Faltar às aulas pelo clima? É uma boa primeira lição

#SchoolStrike4Climate. Esta sexta-feira estudantes de vários países fazem greve pelo clima. Em Portugal estão assinalados pelo menos 27 locais de concentração.

Foto via Greenpeace Netherlands/Facebook

No final do ano passado, na conferência da ONU sobre alterações climáticas que se realizou na Polónia, uma jovem sueca de apenas 15 anos (agora 16) subiu ao palanque e arrebatou a atenção de todo o mundo. Com a inocência, a genuinidade e a frontalidade próprias da sua idade, Greta Thunberg tornou-se a porta-voz juvenil de uma causa que toca a todos e ninguém lhe ficou indiferente. O seu discurso foi reproduzido vezes sem conta nos principais órgãos de comunicação social e o seu exemplo começou a atrair outros jovens como ela, que não se ficaram apenas pela identificação com os seus quatro minutos de fama e seguiram as pistas que o monólogo deixou.

Greta Thunberg, a menina que faltava às aulas pelo clima

Se o discurso de Greta se revelou simbólico e tocante, a sua acção já era duradoura e não estávamos, por isso, perante um one-hit wonder. Antes de se tornar mundialmente famosa, Greta já era localmente conhecida pela sua acção de defesa do meio ambiente no seu país-natal, um exemplo a que a própria recorreu para em jeito de pergunta retórica reforçar que aos políticos não falta poder, falta vontade: “Se um grupo de crianças é notícia simplesmente por não ir à escola, já imaginaram o que podem fazer vocês se se juntarem?”

Greta Thunberg é aficionada pela causa do clima desde os seus nove anos e a sua participação cívica tornou-se notável aos 15 por desencadear um movimento de greves estudantis em nome do clima – faltava às aulas e sentava-se em frente ao Parlamento sueco com cartazes a apelar à consciência ecológica. A sua persistência e perseverança são a principal imagem de marca de uma jovem que não desiste, nem se contenta. Um dos seus textos mais famosos versa mesmo sobre a falência da Suécia enquanto modelo a seguir, alertando para o facto de ainda assim muito ficar por fazer e haver uma emissão de gases superior ao desejável.

É essa discórdia permanente e esse sentimento de urgência perante uma causa que não dá tréguas nem sinais de desaceleração que fizeram de Greta, ela sim, um exemplo a seguir em todo o mundo. Greta inspira-se na sua condição de autismo ligeiro, no seu à vontade em ser diferente, especialmente persistente e até estranha e inspira muitos dos que a ouvem.

#SchoolStrike4Clime

Já antes do discurso que a tornou mundialmente famosa, se começavam a esboçar as primeiras replicas de greves estudantis pelo clima e, para esta sexta-feira, 15 de Março estão marcadas as maiores demonstrações de que há memória. Dos Estados Unidos da América à Tailândia, passando por Portugal e por outros, pelo menos, 60 países, estudantes de todas as latitudes unem-se por uma causa comum e com o sentimento partilhado de que são as vozes do futuro que precisam de ser ouvidas.

“Somos o futuro sem voz da humanidade”, é uma das frases mais marcantes do manifesto que sustenta todo o movimento global e que foi publicado no dia 1 de Março pelo jornal britânico The Guardian, assinado pela grupo de coordenação mundial da greve. Na curta e incisiva carta aberta, os jovens reiteram a importância de travar a degradação do clima com a qual esta geração e as próximas terão de lidar para o resto das suas vidas. Num tom que chega a soar a desafio, os autores da carta estabelecem o dia 15 de Março não como o apogeu do movimento mas como o ponto de partida para uma luta contínua até que se faça justiça climática.

Foto via Greenpeace Netherlands/Facebook

Em Portugal estão assinalados pelo menos 27 locais de concentração de norte a sul do país, resultado de uma adesão orgânica mas coordenada através das redes sociais e do site que foi criado em Wix para disponibilizar de forma acessível toda a informação importante. Mas, apesar de o movimento ainda não ter arrancado oficialmente, já começou a dar alguns frutos; na terça-feira, cinco membros da comissão organizadora tiveram a oportunidade de ser recebidos pelo Ministro do Ambiente e dar a conhecer as suas motivações.

As reivindicações do grupo são pouco claras e a manifestação agendada soa, à distância, mais a grito de alerta do que a princípio de solução. Em cima da mesa está a exigência, a cada país, do cumprimento das metas do Acordo de Paris e a introdução de políticas ecológicas. Fica por explorar, num debate mais alargado a toda a sociedade, as medidas concretas que podem ser tomadas; ainda assim, o grupo aponta alguns caminhos que no seu entender podem contribuir, grande parte deles convergentes com o que é defendido pela associação activista Climáximo.

Para tal é necessária uma mudança de paradigma, e a implementação de medidas como: a proibição da exploração dos combustíveis fósseis em Portugal; a meta para a neutralidade carbónica ser reduzida para 2030, e não 2050, como previsto pelo governo; expansão significativa das energias renováveis e, particularmente, da energia solar; a produção eléctrica ser 100% assegurada por energias renováveis até 2030; o encerramento das duas centrais eléctricas ainda movidas a carvão (central de Sines e central do Pego) e o melhoramento eficiente e drástico do sistema de transportes públicos, de maneira a que estes possam substituir o uso do transporte particular.

Em conclusão

Se por um lado este tipo de movimentos inspiram à mudança, e materializam a ideia de uma sociedade mais consciente e preocupada com o meio ambiente, por outro, levantam questões quanto à complexidade da problemática. A sua dispersão global torna difícil que uma acção local tenham um impacto considerável a nível global. Olhando para os dados que se conhecem sobre o Acordo de Paris, rapidamente se percebe que são as grandes potências quem mais desequilibra a balança climática; continuando o olhar sobre o mundo actual, percebemos que foi uma proposta politicamente verde – o imposto sobre as emissões de CO2 – que serviu de faísca ao movimento social dos coletes amarelos. Este paradoxo anexo ao facto inegável de o aquecimento global ser uma das ameaças do século (até para a economia que os líderes mundiais tanto prezam) mostra como no combate a este flagelo muitas das medidas são relativas.

Se por um lado este cenário exposto pode parecer desolador e até mesmo desmotivador, a questão não deve ser vista apenas por essa perspectiva. Pelo contrário, uma problemática mais complexa exige políticas mais coerentes quer interna quer externamente, por exemplo no estabelecimento de acordos comerciais transcontinentais. Neste ponto, a lição a extrair torna-se evidente, a questão climática é mais do que uma causa, uma problemática sistémica.

De resto a mensagem de Greta Thunberg é tão abstracta que contempla esta perspectiva. Mais do que apresentar soluções, os jovens saem à rua para revelar a sua estupefação pelo estado a que tudo chegou, talvez lhes falte alguma substância, alguma técnica e algumas ideias mas não lhes falta aquilo que tem faltado estes anos todos: vontade e coragem. É preciso que outras gerações e sectores se inspirem nos jovens e não deleguem neles a missão como se fosse causa de alguns.

Fotos do artigo via Greenpeace Nederland/Facebook