Apple Card mostra a diferença entre o que a Apple diz e o que a Apple faz

Apple Card, o cartão que não é de um banco mas... é emitido por um.

A expressão “Deus está nos detalhes” pode ter nascido numa altura em que o senhor tinha mais preponderância no panorama social; contudo, nunca como actualmente fez tanto sentido. Com a proliferação da tecnologia e a conversão de serviços e mercados para a forma básica de uma interface de telemóvel, as informações mais importantes ou os indícios que podem gerar alguma desconfiança escondem-se nas margens da nossa percepção.

Já falámos sobre isso a propósito das técnicas de design utilizadas para incentivar a nossa adição a apps e redes sociais e a propósito das técnicas utilizadas em sites de vendas e subscrições para incentivar as nossas compras. Agora voltamos ao assunto para observarmos e reflectirmos sobre a forma como um novo cartão de crédito surge no mercado, o Apple Card.

Um produto da Apple ou da Goldman Sachs?

O cartão surge como um dos ex-libris da nova estratégia de uma das empresas mais valiosas do mundo, a Apple. Contudo, é muito mais do que isso. Apesar de o nome só contemplar a marca Apple (“Apple Card”), o novo cartão de crédito é resultado de uma parceria entre esta e o gigante banco norte-americano, Goldman Sachs, representando também para este uma mudança de estratégia significativa. O Apple Card é não só central a uma estratégia focado nos serviços por parte da Apple como também o primeiro produto de crédito pessoal criado pela instituição financeira Goldman Sachs (GS).

A GS é uma daquelas instituições financeiras de que nos habituámos a ouvir falar sem perceber muito bem em que consiste o seu serviço. Na maior parte dos casos conhecidos, funciona como um banco de investimento especializado em lidar com grandes somas de dinheiro; o banco tornou-se num assunto sério no território europeu por lhe ser imputadas certas responsabilidades na agudização das crises de dívida em países como a Grécia — o banco de investimento norte-americano terá ajudado o banco central grego a esconder dívida até ao ponto em que se tornou insustentável, entre 2010 e 2011 deixando a Grécia à beira do precipício.

Mais recentemente, em 2018, o banco voltou à antena neste caso à boleia de Durão Barroso – depois de deixar o lugar de presidente da Comissão Europeia, Barroso assumiu um lugar de destaque no banco, levantando sonantes questões sobre a promiscuidade entre o trabalho político e o financeiro; tais suspeitas culminaram numa condenação pela Provedora da Justiça Europeia, que considerou que tanto banco como Comissão prevaricaram no processo de contratação.

O Apple Card segue a estratégia da Apple ao ser mais um serviço – e, neste caso, um serviço que pode servir para subscrever os outros serviços apresentados –, mas também segue a da Goldman Sachs. O interesse deste grupo em expandir a sua actividade do mundo das empresas para o mundo dos consumidores é bem conhecido. Em 2016 o grupo lançou um banco online denominado Marcus, que tem tido uma taxa de crescimento considerável.

“Esta parceria é um grande passo no crescimento da nossa vertente para o consumidor, reforçando a nossa visão de criar a plataforma líder para consumo digital”, afirmou David Solomon, CEO da Goldman Sachs, num memo enviado aos colaboradores.

Neste ponto, surge a primeira nota sobre a presença de deus nos tais detalhes. Ao entrarmos na página dedicada à promoção do cartão no site da Apple, a primeira mensagem que nos aparece é: “Este é o Apple Card. Um novo tipo de cartão de crédito. Criado pela Apple, não por um banco” – uma mensagem que se refuta de imediato. A intenção da ambiguidade parece ser mais ou menos clara; a Apple usa argumento de não ser um banco respondendo à desconfiança que estas instituições geram, escondendo que o seu cartão é efectivamente criado, ou pelo menos co-criado, por um banco… e um dos mais conhecidos do mundo. O contraste é evidente e quase risível. Se fizermos um scroll instantâneo até à última linha podemos enfim ler: “Emitido por Goldman Sachs Bank USA, Salt Lake City Branch”

Primeiro foram as tecnológicas, e quando forem as financeiras?

O termo “capitalismo de vigilância” começou a ser utilizado em 2016 e tornou-se notável pela voz de Shoshana Zuboff, que no final do ano passado publicou o livro The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. Zuboff alerta para a forma como as grandes empresas tecnológicas criam produtos que induzem a modificações no comportamento humano de forma a obter mais dividendos e recorrendo à sua capacidade de vigilância para prever as alterações de sucesso. Se até agora eram sobretudo as tecnológicas a navegar no universo digital, em parcerias como esta vemos como as empresas e os bancos do mundo analógico começam a criar novas ramificações.

Outra nota predominante na keynote da Apple foi a da transparência e a privacidade. No caso deste serviços as políticas de utilização estão à vista de quem nelas quiser pensar. Por um lado, a empresa de Cupertino se gaba de criar o sistema operativo mais transparente e privado, apresentando constantemente novidades neste capítulo como a opção do Safari que impede o tracking por cookies; por outro, apresenta propostas como esta em que convida para o seu ecossistema uma das empresas mais poderosas do mundo — abrindo-lhe a porta ao universo do capitalismo de vigilância.

Não é de admirar que as condições do cartão de pagamentos e crédito sejam tão vantajosas – como o sistema de cashback, que permite o retorno de uma pequena percentagem do que é gasto. Ao criar o sistema de pagamento e os serviços em que esse pode ser utilizado com facilidade, a Apple consegue uma vantagem competitiva à vista de todos; juntando a isso o universo de informação sobre comportamentos de consumo de todos os seus utilizadores, o potencial deste negócio torna-se abstracto mas ainda mais valioso. A dualidade entre o que a Apple diz e o que a Apple faz é uma questão que tem sido amplamente debatida, especialmente neste sector; recordemos por exemplo a parceria com a Google na definição do motor de busca de origem que vale à empresa de Tim Cook — segundo dados do Goldman Sachs (curioso) — 9 mil milhões de dólares.