Uma líder decidida e um país sem armas, Jacinda Ardern gera “Jacindamania”

Entrou em vigor há uns dias a lei de controlo de armas imposta pelo Governo na sequência do ataque de Christchurch.

Christchurch City Council Newsline/Kirk Hargreaves

A 15 de Março, um extremista australiano levou a cabo um atentado pensado ao pormenor para ser viral nas redes sociais. A sua intenção e o manifesto que vimos publicado nas capas dos jornais trouxeram para discussão pública a problemática dos submundos online, a discussão sobre como as plataformas web podem facilitar ou incentivar todos os tipos de expressão de fanatismo.

Em nome da auto-intitulada alt-right, Brenton Tarrant matou pelo menos 50 pessoas e feriu mais de 40 num ataque terrorista a duas mesquitas muçulmanas em Christchurch, na Nova Zelândia, país que é presença assídua no pódio da lista dos mais seguros do mundo. O atirador tinha licença de posse de armas e adquiriu-as de forma legal. Era dono de cinco, duas semiautomáticas de estilo militar que usou naquele dia.

Na sequência do atentado, imediatamente no dia seguinte, a primeira-ministra Jacinda Ardern prometeu alterações nas leis do país sobre as armas com o objectivo de reduzir drasticamente o seu número no país, apesar de não especificar quais as medidas a tomar. Por todo o país, multiplicaram-se as histórias de neo-zelandeses que entregaram as suas armas de forma voluntária às autoridades. A polícia emitiu instruções a toda a população sobre as melhores formas para o fazer. Nos dias seguintes ao apelo do Governo, foram entregues nas esquadras de todo o país perto de 80 armas de fogo, para serem destruídas de forma segura. Como as armas, amontoaram-se histórias de neo-zelandeses que quiseram tomar uma atitude.

Uma semana depois do ataque, Jacinta Ardern cumpriu o prometido. “A Nova Zelândia vai proibir todas as armas semiautomáticas de estilo militar. Vamos também proibir as armas de assalto”, declarou, detalhando que a nova legislação entraria em vigor no início de Abril. A primeira-ministra garantiu ainda que vão ser tomadas medidas provisórias para evitar uma corrida às armas antes da entrada em vigor da proibição de venda.

A medida vai mais longe, e proíbe também a venda de carregadores de alta capacidade. É que, além de ter comprado as armas legalmente, o homem detido e acusado de ter perpetrado os ataques reforçou a capacidade do armamento ao usar carregadores de 30 projéteis “através de uma simples compra ‘online’”, disse.

“Em resumo, todas as armas semiautomáticas usadas no ataque terrorista de sexta-feira serão proibidas neste país”, afirmou Jacinta Ardern.

Antes da mudança na lei, existiam cerca de 1,2 milhões de armas de fogo registadas na Nova Zelândia, o equivalente a uma arma por cada quatro habitantes. O atentado levou ao escrutínio de uma legislação que punha a Nova Zelândia praticamente sozinha com os Estados Unidos num panorama global, ao não registar 96% das suas armas de fogo, as mais comuns e mais utilizadas em crimes. (A vizinha Austrália proibiu as armas semiautomáticas em 1996, após o massacre em Port Arthur. As autoridades reforçaram as leis e retiraram mais de 650 mil armas de fogo das ruas.) Em declarações ao New York Times, Philip Alpers, especialista em políticas de armas da Gunpolicy.org, referiu que: “Pode-se supor que a facilidade de obter essas armas de fogo pode ter sido um factor na sua decisão de cometer o crime em Christchurch. (…) Há enormes lacunas na legislação da Nova Zelândia, mesmo que algumas das suas leis sejam fortes.”

O documento oficial com a nova lei foi assinado no passado dia 11 e desde então que qualquer pessoa com uma arma militar enfrenta uma pena de até cinco anos de prisão. A polícia está ainda a ultimar os detalhes do desenho de recolha das armas agora banidas e até que esses pormenores sejam anunciados, está em vigor um período de amnistia. Há ainda isenções à lei, que permite a posse de armas do género se tiverem sido herdadas ou se forem usadas para controlo profissional de pragas.

“Jacindamania”, ou como o Mundo devia aprender com Jacinda Ardern

A forma como a Nova Zelândia reagiu ao ataque e as medidas tomadas na sua sequência foram elogiadas em todo o mundo. A maioria dos louvores vão para Jacinda Ardern e para a forma como deu a cara pela luta contra o terrorismo. O assassinato de 50 fiéis muçulmanos num país como a Nova Zelândia será examinado durante muito tempo pelo modo como os ódios violentos são gerados e encenados nas redes sociais e na Internet. Mas talvez o mundo deva aprender com a forma como a primeira-ministra reagiu ao horror.

Quase imediatamente após o atentado, Ardern ouviu a indignação dos seus constituintes e declarou que o seu Governo ia introduzir novos controlos sobre as armas de estilo militar que o atirador de Christchurch e muitos dos assassinos em massa nos Estados Unidos usaram. E introduziu. “É sobre todos nós”, disse, “é de interesse nacional e é sobre segurança”.

Também disse ao Parlamento que a imprensa devia abordar a facilidade com que a internet pode ser usada para espalhar ódio e imagens de violência. “Não podemos ficar sentados e aceitar que essas plataformas simplesmente existem e que o que é dito nelas não é responsabilidade do lugar onde são feitas as publicações”, disse. “Não pode ser um caso de lucro sem responsabilidade.”

Na Nova Zelândia, um tiroteio em massa bastou para despertar o governo. Nos Estados Unidos, nem mesmo uma série de assassinatos em massa – 26 mortos numa escola em Newtown, Connecticut; 49 numa discoteca em Orlando; 58 num concerto em Las Vegas; 17 numa escola em Parkland, na Flórida – foram suficientes. Nem o facto de 73% dos americanos dizerem que é preciso fazer mais para controlar a violência armada.

A proibição da arma de escolha dos terroristas foi apenas uma das áreas em que Ardern mostrou como devia ser a liderança em tempos de crise. Em vez de mensagens triviais, a primeira-ministra vestiu um hijab preto e levou um grupo de políticos para visitar as famílias das vítimas. Ao falar sem guião numa escola perante algumas das vítimas, pediu aos alunos para “deixarem a Nova Zelândia ser um lugar onde não há tolerância para o racismo. Nunca.” Disse às famílias enlutadas: “Não podemos conhecer a sua dor, mas podemos caminhar convosco em todas as fases”.

E num gesto impressionante, recusou-se a pronunciar o nome do terrorista de Christchurch. “Ele pode ter procurado notoriedade, mas nós na Nova Zelândia não lhe daremos nada”, disse. “Nem mesmo o nome dele.”

Depois disto, como depois de qualquer outra atrocidade, os líderes mundiais devem unir-se para condenar claramente o racismo, compartilhar a dor das vítimas e despir os inimigos das suas armas. Jacinda Ardern mostrou o caminho.