O caminho para a felicidade de Sofia está na actividade política

Esta é a história que pode inspirar outros jovens fora do seu país a procurar uma resposta de realização na própria comunidade.

Um início de carreira estável, a independência financeira desejada e uma vida normal rotineira entre trabalho e casa. Era este o quotidiano de Sofia Sousa antes de deixar Lisboa e se mudar para Londres em 2015. O desejo em trabalhar fora do país esteve sempre presente e a conjuntura familiar de então deu-lhe o impulso derradeiro para abraçar este desafio.

A adaptação à “cidade das massas” não foi tarefa fácil. Apesar de uma situação laboral relativamente tranquila, os primeiros seis meses fizeram de Sofia uma pessoa desiludida e a precisar de estímulos para viver – na verdadeira acepção da palavra – o verdadeiro sonho londrino. A capital do Reino Unido “não está feita para construir família ou desfrutar das melhores coisas que valorizo na vida”. Rapidamente percebeu que teria de inverter o rumo dos acontecimentos e envolver-se em algo para quebrar a rotina e integrar-se num país que à data não era o seu.

As opções eram múltiplas e ajudavam a baralhar a mente de alguém confuso. Pensou no voluntariado social mas a escolha acabou por recair na política. Não se considera uma politician, mas sim uma cidadã que participa politicamente na comunidade onde reside. Sem conhecer ninguém, arriscou e ingressou numa festa de Verão organizada pela CWO, Conservative Women’s Organisation, onde foi muito bem recebida e apresentada a diversas pessoas que participavam no mesmo evento. “O primeiro embate foi algo estranho, senti-me deslocada, mas rapidamente puseram-me a falar com toda a gente.”

A escolha pelo partido conservador remete para a memória cinematográfica de Sofia. O filme Iron Lady é uma obra que lhe diz muito e que a apresentou ao mundo da política inglesa. Após estes anos de actividade política sente que há uma ideia errada sobre o partido conservador relativamente à orientação nacional e regional. “A nível local, o partido privilegia e dá primazia em resolver os problemas da comunidade em vez de reiterar as ideologias políticas.”

Após a identificação com a organização das mulheres conservadoras, cimenta a sua posição dentro do seio político e cria um grupo mais local com o objectivo de fomentar a participação activa das mulheres na política. O que Sofia desconhecia era a importância do dia 3 de Maio de 2018. Esta data correspondia ao acto das eleições locais no borough no qual participa politicamente. É desafiada para participar nas candidaturas do partido a Councillor e sem estar convicta do desfecho, aceita. Foram semanas exigentes e de muito estudo, pois cada candidato a candidato atravessa um período de entrevistas e formação de modo a se assegurar que aquela pessoa é o individuo certo para representar o partido conservador nas eleições.

O sistema eleitoral inglês a nível “autárquico” possui uma dose significativa de complexidade, visto que apresenta diferenças substanciais relativamente ao sistema português. Cada borough elege um determinado número de representantes e está dividido por zonas geográficas. Estas áreas estão limitadas a um novo número de candidatos, que pode ser maior ou menor consoante a dimensão do círculo ou a população que ali reside. Neste caso, Sofia concorreu na zona de Blackwall & Cubitt Town, que elege três councillors para o borough de Tower Hamlets. O council deste círculo junta 45 councillors no total.

Sofia Sousa foi aprovada pelo partido e durante vários meses fez campanha eleitoral em busca de conquistar o maior número de votos possíveis. A actividade de campanha esteve muitas vezes direccionada para os problemas que afectam a comunidade, como a poluição, os comportamentos desviantes e criminais e o crescimento exacerbado da população.

A eleição de Sofia enquanto representante era algo improvável de acontecer. Tower Hamlets é uma região dominada pelo partido trabalhista (42 trabalhistas no total de 45 no concelho) e só uma conjugação improvável de factores daria um lugar dos três disponíveis ao partido conservador. Todavia no dia da eleição, 807 pessoas confiaram na jovem portuguesa, profissional em “digital analytics and optimization” e em Londres há menos de três anos. O último lugar eleito (1089 votos) não ficou longe e o sentimento de dever cumprido encheu o coração e a cabeça de quem tinha trabalhado muito nos 6 meses que antecederam Maio de 2018.

“Apesar da não eleição, a campanha continua todos os fins de semana.” O bichinho da cidadania política está cada vez maior e o sentimento de poder melhorar a comunidade continua intacto. Nestes últimos meses, colaborou na criação da organização Conservative Friends of Portugal, de modo a poder ajudar a esclarecer os portugueses que residem em Londres, sobretudo numa altura crítica em que o Reino Unido procederá à saída da União Europeia.

O Brexit é um tema que não a assusta. É naturalmente contra a decisão tomada mas sente que não irá alterar de forma significativa a vida dos portugueses que já vivem no país. Caberá também às organizações que ajudam os portugueses em solo britânico afastar a ideia que o país os vai expulsar. Para já, há uma ideia muito clara sobre o futuro de Sofia no Reino Unido. “A curto prazo, quero sustentar a minha carreira, continuar activa na comunidade e ajudar a resolver os problemas das mulheres.” Numa perspectiva mais alargada do tempo, todas as opções estão em aberto, inclusive o retorno a Portugal.

A história de Sofia Sousa é o testemunho de alguém que encontrou a felicidade e o preenchimento pessoal na actividade política. Crente na ideia que a comunidade e o Estado devem dar todas as capacidades a cada ser humano para poder voar, Sofia construiu o seu próprio sucesso numa área que sempre a encantou mas que nunca tinha tido oportunidade para experienciar. Esta é igualmente a história que pode e deve inspirar outros jovens fora do seu país, a procurar uma resposta de realização na própria comunidade. Sofia, self-made-woman por certo, assume no discurso a comunidade onde participa como “minha”.

Fotos de Sofia Sousa, cedidas pela própria ao Shifter