jamm: quando um grupo de amigos decide fazer uma revista de música “porque sim”

Há dois anos, o Fábio Lopes (Conguito) e o António Almeida quiseram fazer uma revista de música em papel. A gestação e o parto foram complicados mas a jamm nasceu por fim com uma edição de 500 cópias.

No jazz, uma jam é sinónimo de improviso e de paixão, é quando um ou mais músicos se junta para tocar para seu próprio prazer, experimentando uma sintonia coincidente mas ao mesmo tempo vagueando pelas sonoridades que cada um dos seus instrumentos oferece. Uma jam é isto e é também o que o Fábio Lopes (Conguito) e o António Almeida decidiram fazer em formato de revista.

jamm é Just Another Music Magazine. Mais uma publicação de música que, ao invés dos inúmeros blogues que existem sobre música, surge em formato físico; e cujo primeiro exemplar está à venda a partir desta sexta-feira nos espaços Under The Cover, em Lisboa, e Manifesto, no Porto, e online para todo o país. A jamm é um trabalho de improviso e de paixão; é o fruto da vontade de um grupo de amigos de querer fazer uma revista de música, ponto, e da persistência em aprender como se faz.

“Isto começou quase como uma brincadeira. Uma ideia que eu e o Fábio tivemos há uns anos quando estávamos num festival de música em Paris e nos desafiámos a lançar uma revista de música só porque sim”, conta António numa conversa descontraída com o Shifter. “Não havia nenhuma revista de música ou com conteúdos sobre música com que nos identificássemos. Se não há porque é que, em vez de estarmos aqui a lamentar, não criamos uma? Bora criar, bora tentar fazer”, completa Fábio. “Foi muito ‘bora tentar, bora experimentar’, nunca fizemos, não sabemos o que é preciso. Tanto eu como o Fábio gostamos de trabalhar fazendo coisas que mal sabemos e aprender pelo caminho. E se não resultar, ao menos aprendemos qualquer coisa nesta aventura”, acrescenta António.

Dois anos de trabalho

Nessa jornada, que começou há dois anos, Fábio e António foram constituindo uma equipa para a ideia que tinham tido naquele festival de música. Foi assim que chegaram ao João Saúde – precisavam de alguém para desenhar a revista e, numa pesquisa no Behance, chegaram ao contacto com o ‘John’ (como se tratam). O primeiro número da jamm não tem capa, abre com uma página rosa, para nos deixar deixar curiosos quanto do que pode vir no interior. O teaser é justificado, pois o que vamos encontrar depois são oito dezenas de páginas com bons artigos e fotogalerias resistentes ao tempo, envoltos num design ‘do caraças’ que convida ao folhear.

“Nunca quisemos criar a melhor revista ou a melhor revista de música de sempre”, ressalva Fábio. “Quisemos fazer uma revista como sabemos, sem grandes comunicações super especiais ou textos super elaborados. Vamos escrever na nossa linguagem, como se estivéssemos a escrever um artigo para nós, e depois colocar numa revista, imprimir e fazer umas 500 cópias para o nosso pessoal.” A jamm é isso: uma revista feita por um grupo de amigos que pode ir crescendo ou migrando consoante as colaborações que surjam, seja por convites pessoais ou por candidatura espontânea. A ideia é, acima de tudo, aprenderam em conjunto e com as mãos na massa, sem medo do erro ou do risco. Porque, sim, estão na idade para isso. “Não temos nada a perder; estamos numa idade, 23/24 anos, em que ainda podemos justificar alguns erros com a nossa idade.”

“A jamm somos nós, este grupo de pessoas que se reuniu e tentou partilhar a sua perspectiva sobre música numa revista”, ressalva Fábio. A jamm pretende também ser um espaço aberto onde qualquer pessoa pode partilhar a sua arte, seja uma crónica, uma reportagem, fotografias, ilustrações. “Podemos dar a pessoal que queria partilhar o seu trabalho mas se calhar não sabia como um espaço para o fazer. ‘Toma, tens aqui um espaço, faz alguma coisa relacionada com música’.”

A equipa fixa tem cinco pessoas – além do Fábio, do António e do João, que pudemos conhecer no espaço que têm ali na zona entre Picoas e Marquês de Pombal, integram o projecto a Joana Martins, a Inês Machado e o Rúben Fajardo. Reuniram malta de quem já eram amigos e pessoal que conheceram online. “Descobrimos o João num passeio nosso pelo Behance, por exemplo. Precisávamos de alguém que soubéssemos que conseguisse colocar na revista tudo o que tínhamos imaginado. Arranjámos o contacto dele, mandámos uma mensagem e para aí uma semana depois já estávamos a reunir com ele, deve ter sido estranho para ele.”

“Não os conhecia de lado nenhum, só o Conguito de vista. Mas achei brutal o brief de ser uma revista, já tinha feito algumas mas do início ao fim só tinha participado numa”, refere João. “E isto da parte da revista é algo que me chama, ainda por cima aliada à música.” “Mas arrasou. Arrasaste bué, John. Estava a ler a primeira prova e fiquei… uau!…”, elogia Fábio.

Dois anos de aprendizagem

A jamm foi uma jam demorada, mas a verdade é que a pressa muitas vezes somos nós que a imaginámos. “Quando estávamos sentidos há dois anos, em 2017, pensámos que em dois meses conseguíamos ter isto pronto”, diz Fábio. António completa: “É só escrever textos, meter aqui, super rápido. E depois começámos a perceber que não.” “Encontrar a linguagem da revista também foi complicado”, puxa João. Aprenderam desde o que é papel couchê a que três páginas de texto no Word é difícil de paginar numa revista de 80 páginas, mas tiveram também de rever textos escritos há dois anos e perceber o que ainda é actual e o que pode ser ‘guardado na gaveta’ para o futuro. “Já passámos por duas temporadas de festivais durante a criação desta revista e no ano passado tínhamos um artigo muito fixe, pelo menos para mim, sobre quanto dinheiro gastas num festival mesmo a sério. Mas não fazia sentido imprimi-lo agora. Se calhar daqui a algumas edições, lá para o Verão, já faz”, diz Fábio.

Porque a jamm já teve para sair algumas vezes desde 2017, outros artigos tiveram de fazer algumas pequenas edições para os tornar mais actuais para a impressão agora em Abril (e, mesmo assim, que já escorregou em datas desde meados de Março). “Lembro-me de termos entrevistado um dos primeiros produtores a gravar para Boiler Room, o Thris Tian, num DJ set que ele fez há uns… dois anos?… no Musicbox, e continua valido. O que ele disse é super actual. Também é um artigo que acaba por ir muito mais para a influência do Brexit na indústria musical.”

“Sim, uma das coisas que agora, em 2019, chegámos à conclusão é que conseguimos reaproveitar artigos com um ano, dois anos, o que for. Foi um teste de intemporalidade que acabámos indirectamente por fazer.” A jamm não é para ser lida numa semana ou num mês; o Fábio e António, enquanto produtores da revista, querem que os conteúdos que imprimem possam ter interesse mesmo que passado um ano, funcionando, inclusive, como registo escrito de como aconteceu algo e de como essa situação está passado um mês, um ano… uma época, quem sabe.

Finalmente pronto

Foi angustiante a fase final de concretização da revista, em que parecia que faltava sempre qualquer coisa. Mas, como diz Fábio, “a cada dia que passava fomos aprendendo mais alguma coisa. Isso acaba por ser super giro, um processo muito enriquecedor que nos não teríamos se não tivéssemos a fazer esta revista”. Agora que tudo está feito – falta só a parte das vendas –, Fábio diz sentir-se aquele pai orgulhoso depois do nascimento do filho. “É muita fixe olhar e ver aqui um pedaço do António, do João, da Joana… Reconheço o talento a todos eles e agora ver todo esse talento aqui nesta revista é maravilhoso.”

Fábio vê a revista em papel também como algo que poderá mostrar aos seus filhos, algo que, segundo ele, é mais resistente ao tempo que os vídeos que fez como Conguito ou as fotos que publicou como ‘influenciador’ no Instagram. “Se isto tudo acabar amanhã e mais tarde os meus filhos me perguntarem o que fiz quando era mais novo, podia dizer-lhes que fiz uns vídeos para o YouTube, uns tweets e uns posts no Instagram, mas ‘agora que como tudo isso acabou não tenho nada para vos mostrar’. Agora sim, tendo a revista, posso mostrar-lhes e contar a história de quando juntei uns amigos e fizemos uma revista de música aos 23/24 anos.”

Por outro lado, “acho que o papel ainda é bom. Para tocar, sentir, cheirar. Para poder mostrar a um amigo. É melhor que mostrarmos o nosso ecrã ou enviarmos por e-mail”. A motivação para fazer a jamm em papel surgiu também deste sentimento, numa altura em que o digital parece estar cada vez mais cheio de projectos. As 500 cópias que vão fazer neste número de estreia da jamm – número que não sabem se vão aumentar no futuro – podem fazer dar à revista um ‘quê’ de coleccionador, até porque os artigos têm aquela ‘vibe’ de se manterem relevantes apesar da passagem do tempo. Mais ainda, conversas como ‘empresto-te a minha, está aqui, mas devolve-me e não a rasgues por favor porque há poucas’ podem ocorrer por causa de ser em papel e de só existirem 500; serão giras de ver, principalmente porque, no digital, a cópia e distribuição são infinitas.

E a próxima?

A jamm é bimestral, mas dado o longo curso que demorou esta primeira edição a ser feita quando sairá a próxima? “Pá, no máximo um mês e meio para que daqui a dois meses já estejamos com a outra no forno e nesta situação stressante de pré-lançamento”, avança Fábio. “Os últimos stresses foi com a gráfica, as artes finais, arranjar a gráfica certa. Estivemos a fazer o controlo de qualidade, tudo ‘tim-tim-por-tim-tim’, verificar se estava tudo bem. Estão os nomes todos nos agradecimentos? Falta uma vírgula? Não estou a perceber este ‘L’… Eu tripei com tudo!”

A segunda edição da jamm deverá sair em Junho. “O que não sabíamos nesta edição vamos conseguir aplicar logo na próxima”, observa Fábio. “Na próxima já vai existir uma expectativa, o pessoal vai estar à espera com base no que fizemos nesta, mas acho que isso vai jogar a nosso favor e dar-nos pica.” Ainda não começaram a trabalhar na continuação, mas António está confiante: “Será muito mais fácil e vamos cumprir todos os prazos.”