A minha doce vida pública

O que acontece a um pensamento que não se fala, não se escreve, não se partilha?

Não vos vou falar deste livro que ando a ler. Nem do álbum (excelente, por sinal) que escutei no metro, algures no encontro entre o murmúrio suspirado do povo trabalhador e a ansiedade patológica da modernidade. Não vos exibirei as fotografias (excelentes, por sinal) que fui tirar junto ao Douro no fim de semana, esse rio de fúrias que, numa raiva contida, vem lá dos mistérios espanhóis até à nossa beira, e depois para o mar imenso.

Morrerá o rio, ao confundir-se? Ou acrescentará ao seu fluxo contínuo a virtude de outras águas?

Não vos falarei. Nem do livro, nem do disco, nem das fotografias, nem do rio. Deixarei essas observações arquivadas no sítio interior, onde as memórias processam a sua síntese lenta, onde o café escorre lento pelo filtro de papel, longe das cápsulas modernas e da pressão, longe da minha doce vida pública.

O que acontece a um pensamento que não se fala, não se escreve, não se partilha? Parafraseando o poema de Langston Hughes, “o que acontece com um sonho adiado?”, poderia perguntar-se: o que acontece com um pensamento não partilhado?

Algum valor haverá, por certo, na contenção dos pensamentos. Como um vinho que se deixe a maturar por mais ou menos tempo, à espera que produza o aroma desejado. Ou um prematuro que chegue cedo demais ao nosso mundo, muito antes de estar preparado para as forças agrestes da civilização. Em ambos os casos, as condições requeridas são sempre de uma delicadeza impressionante, e um pequeno erro ou impulso pode ser o suficiente para deitar fora a oportunidade.

O que tem acontecido nesta nossa sociedade do espectáculo é que se pretende o vinho maduro sem lhe permitir o tempo que precisaria para maturar. Exige-se ao recém-nascido que se levante e caminhe. E a sociedade é toda um coro de aplausos quando o prematuro ensaia qualquer coisa que se assemelhe a um pequeno passo (que surge retratado como um passo de gigante nas lentes amplificadoras das redes sociais). Mas logo adiante o pequenito tropeça, cai, magoa-se, de forma que me parece legítimo perguntar se não teria sido melhor deixar quieta a criança, no doce embalo do seu desenvolvimento suave.

Exigir às vantagens evidentes da publicitação do pensamento os seus justos dividendos éticos parece um requisito para o balanço entre a doce vida pública e a (tantas vezes) amarga, débil, contraditória vida interior.

Texto de Pedro Ramos