quartoquarto levam-nos numa fuga à sociedade

Interessa mais a verdade ou o significado? E o que significa uma experiência como esta para quem a vive por de trás das câmaras?

 

Fugir da sociedade mantendo o espírito de comunidade nos dias que correm é praticamente impossível; por mais longe que nos afastemos do centro nevrálgico das grandes cidades, a urbanidade persegue-nos no ritmo frenético a que os nossos cérebros continuam a funcionar, habituados a ter de pensar e interpretar rapidamente cada estímulo da selva de betão. Neste contexto, agitado mas monótono, qualquer convite para nos afastarmos a esta norma é um desafio que não podemos simplesmente menosprezar. Há que aproveitar todos os pretextos para nos subtrairmos ao normal que nos arrasta até à futilidade.

“Mal para Pior” e “Vazio” são as faixas que compõem o mais recente videoclipe dos quartoquarto; um vídeo que é o retrato perfeito de um desses momentos de fuga. Vidigwan foi o mestre que liderou o culto e lhe indicou o norte fora da malha social e o vermelho a cor que uniu todos os que se quiseram separar do mundo real. O cenário que se compunha nos dias antes da grande reunião fazia despertar o interesse naquele acontecimento e, como tal, o Shifter quis acompanhar de perto – talvez até demais – os rituais desta seita. O encontro foi num lugar indecifrável, perdido no meio da belíssima serra da Arrábida e o que era para ser uma mais simples reportagem levou este que vos escreve a experimentar sensações únicas como o clip tão bem retrata. O que era um repórter tornou-se mais um membro do culto.

Na verdade, nem Vidigwan é um líder espiritual, nem os quartoquarto um culto, nem o repórter um convertido. Tudo não passou de uma encenação como todos sabemos embora, por respeito à ficção, ignoremos até aqui. Interessa mais a verdade ou o significado? E o que significa uma experiência como esta para quem a vive por de trás das câmaras? A fuga à nossa rotina habitual começou logo bem cedo; o relógio ainda não marcava 6h30 quando o despertador começou a tocar, à espera já estavam alguns dos elementos com quem partiríamos para a aventura – entenda-se, de gravação de um videoclipe. Chegados ao local, ainda meio ensonados, e perante a quantidade de roupa vermelha concentrada nas colinas da serra, a verdade sobre o acontecimento começava a ganhar novos significados. João Vidigueira, o vocalista do grupo, foi o primeiro a assumir o seu papel para além da realidade normativa. De robe vermelho, de chinelos discretos e com o seu ar pensativo deixava quem assistia a duvidar se aquela ideia de criar um culto não teria pernas para andar.

Com o avançar do tempo e a chegada de novos membros ao cast culto, o sentimento de fazer parte de algo diferente, uma espécie de comunhão, começava a fazer-se sentir com mais intensidade. O momento da conversão foi a última etapa da imersão. Depois de batpizado pelo Vidigwan e vestido a rigor, foi o momento do ritual – uma experiência física inspirada no culto de Bhagwan Shree Rajneesh. Entre respiração descontrolada, libertação motora e repouso no meio das ervas, de olhos fechados e ao comando do João Vidigueira tornou-se lentamente impossível distinguir se o momento era real ou pura ficção. Se é certo que nenhum de nós passou a devoto do Osho, a experiência física do ritual e comunitária do objectivo comum acabaram por sintonizar todo o grupo na mesma frequência mental – longe da civilização, longe da civilidade.

A produção do vídeo ficou a cargo do colectivo Arrábida Saudita para quem as “bandas não são nada mais que cultos. Um grupo de pessoas com ideias com que nos identificamos, seguimos e adoramos. Culto este que tende a diminuir ao longo do tempo de vida dos projectos. O culto dos quartoquarto está no pico. No intervalo entre primeiro e segundo disco, estão a descobrir-se na sua totalidade, ainda sem qualquer pressão externa. São os quartoquarto mais quartoquarto até agora”.

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