Choveu muito pouco em Fevereiro, e isso é preocupante

Cenário de seca meteorológica que assola o país só se agravou.

Efeitos da seca em 2017 no Alentejo (foto de Arnaldo Oliveira via Flickr)

Em 2017, Portugal sentiu a seca como há muitos anos não sentia, dado o Inverno anterior ter chovido muito pouco. Já ano passado o mês de Março com mais precipitação desde 1931 tirou o país da condição de seca em que se encontrava e 2018 acabou por ser um ano relativamente tranquilo nesse aspecto. Mas 2019 não começou bem.

Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), Fevereiro foi um mês demasiado quente e seco para o que é (ou era?) normal. Em média, a temperatura máxima do ar foi de 16,79 ºC, o valor mais alto para Fevereiro desde 1931. De acordo com o boletim do IPMA, os valores diários máximos estiveram quase sempre acima do normal, tendo o período entre 20 e 28 de Fevereiro sido particularmente muito quente.

Já relativamente à chuva, caiu apenas 34% do normal para Fevereiro – foi o quarto Fevereiro mais seco desde 2000. O IPMA nota que, nos últimos 25 anos, o valor médio da quantidade de precipitação tem sido quase sempre inferior ao valor normal, excepto em três anos (2010, 2014, 2016).

Em resultado da fraca precipitação e do tempo quente, o cenário de seca meteorológica, que já vinha de meses anteriores, só se agravou. Dezembro de 2018 já tinha sido o terceiro Dezembro mais quente dos últimos 87 anos, com um valor médio da temperatura do ar de 10,58 °C; a temperatura máxima rondou, em média, os 15,21 ºC, o terceiro valor mais alto desde 1931. Já quanto à precipitação, choveu 37% abaixo do normal para Dezembro. Assim, 2018 terminou com 53,3% do território em seca fraca, 13,7% em situação normal. No final de Janeiro, mês em que choveu 50% abaixo do normal, já só 6% de Portugal Continental se encontrava normalizado; em seca moderada passou a estar 34,5% do território, e 59,5% em seca fraca. No final de Fevereiro, o cenário agravou-se ainda mais: 4,8% seca severa, 57,1% moderada e 38,1% fraca.

Precisaria de chover muito em Março para reverter cenário

Para a meteorologista Vanda Pires, citada pelo Jornal de Negócios, “ainda só temos 5% do território em seca severa, mas grande parte está em seca moderada, o que já é relevante. E na região sul, com dois meses consecutivos nesta classe de seca, já começa a ser mais preocupante”. A chuva dos últimos dias foi insuficiente para reverter o cenário: “era necessário que em Março chovesse acima do que é habitual para este mês [de Março]”, ou seja, mais que 60 litros por metro quadrado. A especialista diz que seria preciso chover talvez o dobro desse valor e de um modo bem distribuído por todo o território. O cenário não é animador.

Olhando para um espectro mais alargado – o ano hidrológico 2018/19, no período entre 1 de Outubro e 31 de Janeiro –, o valor médio da quantidade de precipitação foi de 359.7 mm, ou seja, choveu 77% menos do que seria expectável para essa altura do ano. “Em termos espaciais, os valores da quantidade de precipitação acumulada no ano hidrológico 2018/2019 são inferiores ao normal em grande parte do território, sendo de realçar a região a sul do Tejo”, lê-se no boletim do IPAM de Janeiro.

As barragens têm sentido a seca. Segundo o Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH), havia no final de Fevereiro dez albufeiras com disponibilidades hídricas inferiores a 40% do volume total. No geral, as barragens chegaram ao final do mês com menos água que o normal, excepto para as bacias do Mondego e do Arade; ainda assim, sentiu-se um aumento do volume armazenado em 11 bacias hidrográficas e uma descida em uma. Das 60 albufeiras monitorizadas pelo SNIRH, 12 apresentam disponibilidades hídricas superiores a 80%.