Peterson vs Žižek: ninguém saiu a ganhar do combate do ano

A profundidade da defesa acérrima de pontos de vista diferentes foi trocada por um Peterson simplista, focado no Manifesto Comunista, e por um Žižek decidido a re-enquadrar a critica deste. A maior lição a tirar de todo este espectáculo é que a polarização dos pontos de vista é uma boa estratégia de marketing, mas não o melhor método de debate.

O debate decorreu na madrugada entre sexta-feira e sábado, horário de Lisboa, com transmissão em directo para todo o mundo. Pela internet estavam milhares de pessoas a ver, repartidos por streams furtados ao stream pago e original; e, pela transmissão, percebia-se que a sala estava cheia e o público estava animado. Anunciava-se como o debate intelectual do ano, que oporia o capitalista Jordan Peterson ao marxista Slavoj Žižek, mas rapidamente se percebeu que mereceria este título mais pelo contexto do que pela promessa. Isto é, que o seria por representar de um modo quase icónico os tempos, mais do que por ser o melhor deles.

O primeiro a ser apresentado foi o terceiro elemento do painel. Stephen Blackwood, do Ralston College, foi o escolhido para moderar o debate e por isso couberam-lhe as primeiras palavras. Assim que começaram as apresentações, começaram a surgir os sinais que fazem deste debate um espectáculo tão representativo: aos nomes dos pensadores, dos cursos que frequentaram ou das escolas e disciplinas que leccionam actualmente, seguiam-se aplausos como se assistíssemos à apresentação de um 11 de uma equipa de futebol. Peterson mostrava-se à vontade com a encenação; Žižek, mais desconfortável, chegou a levar a mão à cara num discreto facepalm, seguido por um aplauso pujado de ironia.

O formato do debate pretendia dar tempo aos pontos de ambos e, assim, cada um tinha direito a uma primeira intervenção expositiva, de 30 minutos, seguida de intervenções intercaladas de 10 já num modo mais interactivo. Em debate, estava a problemática da Felicidade, que cada um dos pensadores era convidado a enquadrar segundo a sua tese ou, em antítese, a relacionar de modo crítico com a tese do seu oponente.

Começou Peterson

Jordan Peterson, o promotor do debate, foi o primeiro dos oradores a assumir a palavra. Antes de passar à exposição do seu ponto, começou por tecer algumas considerações sobre o evento e a sua vida em geral. Peterson assumiu em palco estar a passar por um dos momentos mais relevantes da sua carreira e congratulou-se por os bilhetes para o debate estarem a ser vendidos a um preço superior aos dos jogos para os play-offs dos Maple Leafs em hóquei no gelo nas semanas que o antecederam. Posto isto, estava tudo preparado para o arranque à séria.

O pensador começou claramente na defensiva e num estilo que denotava alguma falta de segurança. Primeiro, elogiou indirectamente Žižek, dizendo que o seu adversário tem tanta obra publicada que teria sido impossível ler tudo para preparar o debate; depois, explicou como iria guiar a sua intervenção na falta de uma crítica sólida ao seu interlocutor. Para o efeito, o professor canadiano escolhera analisar criticamente o Manifesto Comunista, assumindo-o como obra de referência do marxismo e apelidando-o explicitamente da “origem dos problemas”. Partiu daí para uma análise por pontos.

Apesar da assunção de uma certa falta de preparação para com Žižek, Peterson não mostrou a mesma condescendência para com Marx e Engels. Iniciou a prelecção por afirmar que nunca tinha lido nada com tantos erros conceptuais e que os seus autores se esqueceram de contemplar que geralmente a maioria das ideias, seja de quem for, estão erradas. Seguiu-se uma revisão crítica em que Peterson foi enumerando aquilo a que chamou de “crazy points” do manifesto, estabelecendo o seu contra-ponto. Nesta tentativa de mostrar o simplismo do marxismo, acabou por se trair a si próprio, assumindo abstracções teóricas a partir de um panfleto político e reduzindo quase ao absurdo ideias que Marx desenvolvera melhor noutras das suas obras.

Por exemplo, num dos pontos apresentados, Peterson condena o marxismo por ser uma utopia igualitária, algo que mais à frente no debate Žižek expôs como inteiramente falso – o marxismo não é uma doutrina igualitária, aliás, a igualdade é considerada por Marx uma categoria da burguesia.

Os outros pontos sugeridos por Peterson deambularam entre o óbvio, o consensual e uma interpretação dos factos à luz dos tempos que correm, o que denota alguma confusão. Noutro exemplo, Peterson diz que Marx não conceptualiza valor aos gestores, assumindo que estes seriam para Marx os “capitalistas burgueses”; se é uma interpretação possível, não é necessariamente ajustada; o capitalista seria, neste caso, não o gestor mas sim o proprietário algo com uma diferença substancial.

Jordan Peterson parecia estar numa espécie de TED Talk, com tudo o que dá direito. O discurso estruturado com alguma interactividade, as ideias claras e algumas piadas para manter o engagement. Ainda na conversa sobre as hierarquias, Peterson disse que “não se sobe a uma posição de autoridade, de que dependa a sociedade, simplesmente por explorar outras pessoas”, a plateia reagiu com alguns risos e o orador foi peremptório: “quem se ri é porque deve fazê-lo”. Mais tarde, numa nota final sobre Marx e Engels, o canadiano disse que eles não pensaram como verdadeiros cientistas sociais enquanto que, num gesto inconsciente mas muito significativo, aponta com as suas mãos na direcção do seu peito.

O estilo e carisma é um dos principais motivos pelo grande sucesso de Peterson perante o público mais jovem: a verdade é que este sabe-se exprimir e vender as suas ideias, através de técnicas de persuasão que domina e faz proveito. 

O lado de Žižek

A postura de Žižek foi diferente: passou os 30 minutos sentados e a ler dum papel. Se quisermos dar continuidade à analogia do combate, foi evidente que não praticaram o mesmo estilo de luta. Trazia o discurso todo escrito numas cinco ou seis folhas A4, que foi lendo com o seu estilo caótico habitual. Faça-se desde já a nota para o facto de só ter dito duas ou três vezes “and so on and so forth”, abaixo da média que lhe reconhecemos.

Começou a sua intervenção por criticar os seus pares e sublinhar o facto de tanto ele, como Peterson serem intelectuais marginalizados pela academia. Era ali apresentado como o defensor da esquerda moderna, quando, na verdade, quem mais o crítica é a própria esquerda. Rapidamente se voltou para o tema e, pegando nas três palavras “Felicidade”, “Capitalismo” e “Comunismo”, apresentou o exemplo chinês, para si paradigmático e neste contexto paradoxal. A China tem um estado autoritário, capitalismo de ponta e a felicidade como horizonte deste argumento político — a noção de sociedade harmoniosa de Confúcio é mais relevante que o marxismo. Foi a partir deste exemplo que Žižek partiu para um dos pontos introdutórios, mais marcantes do seu discurso: para si, a perseguição da felicidade como objectivo de vida é uma noção perigosa porque “nós humanos somos óptimos a sabotar a nossa perseguição da felicidade. No nosso dia-a-dia fingimos desejar coisas que não desejamos”.

Expondo sucintamente a relação imediata que viu em cada um dos conceitos do anúncio do debate, Žižek continuou o seu discurso na toada paradoxal e hipotética, à boa moda do debate filosófico, denunciado que esta conjectura extremamente polarizada entre capitalismo e marxismo pode não passar de uma paranóia reducionista da realidade. Explicou-o logo a seguir utilizando o exemplo de Lacan sobre o marido ciumento e o exemplo dos nazis. Mesmo se tudo o que os nazis diziam sobre os judeus fossem verdade, a sua causa não deixaria de ser ilegítima porque os judeus eram só o bode-expiatório na narrativa política criada pelos primeiros sobre a sociedade perfeita — ao atribuir o “mal” aos judeus como se fossem causa de tudo o que corre mal.

A meio do discurso de Žižek já se percebia que não iria passar mais meia hora a criticar um documentos com 170 anos como fez Peterson. Em vez disso, o esloveno abordou uma série de problemas reais, utilizando exemplos contemporâneos para os ilustrar. Ainda sobre a paranóia, indagou retoricamente se Trump representa os valores tradicionais ou se não é uma mera personagem pós-moderno, contrapondo com Bernie Sanders, para si um verdadeiro old fashioned moralist. É preciso considerar que na sua obra Žižek tem uma abordagem muitas vezes crítica do marxismo, mas que isso pode ter mais audácia e substância do que uma leitura do panfleto comunista.

Žižek prosseguiu a sua crítica apostado em denunciar a tal paranóia. Na sua leitura os pensadores conservadores atribuem a crise à perda de dependência de uma entidade superior transcendente, que tanto pode ser Deus como “os valores tradicionais”, o que para si os coloca numa posição análoga aos Godless Stalinists; isto é, como alguém que utiliza uma figura abstracta, superior, para legitimar as suas acções – de um modo ideológico.

Para Žižek, todas as ideologias são fundamentalmente mentira, a única verdade é a prática humana do dia-a-dia, e a maioria das catalogações são uma espécie de projecção como o famoso marxismo cultural. Žižek utilizou um dos mantras de Hegel para criticar o termo da moda, “evil resides in the very gaze which perceives Evil all around itself”. Para si, exemplos como este não passam de uma forma de projectar falhas no adversário político que acabam por distorcer a imagem que se tem da realidade e dos agentes. Para si, o plano de Bernie Sanders é parecido com o que há décadas seria apelidado de social democrata na Europa, sendo actualmente visto nos Estados Unidos como um verdadeiro atentado pelos neoconservadores.

As interacções de 10 minutos

Em síntese, foram esses os pontos dos 30 minutos iniciais de cada orador. A partir daqui, o debate passou para a sua fase menos estruturada e de quase conversa. No seu tempo de resposta, Peterson assumiu que a resposta de Žižek foi demasiado complexa para o que esperava e que, surpreendentemente, concorda com a maioria do que foi dito. Continuando no mesmo raciocínio, referiu que esperava que Žižek fizesse uma defesa do marxismo clássico, o que na sua visão é representado pelo Manifesto Comunista, não contemplando portanto os anos de evolução da corrente de pensamento.

Neste ponto do debate, o combate tornou-se verdadeiramente amigável; as opiniões continuavam discordantes, aqui e ali, mas pareceu que tanto um como o outro a certo concordaram em desacordar em abono de um diálogo mais construtivo. Žižek, também ele um crítico do Manifesto Comunista, ia refutando as simplificações sistemáticas que Peterson ia fazendo do marxismo, enquanto este ia procurando novos ângulos para escamotear a relação entre Žižek e o marxismo.

Jordan Peterson chegou mesmo a perguntar a Žižek porque não chama ao seu pensamento zizekismo. Em resposta, Žižek falou-lhe do seu pessimismo esloveno em contraste com o optimismo de Marx, mas foi mais longe: pediu a Peterson para nomear um dos críticos marxistas que seja realmente marxista, visto que para si existe uma hipermoralização do discurso que não deriva necessariamente das ideias de Karl Marx.

Num debate vivido por muitos como uma espécie de luta entre o bem e o mal – notório pelas reacções da audiência e os comentários que se faziam online nos diferentes momentos dos discursos –, as conclusões não foram propriamente inovadoras. A profundidade da defesa acérrima de pontos de vista diferentes foi trocada por um Peterson simplista, focado no Manifesto Comunista, e por um Žižek decidido a re-enquadrar a critica deste. A maior lição a tirar de todo este espectáculo é que a polarização dos pontos de vista é uma boa estratégia de marketing, mas não o melhor método de debate. Os dois acabaram por concordar mais do que propriamente pensariam e esses foram os momentos mais construtivos — em que uma e outra facção puderam baixar a guarda e acrescentar um ponto de vista às suas convicções.

Se tivesse que haver um vencedor, até Jordan Peterson provavelmente concordaria em dar o prémio a Slavoj Žižek; enquanto desafiador e organizador, o canadiano acabou por ser a maior desilusão da noite. Como se escreve no The Guardian, Jordan Peterson pareceu um professor sem uma aula preparada, que acabou por se refugiar no plano mais simples… simples demais.