Teremos sempre Varda por Agnès

Varda não receava a morte. Tinha apenas um desejo: morrer em paz.

Agès Varda y Jorge Sánchez Sosa en una charla privada en el lobby del Hotel Fiesta Americana. © Cortesía de FICG 25 / Oscar Delgado

Foi na passada manhã do dia 29 de Março que o jornal francês Le Monde adiantou que Agnès Varda tinha falecido, aos 90 anos, devido a complicações na sua luta contra o cancro. Neste artigo, recordamos a carreira da artista e a sua influência na luta da emancipação feminina.

É um equívoco comum assumir que a cineasta era de origem Francesa. Foi a 30 de Maio de 1928, na comuna bilingue de Ixelles, na capital da Bélgica, que nasceu Arlette Varda. Filha de mãe francesa e pai grego, a terceira de cinco filhos, foi apenas aos 18 anos que Varda mudou legalmente o seu nome para Agnès, após vários anos radicada em França. Foi com apenas com 12 anos, em 1940, Varda escapou para a França com a sua família, para fugir da Segunda Guerra Mundial. A sua família viva num pequeno barco na comuna francesa de Sète, no sul de França.

No início da sua vida académica, Varda estudou Literatura e Psicologia, o que lhe garantiu uma licenciatura pela antiga Universidade de Paris — Sorbonne. Mais tarde, foi estudar História das Artes nas “Belas Artes” do Louvre, mudança que se revelou acertada e necessária; Varda não se relacionava com os seus colegas em Sorbornne e, para além disso, considerava as suas antigas aulas “estúpidas e antiquadas, próprias daquele tempo”. Mais tarde, Varda mudou de ideias mais uma vez e acabou a estudar Fotografia na Ecóle de Photo Vaugirard.

Durante 10 anos, de 1951 a 1961, Varda foi a fotógrafa oficial do Théatre National Populaire, o que a aproximou do mundo do Teatro e do Cinema, pois um dos seus diretores era o cineasta Jean Villar. Numa entrevista, Varda explicou que durante a sua infância não via muitos filmes por não ser algo que lhe despertasse interesse. Contudo a cineasta acreditava que  se tivesse visto muitos filmes desde tenra idade, talvez pudesse ter perdido o interesse e a paixão por esta Sétima Arte.

Varda tentou sempre intercalar a fotografia documental com os seus filmes. Para além disso, a incorporação da fotografia ou de uma composição dita fotogénica ficou desde cedo demarcada como uma espécie de assinatura e estilo próprio da artista. Varda era uma pessoa que prestava muita atenção aos detalhes, o que a levava a ser extremamente a ser consciente de todas as escolhas cinemáticas e narrativas a seu cargo.

Membros do grupo protestante Black Panthers, em 1967. Foto tirada por Agnès Varda.

 

Em 1954, Varda realizou o seu primeiro filme, La Pointe Courte, com um orçamento minímo e a colaboração de amigos próximos.

A sua estreia foi muito bem vista pelos críticos, mais tarde considerada como uma antecipação à French New Wave ou Nouvelle Vague – um dos movimentos mais influentes da história do cinema, um contra-movimento ao cinema francês da altura que se assemelhava demasiado à Literatura, a nível narrativo e até a nível estético.

La Point Courte traduz-se para “short point” em inglês, um pequeno bairro numa aldeia de pescadores. A ideia para o filme surgiu enquanto Varda filmava a aldeia para mostrar a um amigo com uma doença terminal. O filme segue um casal infeliz que tenta remendar a sua relação e foi editado com a ajuda de Alan Resnais, realizador de Hiroshima, mon amour (1959).

Com este filme, Varda revelou-se uma verdadeira artista, com uma subtileza e maneira única de lidar com a subjetividade das coisas à sua volta. Alguns dos temas mais recorrentes nos seus filmes eram o erotismo e a idade, a morte e o tempo, o poder do insconsciente, conflitos exestencias…

Durante o seu tempo em Paris, Varda acabou por conhecer o que seria o seu futuro marido, o cineasta francês Jacques Denny com quem se casou em 1962; O casamento perdurou até à morte de Denny em 1990.

O seu segundo filme foi Cleo from 9 to 7, de 1961, que se tornou num filme de culto. O filme segue uma cantora enquanto aguarda pelos resultados médicos que revelarão se tem cancro ou não. Para além de ter de aprender a lidar com a possibilidade da sua morte, o filme também confronta, através da personagem principal, a maneira típica como as mulheres eram e continuam a ser objetificadas.

Em 1964, Varda realizou o filme Le Bonheur (Hapiness), um dos seus filmes mais controversos, mas que mesmo assim ganhou o Grand Prix do Festival de Berlim. O filme segue um casal com uma vida confortável, mas em que o marido continua à procura de um novo sentido de felicidade, o que o leva a ter um caso com outra mulher que conhece numa viagem de negócios.

Entre 1968 e 1970, Varda e Demmy mudam-se para Los Angeles, onde Varda se aproximou de celebridades como Andy Warhol, Jim Morrison e Harrison Ford. Mais tarde, voltou a viver em LA entre 1979 e 1981.

Após a morte do seu marido, Varda fez vários filmes em sua honra como o filme Jacquot de Nantes (1991) e os documentários Les Demoiselles On et 25 Ans (1993) e L’Univers de Jacques Demmy (1994).

Estes últimos tempos, a maior parte dos filmes de Varda eram documentários, todos eles muito bem recebidos e icónicos; nesta lista incluem-se Les Plages de Agnès, uma reflexão da sua própria vida; e o filme feito em colaboração com o artista gráfico JR, Visages Villages, que segue a jornada dos dois numa França rural, onde estes tornam os retratos de pessoas que conhecem pelo caminho em instalações de arte em prédios, entre outros sítios. Este último foi nomeado para um Oscar de Melhor Documentário, em 2018.

Está ainda para sair o último documentário da realizadora, outra retrospetiva do seu trabalho, chamado Varda by Agnès.

A filmografia de Agnes Varda conta 24 longas-metragens e 22 curtas metragens. Através das suas obras, Varda contribuiu para o Movimento Feminista, através da utilização de protagonistas femininas e da atribuição de uma “nova voz”.

Varda não receava a morte. Tinha apenas um desejo: morrer em paz. Segundo um comunicado feito pela sua família, Varda estava rodeada de família e amigos, num ambiente de amor e de proximidade nos últimos momentos da sua vida.