Desobediência pelo planeta: das ruas de Londres até ao directo da CMTV

Esta é a Semana Internacional da Rebelião. Em Londres, milhares de activistas foram para a rua. Em Portugal, o movimento chegou mais brando. Ainda assim, activistas protestaram à frente da Nestlé, interromperam o Ministro do Ambiente, invadiram a CMTV e adulteraram um cartaz de propaganda do PS.

Esta semana, em Londres, milhares de pessoas têm saído às ruas para gritar em alto e bom som pelo futuro do planeta e contra as alterações climáticas galopantes. Enquadram-se no movimento Extinction Rebellion (XR), que ainda que gere já muita adesão é uma novidade no calendário activista. A primeira demonstração do movimento foi no final do ano passado. A 31 de Outubro de 2018, um grupo combinou encontrar-se na Praça do Parlamento, em Londres, e anunciar a Declaração da Rebelião contra o Governo do Reino Unido. A ideia começou entre um pequeno grupo, mas já nesse momento se notou a adesão com mais de 1500 pessoas a juntarem-se.

Durante o primeiro momento foram vários os actos marcantes de desobediência civil levados a cabo pelo grupo que reforça sempre a nota de ser contra a violência. Plantaram árvores no meio da praça, abriram buracos e enterraram urnas em representação do futuro, e até se colaram ao portão do Palácio de Buckingham enquanto liam uma carta à Rainha. Estas acções valeram-lhes atenção nacional e internacional, e várias peças nos media que tornaram o XR um movimento global e com ressonância em diversos países do mundo.

E ainda não tinha chegado a sua grande demonstração, marcada para 15 de Abril, segunda-feira, marcou o início da Semana Internacional da Rebelião, o evento que se sucedeu à primeira demonstração e que, fruto da viralização do tema desta feita, decorreu 80 cidades de 33 países. A iniciativa é do movimento Extinction Rebellion, mas as acções em cada país ficam ao cargo de activistas locais ainda que devam seguir o espírito original do evento. Sugere-se a desobediência civil não violenta de forma a exigir que os Governos digam a verdade sobre o aquecimento global, reduzam drasticamente as suas emissões de gases poluentes e o façam de um modo participativo.

Em Londres, milhares de activistas foram para a rua, bloqueando alguns dos acessos mais movimentados da cidade e mostrando os habituais cartazes com palavras de ordem, mas não é só sob a forma de manifs que se organizam demonstrações. Na mesma cidade, um grupo de activistas invadiu a sede da Shell. Em resultado, sucederam-se notícias sobre a prisão de manifestantes, ilustrativas de que a desobediência está a ser levada a sério. O The Guardian reporta, por exemplo, bloqueios da ponte Waterloo, de linhas férreas e até um grupo que se terá acorrentado à porta da casa do líder dos trabalhistas britânicos, Jeremy Corbyn.

Apesar de ser o epicentro mediático, Londres não é o único palco das demonstrações; no total são mais de 350 os pontos assinalados no mapa criado. Por exemplo, em Paris, um grupo de activistas resolveu bloquear a entrada do Ministério da Agricultura e, em Haia, foram até ao centro empresarial mostrar grandes faixas com palavras de ordem.

Fotografia dos protestos em França © Mazeranf XR France / CC 3.0 BY SA

Em Portugal, apesar de pouco se ouvir falar nos media, a rebelião também chegou. Pelas mãos da Climáximo, um dos grupos de activistas pelo clima mais interventivos no nosso país foram desencadeadas, foi criada a variação nacional do movimento, Rebeldes Pela Vida. É a partir dessa plataforma que têm sido engendrados e postos em prática uma série de actos de desobediência que procuram trazer o tema também para o nosso país.

O primeiro acto, que o grupo refere como tendo sido um dos primeiros de todo o movimento internacional, deu-se logo na manhã do dia 15 com um grupo de activistas a formar uma rede de plásticos à porta da fábrica da Nestlé, uma das empresas que mais resíduos de plástico produz.

O segundo acto decorreu logo no mesmo dia e foi, desta feita, dirigido ao sector da exploração energética. O grupo levou a rebelião até às portas do European Climate Summit, uma cimeira sobre o clima organizada pela Associação Internacional de Comércio de Emissões (IETA) e com a presença de empresas como BP, BNP Paribas, Iberdrola, Naturgy, Petrochina, Repsol, Shell, Total, TransCanada e Vattenfall, e figuras como o o Ministro do Ambiente e da Transição Energética. Foi durante o discurso deste último que os activistas decidiram intervir, interrompendo a sua prelecção com gritos sobre a causa, enquanto outros, à porta, se manifestavam deitados e cobertos de vermelho representando o sangue de gerações futuras.

O terceiro acto foi talvez o mais viral com activistas do grupo a interromper em directo uma emissão do programa da manhã da CMTV, apresentado por Maya e Nuno Eiró, que ficaram visivelmente surpreendidos. Com tarjas e mensagens escritas em letras garrafais, o grupo irrompeu pelo estúdio a dentro e leu um manifesto sobre a cumplicidade da imprensa na inércia dos decisores no importante tema do clima.

“A imprensa sensacionalista, que vive das emoções fortes e que promove permanentemente desespero e ódio, apregoando grandes crimes e injustiças, esconde o maior crime que alguma existiu e a maior injustiça da História, roubando hoje às populações mais pobres do mundo segurança para a própria existência e roubando já a todas as gerações mais pobres um futuro de estabilidade climática, que garantiu desde há 12 mil anos as bases materiais para a existência de civilização”, refere a nota que a Climáximo tentou ler em directo. “Sabemos que há vários motivos para o silêncio na imprensa: falta de independência jornalística, grupos económicos que controlam as linhas editoriais, falta de pessoal, falta de tempo, falta de meios, precariedade laboral, mas apelamos a todas as pessoas que trabalham na imprensa que ajudem a divulgar claramente a maior ameaça que alguma vez pairou sobre nós.”

Entretanto o grupo continua a levar a cabo acções directas, localizadas e com mensagens muito bem definidas. No quarto acto, o grupo invadiu a H&M do Chiado numa acção contra a Fast Fashion. Diz a Climáximo: “A Fast Fashion é um modelo de negócio que consiste na produção, consumo e descarte de roupa rápidos, ou seja, roupa de pouca qualidade produzida e comprada a baixo preço que é rapidamente descartada para o lixo pelo consumidor, o qual logo de seguida compra uma nova peça, repetindo este ciclo de consumo continuamente ao longo sua vida.”

No quinto acto, adulteraram um cartaz de propaganda do Partido Socialista às eleições europeias, apontando críticas à indústria da aviação e à intenção demonstrada por Pedro Marques, ainda em quanto ministro, de aumentar o tráfego aéreo no nosso país. “O aumento do tráfego aéreo é um dos grandes responsáveis pelo aumento de emissões. As emissões dos aviões têm o dobro do poder de efeito de estufa. Não há meio de transporte tão poluente. Um voo é responsável por 30 vezes mais emissões do que a mesma viagem em comboio de alta velocidade.”

No sexto acto, foram até à porta do Ministério da Agricultura, protestar contra os acordos entre Portugal e China: “Nesta manhã, activistas simularam o Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural de Portugal, Luís Capoulas Santos a receber do Ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, um cheque com aquilo que o nosso país terá que pagar com os seus recursos naturais, impactos ambientais e sociais para a produção de animais para consumo humano.”

E no sétimo, o último conhecido até ao momento, 22 activistas da Climáximo invadiram a sede da EDP “(…) em busca do verdadeiro Ministro da Energia, António Mexia, para exigir que encerrem as centrais a carvão de Sines e de Aboño e que treinem os trabalhadores para a transição para uma economia só com energias renováveis”.

Apesar de as acções terem chegado a Portugal, facto é que não se sentiu uma verdadeira adesão social à iniciativa. O Shifter falou com João Camargo, um dos membros da Climáximo, que justificou esta realidade com os poucos anos do movimento activista pelo clima em Portugal que “ainda há 3 ou 4 anos se resumia a um grupo de 4 ou 5 pessoas, sendo actualmente de cerca de 100” e com a “falta de capacidade de organização e mobilização social, resultado da ultra-atomização da sociedade portuguesa e da falta de formação e conhecimento sobre modos de protesto”.

Questionado sobre o papel da imprensa e as diferenças entre os media portugueses e os media internacionais como o The Guardian que tem feito um acompanhamento de proximidade da manifestação, Camargo diz que “não acredita em coincidências” e que o grupo tem feito várias acções que pura e simplesmente não saem na imprensa. Para João Camargo, “a imprensa tem um papel importante de estabelecer relações entre os fenómenos e as suas causas de modo a dar uma imagem mais próxima da realidade, algo que não tem sido em Portugal; veja-se o caso dos incêndios, fala-se muito sobre o bombeiro, a estrada, mas pouco sobre o aquecimento global ou a criação de furacões no Atlântico”.

Até ao final da semana, dia 21, são esperadas mais acções, que podes acompanhar através da plataforma rebeldespelavida.climaximo.pt.