15 de Abril é o Dia de Roubar Algo do Trabalho

A ideia veio do colectivo anarquista norte-americano Crimethinc e ambiciona trazer alguma justiça social ao mundo do trabalho através de pequenos e mais ou menos inofensivos furtos.

Todos os dias é dia de uma coisa qualquer. Dia do amigo, do primo, do tio, da árvore, da madrinha ou do cãozinho; sucedem-se uns aos outros, tornando gritante a falta de originalidade na sua definição. Quase tudo tem um dia mas na verdade não há grande diferença entre eles, excepção feita para os 10 minutos ao telefone com o parente do dia correspondente. De há algum tempo para cá, todavia, as efemérides têm começado a ganhar… outra piada. O dia de andar sem calças no metro, de dar a liberdade ao cabelo de não ser penteado e, agora, descobrimos um que se calhar é o nosso preferido: o dia de roubar algo do trabalho.

A ideia veio do colectivo anarquista norte-americano Crimethinc e ambiciona trazer alguma justiça social ao mundo do trabalho através de pequenos e mais ou menos inofensivos furtos. Pode ser uma caneta, um clip, uma caneca ou um acessório do computador; a ideia é obrigar o patrão a dar um pouco mais de volta do que aquilo que está estabelecido contratualmente, lembrando que se a empresa dá avultados lucros pode não estar a pagar aos seus funcionários o valor total que recebe pelo seu trabalho.

Apesar da simplicidade, o colectivo leva a ideia bastante a sério e no site podemos encontrarmos planos para a maximização do impacto. O grupo baseia-se em estudos para mostrar que actualmente já muito é roubado diariamente dos escritórios, mais do que não seja o tempo perdido, e que fazê-lo num dia é uma forma de tornar esse acto mais significativo e simbólico, não de incentivar ao roubo. Assim, sugerem que os vários trabalhadores se possam unir no saque maximizando por um lado a relação entre eles e, por outro, o resultado do desvio.

É preciso considerar que a iniciativa não é de todo um incentivo a práticas ilegais: por um lado, escuda-se num hábito que muitos trabalhadores têm; depois, foca-se no lado positivo do resultado – ou seja, ao limite o roubo pode até ser encenado. O objectivo da criação deste dia especial é criar consciência nos trabalhadores das relações com o seu patrão, que, como diz no site da iniciativa, “pode estar a roubar um pouco de cada vez” a cada colaborador, e gerar um sentimento de empatia e solidariedade entre os vários subordinados desse patrão. No fundo, roubar algo do trabalho é um gesto que pode ser defendido na teoria como se se tratasse de uma apropriação do valor gerado por um trabalhador que não lhe é atribuído.

Para que ninguém fique de fora, o colectivo deixa uma dica para reformados e desempregados: roubar algo do trabalho de alguém. Aqui o ponto subjacente é que a classe dos trabalhadores não se define exactamente pelo estado actual de cada um. Um reformado pode voltar ao seu último emprego e reivindicar o valor que considera lá ter deixado e um desempregado pode prevaricar numa empresa que considere ter más práticas laborais.

Nas FAQ do projecto, podemos ainda encontrar algumas curiosidades que mostram que a iniciativa é levada a sério. O grupo deixa o conselho para que quem é alvo de vigilância tenha cuidado e para que quem não é possa roubar por ambos; para que a iniciativa não passe por algo puramente egoísta, imoral ou ilegal (que o é) sugere-se ainda que o ladrão não fique com os proveitos do desvio, podendo partilhá-lo com outros trabalhadores ou doar a uma instituição de solidariedade social a seu gosto.

Em entrevistas dadas sobre o fenómeno, o grupo sublinha a ideia de que não estão a incentivar ninguém a roubar mais do que já faz mas antes a criar um dia e um espaço para que o assunto seja abordado. De resto, os promotores da iniciativa consideram que o roubo no local de trabalho é um sintoma das desigualdades impostas pelo sistema vigente, algo que interessa sempre escamotear e debater. A iniciativa nasceu nos EUA, pelas mãos do colectivo Crimethinc, mas em 2019 prevê-se que República Checa, Alemanha e França também se juntem.