Calouste ou Caloustes?

Só o acaso trouxe Calouste a Portugal, e só a sorte o pôde cá conservar. A sorte e os fiscos britânico e americano, claro.

Foto via Fundação Calouste Gulbenkian

Haverá alguém que sabe melhor quem somos que nós próprios? Esperemos que sim. Caso contrário, será difícil saber quem foi Calouste, um homem reservado que poucas vezes deixou transparecer aquilo que realmente pensava de si próprio. Sabemos, no entanto, o que ele queria ter sido e não foi. Ao que parece, enquanto repousava no Jardín del Retiro, perto de Málaga, confessou haver dois objetivos de vida que sempre lhe fugiram: ser cientista e ser sonhador num jardim “concebido exatamente como o queria”. Curiosamente, dois objetivos para os quais a Fundação Calouste Gulbenkian activamente contribui.

Apesar de pouco da Fundação ter sido construída por si, podemos ver nela uma das melhores descrições de Calouste que pode ser encontrada – a prossecução do saber e a divulgação do belo, feitos de forma eficiente e metódica, como era seu hábito. Basta ler a descrição das viagens que Calouste fez, sobretudo nas regiões mediterrânicas, a levantar cada pedrinha para garantir que via obsessivamente todas as obras de arte disponíveis. Foi esse método que lhe permitiu juntar uma colecção que rivaliza com a de muitos museus por esse mundo fora, e que ele regularmente emprestou ao longo da sua vida, mas desejou reunir para sempre num único museu para o usufruto da humanidade.

Foto de Paulo Valdivieso via Flickr

Calouste contado pelos seus objectos

Dizer quem Gulbenkian foi é tarefa quase impossível, sobretudo de forma célere. Uma boa forma de começar é talvez olhar às suas instruções a Monsieur Duprat: que tivesse consigo, quando viajava, passaportes, papel de carta e sobrescritos, livro de código de telegrafia, vinhos e champanhes, medicamentos, café, mel, óculos de sol e binóculos. Olhados com atenção, estes objectos dão uma ideia bastante realista sobre o seu dono. O trabalho comandou sempre a sua vida, e esse trabalho sempre esteve ligado à comunicação. Um dos seus trunfos sempre foi a capacidade diplomática de fazer contactos com os mais distintos indivíduos. Os medicamentos dão-nos o vislumbre do homem frágil que morava atrás do palco, nos bastidores de uma carreira e de uma fortuna abismais (a sua lista de contactos em Lisboa e Paris listava 44 médicos).

A fragilidade era manifesta, mas nunca o levou a ter dúvidas sobre a sua longevidade – pelo menos em público, comentando sobre os cento e cinco anos do avô que contava ultrapassar, mas dos quais ficou a 19 de distância. A esse respeito escrevia John Walker, curador da National Gallery de Washington, a David Bruce, embaixador dos EUA em Paris, que nunca tinha conhecido ninguém tão alheio “ao carro alado do Tempo a aproximar-se velozmente!”. Os binóculos revelam a paixão pelo mundo animal, e pelos pássaros especialmente. Era a governanta parisiense de Calouste, Madame Soulace, que lhe cuidava da sua espectacular coleção de canários, havendo também quem suspeite que seria Mme. Soulace a gerir outros prazeres da vida de Calouste.

E o que dizer do seu jardim em Deauville, cuja construção deixou a cargo de um dos maiores de sempre a projectar jardins, Achille Duchêne? Também aí é possível perceber a enorme fusão de saber, discrição e método que acompanhou Calouste por toda a sua vida. Rejeitou sempre dar informações demasiado pessoais ao seu paisagista, com quem teve conversas como se de um par de profissão se tratasse. O projecto dos jardins em Les Enclos foi crescendo, e no final da sua vida havia já planos para um castelo para perus e faisões. O que sempre se mantiveram constantes foram a imaginação e criatividade e a forma metódica de lhes dar expressão material.

Calouste não era um homem fácil. Basta ler sobre o processo que o filho lhe colocou nos tribunais londrinos, ou sobre as queixas da filha relativamente à dualidade de critérios sobre manutenção de relações extra-matrimoniais – se o pai podia, ainda que por recomendação do médico, porque não podia ela também? Amigos, também não teria muitos. Kenneth Clark, que conheceu Calouste enquanto era director da National Gallery, escreve nas suas memórias que “seria insensato de qualquer homem dizer que fora amigo de Gulbenkian”. Mas ninguém dizia pior que a própria mulher, Nevarte: “Ele detesta pessoas.”

Talvez isso seja fruto de uma dura infância precoce e radicalmente interrompida, sobretudo quando pensamos que dormiu até aos 14 anos na cama da mãe. Ou então da sua obsessão pela eficiência, que se manifestava mesmo quando daí não advinha nenhum ganho pessoal. Um dos episódios mais caricatos da vida de Gulbenkian, título nada fácil de conquistar, prende-se com um negócio de caviar falhado com a União Soviética. Ao ficar na posse de duas toneladas de caviar sem capacidade de o escoar, a solução eficiente encontrada foi a de oferecer o caviar a amigos e conhecidos.

Calouste e Portugal

Já em 1930, quando comprou um conjunto inestimável de obras ao Hermitage, Calouste dava mostras de pretender construir uma colecção que servisse também como uma espécie de exposição pedagógica sobre os grandes mestres da pintura. A forma como obteve estas obras, acrescentado-as a um conjunto de exigências nos seus projetos de negócios do petróleo, é mais uma prova da forma como as muitas vidas de Calouste estavam ligadas, e de como o seu dia-a-dia exigia a criação de sinergias entre as várias ocupações, para que houvesse tempo e energia para ter sucesso em todas, como era o caso. É também, talvez por acaso, um sinal da importância relativa dos negócios e da arte na sua vida: a compra das obras resultou; os negócios de mineração no interior da Rússia, não.

Apesar de ter sido um projeto muito ponderado por Calouste, a Fundação nunca deixou de ser apenas uma ideia. Recusando até ao fim abrir mão dos seus negócios no petróleo, sobrou pouco tempo para preparar de forma cuidada o futuro, algo que o seu biógrafo sugere que levaria Calouste a arrepender-se, se a tempo disso estivesse. Além disto, é preciso também ter em conta a grande fragilidade que foi desenvolvendo no final da sua vida. Em 1951, alguns anos antes de morrer, começou a delegar de forma mais substancial nos seus súbditos, dando inclusivamente poder ao seu escritório de Londres para decidir em seu nome. Quão impensável seria isto em 1945? O cansaço e a fragilidade eram tantos que Calouste começou inclusivamente a pedir memorandos mais curtos sobre os seus negócios, aquilo a que o seu filho chamou, em carta, “palrar de bebé” – ou, nos nossos dias, briefings ao Presidente americano.

Fotos via Fundação Calouste Gulbenkian

 

Só o acaso trouxe Calouste a Portugal, e só a sorte o pôde cá conservar. A sorte e os fiscos britânico e americano, claro. Calouste sempre foi avesso à ideia de impostos, e orientou a sua vida de forma a fazer passar as suas ligações oficiais pelos locais que fossem mais benévolos a esse nível. A juntar a esta razão de peso, havia a permanência de Calouste na França de Vichy, que não agradava muito aos Aliados. Ao suspeitarem das suas ideias de uma viagem para Nova Iorque, em 1942, acabaram por fazê-lo ficar em Lisboa, numa confortável cidade neutral e cosmopolita. Foi no Estoril que Calouste voltou a cruzar-se, provavelmente sem o saber, com um antigo conhecido seu, que agora trabalhava ao serviço de Sua Majestade. Sim, esse mesmo, Ian Fleming, o pai literário de Bond. Não consta que tenham voltado à fala, até porque muita vida tinha acontecido desde que Fleming havia sido trabalhado na Cull & Co., corretora de Calouste. Também não foi de Portugal para Washington, nem ele nem a sua obra. John Walker queria encaminhar Calouste para lá, mas não resistiu a armar-lhe algumas aldrabices, acabando por cortar as pernas ao plano.

Calouste pensou em Londres, em Paris, em Washington…. mas foi Lisboa que conseguiu o seu espólio. Como? Já vimos que houve muita sorte à mistura. O facto de Gulbenkian cá ter passado os últimos anos da sua vida foi determinante, mas foi-o também o par Radcliffe-Azeredo Perdigão, que conseguiram que Calouste incluísse, no último testamento, em 1953, Lisboa como herdeira da sede da futura Fundação Gulbenkian.

Convém nunca esquecer que a vontade de Calouste nunca foi estabelecer uma fundação nacional, mas sim universal, que se dedicasse a toda a humanidade. Isso é espelho da forma como sempre viveu a sua vida, recusando alianças nacionais e sendo apenas leal à sua cultura arménia, uma identidade vincada mas sem Estado-Nação a dar-lhe suporte político. Esta mesma identidade foi um fardo para muitos, mas Gulbenkian soube tirar dela algumas vantagens. Conseguiu manter sempre uma postura de diplomata, equidistante de todas as partes, e o reconhecimento disso é talvez o facto de ter trabalhado, ao longo da sua vida, para inúmeros projetos políticos que, a espaços, chegaram a ser inimigos entre si.

O espírito de Calouste foi forjado na era em que se sonhou com um mundo sem fronteiras. Curiosamente, um espírito muito semelhante, neste aspeto particular, ao de um outro grande do século XX, Stefan Zweig. Sendo estes dois personagens tão diferentes em tanta coisa, é sinal do tempo em que viveram que coincidissem na sua visão de um mundo onde viajar e negociar não obedecia a linhas em mapas (ironicamente, já que Calouste tende a ser conhecido pela lenda da sua Linha Vermelha). Os seus últimos dias foram passados numa auto-diagnosticada apatia por tudo o que de mundano se passava, e por um espírito de contemplação da natureza e do espaço.

Quem é Calouste?

Quem é Calouste? Depende de quem pergunta, talvez. Saberia ele próprio? Onde acabava a fachada ponderada de um homem brilhante, e onde começava a ilusão de um ego que, embora discreto, o mantinha confortavelmente acima das jogadas mundanas dos que o rodeavam? É provavelmente impossível dizê-lo sem cair no campo da ficção. O não nos deve preocupar – é que Calouste não lia romances.

 

(texto submetido ao Concurso “Quem é Calouste?”, da Fundação Calouste Gulbenkian, e que obteve o 3º prémio da categoria Texto – Jovens)