tipo inteiramente masculino, com custos em saúde e bem-estar para as mulheres. Tudo isto pode ser lido no estudo da Lancet, que recomendo.

Em termos económicos, as métricas são também claras quanto ao prejuízo da discriminação. O estudo da OIT citado acima diz-nos que a contribuição das mulheres que trabalham no ramo da saúde para o PIB mundial é de quase 5%, ascendendo a 3 milhões de milhões de dólares (!!), mas quase metade deste esforço não é pago nem reconhecido formalmente.

Estas razões são exemplos, mas não precisamos realmente deles. Discriminar com base no género para pagar menos ou para recusar cargos de chefia, para forçar a papeis na sociedade ou excluir dos benefícios do progresso – tudo isto é errado em si mesmo. Ainda que causasse dano à economia, seria algo a corrigir (sei que é radical dizer isto nos dias de hoje, mas acredito em prioridades mais elevadas que o crescimento do PIB). Felizmente, nem é o caso. Podemos todos fazer o que está certo e manter a economia feliz. Vamos demorar muito a corrigir um problema que não beneficia ninguém?