Previsto forte Tremor nos Açores. Cartaz já está fechado

Está fechado o cartaz do Tremor 2019. Festival decorre de 9 a 13 de Abril na ilha de São Miguel, nos Açores.

Foto de Vera Marmelo/DR

Está fechado o cartaz para a sexta edição do Tremor. O festival açoriano que regressa a São Miguel, entre os dias 9 e 13 de Abril, volta a apostar na criação de uma rota de actividades que, partindo da música, propõe a descoberta da natureza, das tradições e da comunidade local. A fechar as contas no plano dos concertos, confirmações finais para Hailu Mergia,Yin Yin e Fumaça Preta.

Desde que, em 2013, a Awesome Tapes from Africa recuperou a sua primeira obra, Hailu Mergia and His Classical Instrument, que o sucesso e reconhecimento do etíope Hailu Mergia não tem conhecido abrandamento. Espaços como a Pitchfork, The Wire ou The New York Times rasgam-se nos elogios sobre o lugar cimeiro que o músico ocupa na história e evolução do ethio-jazz. O seu mais recente disco, Lala Belu, saiu para o mercado em 2017, mais de uma década depois da última edição, como prova inequívoca da sua história de sobrevivência: um instrumentista forçado ao exílio por um regime ditatorial hostil para com as artes e que acabou a conduzir táxis por mais de 30 anos.

No Verão de 2017, Kees Berkers e Yves Lennertz começaram a escrever e gravar canções numa escola de ballet na isolada vila de Plateau de Doenrade. Ávidos coleccionadores de discos, os Yin Yin transportam para a sua música a variedade de géneros que podemos encontrar nas suas prateleiras de discos. Partindo da música sul asiática dos anos 1960 e 1970, construíram um diálogo multilingue, com incursões na música do mundo, funk e electrónica. Pingpxng, a cassete com que se estrearam, simboliza isso mesmo, explicando em detalhe como duas forças aparentemente opostas podem actuar em complementaridade.

Na Fumaça Preta juntam-se elementos de tropicalismo, fuzz funk, música concreta, acid house e electrónica vária. Juntam-se África e Brasil, Europa de Norte e o mundo latino. Surgiram quase por acaso quando Alex Figueira juntou um grupo de amigos no seu estúdio analógico mínimo em Amesterdão. Dessa sessão nasceria A Bruxa, o primeiro 45 rotações que deixava já clara a vontade do grupo em derrubar todas as barreiras musicais. Com dois longa-duração selados pela incontornável Soundway, é ainda inexplicável o mundo por onde se movem e imprevisível o território que trilham, qual espécie de voodoo que amarra as linhas entre a tradição, o género, a composição e a improvisação.

E porque o cartaz de um festival não se faz sem dança e festa, as noites do evento estarão entregues às mão de Odete, MCZO & DUKE, La Flama Blanca feat. ZÉFYRE, Black vs DJ FITZ, Zuga 73 + Tape + Nex e DJ Milhafre b2b DJ Fellini.

Juntando mais de 40 artistas, o Tremor apresentará uma vasta programação que ocupa salas de espectáculo e espaços informais de Ponta Delgada e Ribeira Grande.

Muito mais além de música

A par dos concertos, a edição 2019 apresenta também aquele que será, porventura, o cartaz mais ambicioso de residências artísticas desde a sua formação. Do espectáculo de abertura, a ser desenvolvido entre o colectivo Ondamarela com a Es.Música.RP e a Associação de Surdos da Ilha de São Miguel, até ao diálogo entre as tradicionais danças das Despensas de Rabo de Peixe e os ZA! (a ser também documentado em fotografia por Rúben Monfort), passando pelos trabalhos site specific de Natalie Sharp para o Tremor Todo-o-Terreno e pelos encontros diversos entre músicos.

Para ver em Abril, o segundo episódio do trabalho de Rafael Carvalho e FLiP em torno da viola da terra, e os diálogos entre Balada Brassado e dB; Cristóvão Ferreira e a dupla espanhola Tupperwear; Pedro Lucas, os We Sea, o rapper LBC e o realizador Diogo Lima. Destaque especial ainda para o regresso de Lieven Martens ao arquipélago, para uma recriação da sonata The Cow Herder, um retrato sonoro da vida de um guardador de vacas da Ilha do Corvo. De referir também a inauguração da exposição que sumariza o trabalho realizado por Renato Cruz Santos e Duarte Ferreira: Sístole será composta por um conjunto de instalações que juntando imagem e som constroem uma viagem imersiva ao encontro da ilha do Tremor, pautada pelos ritmos da paisagem.

Fundado pelo curador e astrónomo Jan Świerkowski, o Instytut B61 é um colectivo artístico e científico dedicado à criação de espectáculos multimédia, filmes e projectos digitais que unam arte contemporânea e ciência. Com um vasto historial de performances por todo mundo, das quais se destaca o projecto Cosmic Underground apresentado em 2012 em Guimarães quanto esta foi Capital Europeia da Cultura, o colectivo juntar-se-á, no Tremor, aos músicos do Laxmi Bomb, duo electro pop originário de Bombaim, e a artistas açorianos para ali apresentar mais uma experiência imersiva. A proposta promete uma viagem até ao espaço sideral para acompanhar o ciclo de vida das estrelas. O Instytut B61 – Interstellar Sugar Center de Ponta Delgada estará instalado em lugar mistério, a ser revelado aos participantes poucas horas antes do início da aventura.

Concertos, workshops, instalações, cenografias interactivas e uma mini-disco são algumas das iniciativas através das quais o Mini-Tremor – espaço infanto-juvenil e familiar do festival – pretende estimular a população local e visitante para a criação e fruição artística. Na edição deste ano, o Estúdio 13 é o quartel-general e acolhe um workshop/concerto de panelas pelo músico e compositor Samuel Martins Coelho, uma instalação sensorial da bailarina e coreógrafa Maria João Gouveia, e aulas criativas para pais e filhos.

A programação deste Tremor 2019 integra ainda o percurso programático The Future is Female, que pretende olhar, debater e pensar o papel da mulher nas indústrias criativas e musicais europeias e dos Estados Unidos. A par de um ciclo de conversa com artistas como Instytut B61, Odete, Lafawndah, Laura Diaz (Teto Preto), fazem parte deste circuito os concertos de Lula Pena, Odete, Hayley Heynderickx, Moon Duo e Vive La Void. Este ciclo conta com o apoio da FLAD e Embaixada dos EUA.