Uma alternativa livre (e gratuita) para cada app que usas

Partilhamos software livre mas também software desenvolvido por entidades com uma filosofia de tecnologia aberta, acessível e partilhada.

As apps que usamos num computador não são as mesmas que um amigo nosso, por exemplo, utilizará no seu. Primeiro porque as profissões e estilos de vida podem ser diferentes e, assim, exigir software específico – um designer terá aplicações de desenho enquanto que para um jornalista um bom editor de texto será essencial. Depois cada um tem as suas preferências – eu posso gostar mais de um determinado cliente de e-mail e outras pessoas de outro.

Contudo, a escolha das aplicações que adoptamos pode também ter por base as licenças de utilização destas, isto é, se queremos depender de software proprietário, cujas regras são definidas por uma empresa que geralmente tem fins lucrativos, ou se queremos ser livres e usar software gratuito em que temos permissão para fazer tudo ou quase tudo o que nos apeteça – como por exemplo partilhar o software com um amigo sem estarmos a cometer pirataria.

Software proprietário é o Word, o PowerPoint, a suite da Adobe, o Final Cut Pro ou mesmo o Google Chrome. Software que pode ser gratuito ou pago e, neste caso, o custo pode ser uma subscrição, mas que não se define apenas por isso. A questão tem a ver com que detém o poder. Neste caso são as empresas de software quem decide as funcionalidades existentes e os limites de utilização, procurando dessa forma fidelizar utilizadores e salvaguardar os negócios — impedindo por exemplo a partilha do programa ou a sua modificação.

Se o preço não é o mais relevante do ponto de vista tecnológico, é para os consumidores. Caso queiramos usar o Word ou o Photoshop, por exemplo, a sua subscrição pode tornar-se um fardo mensal para quem é freelancer ou uma pequena empresa – que muitas vezes acaba por recorrer a cracks para obter acesso gratuito (embora ilegal) ao software.

O software livre distingue-se do proprietário por não ser propriedade de uma entidade central; é das pessoas, ou seja, é desenvolvido por quem quiser ‘contribuir para a causa’ e o código está disponível de forma aberta, ao acesso de todos. O software livre pode, todavia, ser desenvolvido por uma empresa ou por um grupo de pessoas, que podem encontrar em donativos, na prestação de assistência paga ou na disponibilização de “funcionalidades Pro” modelos de remuneração. Pode também acontecer o software livre seja desenvolvido por uma tecnológica lucrativa para uso interno; ou seja, acaba por ser, no fundo, uma ferramenta que essa empresa criou por necessidade e que decidiu disponibilizar à comunidade.

Uma boa notícia é que não precisas de mudar para Linux para usar software livre. Podes fazê-lo no teu macOS ou Windows, mesmo que estes sejam sistemas operativos… (yup, adivinhaste) proprietários. Assim, quer procures um substituto gratuito para o Illustrator e Photoshop, ou uma boa nova app de e-mail, espreita a lista seguinte que deverás encontrar uma alternativa livre para algumas das apps que usas actualmente.

A melhor parte é que fazer o download é só o começo da experiência. Em torno destes programas geralmente orbitam comunidades efervescentes capazes de te ajudar e programadores empenhados à espera de saber qual será a next big feature a integrar na aplicação. Um bom exemplo é o Akira, um programa ainda em fase de desenvolvimento cujo nascimento podes acompanhar e apoiar através do Patreon.

Um ponto importante é que há alternativas completamente “FOSS” (Free and Open Source Software) e outras que… para lá caminham, sendo gratuitas mas com algumas restrições de licenciamento. Nem sempre é fácil entender se um software é verdadeiramente livre e nesta lista não nos ficámos por esse conceito – partilhamos software livre mas também software desenvolvido por entidades com uma filosofia de tecnologia aberta, acessível e partilhada.

Thunderbird / Mailspring (e-mail)

Digo-vos, por experiência: achar um bom cliente de e-mail não é fácil. Já estive no Apple Mail, a aplicação nativa do macOS, fui para o Thunderbird, AirMail e agora Spark. Nesta jornada, só o Thunderbird é software livre e pode ser uma solução para muitos utilizadores. Tal como outra alternativa livre, o Mailspring que tem todas as funcionalidades que esperamos que um cliente de e-mail tenha: suporte para múltiplas contas, pesquisa rápida, pastas e etiquetas, assinaturas, etc.

O Mailspring poderá agradar a quem procure uma interface mais bonita e arrumada; e disponibiliza diferentes temas para que possamos colocar a aplicação ao nosso gosto. Enquanto que o Thunderbird é inteiramente gratuito, o Mailspring tem uma opção paga que dá acesso a algumas funcionalidades extras. O Thunderbird é da Mozilla, tal como o Firefox (de que te falaremos mais à frente); já o Mailspring é uma versão rescrita do Nylas Mail, “o melhor cliente de e-mail para trabalho”. Ambos estão disponíveis para macOS, Windows e Linux.

LibreOffice / OpenOffice (produtividade)

O Office é demasiado caro? O LibreOffice e o OpenOffice são duas alternativas livres e gratuitas que suportam os tradicionais formatos Word, PowerPoint e Excel. O LibreOffice nasceu do OpenOffice, que, por sua vez, nasceu de um projecto anterior chamado StarOffice. Desenvolvidos pelas suas comunidades, o LibreOffice e o OpenOffice incluem apps para edição de texto, slides de apresentação, folhas de cálculo, desenho de diagramas, criação de base de dados e cálculo de fórmulas matemáticas. Estão disponíveis para macOS, Windows e Linux. O LibreOffice é gerido pela The Document Foundation, que recorre a donativos para garantir a sua sustentabilidade.

Darktable / Raw Therapee (fotografia)

O Lightroom, da Adobe, pode ser considerado por muitos fotógrafos uma ferramenta essencial e insubstituível; mas alternativas livres e gratuitas existem – o Darktable e o Raw Therapee são duas delas. Tanto um como o outro centram a sua funcionalidade na edição fotográfica, mais concretamente de ficheiros RAW. O Darktable e o Raw Therapee são como que duas câmaras escuras onde fotógrafos podem revelar as suas imagens; ao serem desenvolvidas por programadores que também são fotógrafos podem, se calhar melhor que o Lightroom, transparecer melhor as necessidades e desafios destes. Deixamos essa avaliação para os profissionais; quanto a mim, que faço edições muito básicas, parecem-me duas boas ferramentas – claro que se tivermos habituados à interface do Lightroom, teremos de passar por uma curva de aprendizagem até nos familiarizarmos com os botões e atalhos. O Darktable está disponível para macOS, Windows e Linux; o Raw Therapee só para Linux.

Se ao migrares do Lightroom para o Darktable te sentires órfão de um conjunto de estilos pré-definidos basta — cá está — procurar por iniciativas da comunidade que colmatem essa lacuna, o https://dtstyle.net/ é uma delas.

DaVinci Resolve / OpenShot (vídeo)

Chegámos à parte do vídeo com duas opções: o OpenShot — FOSS — é para quem procura uma ferramenta simples para juntar clips, adicionar música e fazer outras pequenas edições; o DaVinci Resolve é uma poderosa alternativa ao Final Cut Pro, da Apple, ou ao Adobe Premiere. Ambos estão disponíveis para macOS, Windows e Linux. O OpenShot começou em 2008 como um projecto do programador Jonathan Thomas que queria criar um editor de vídeo com os básicos. A aplicação permite cortar e juntar clipes de vídeo, adicionar áudio, texto e fotografia aos vídeos, fazer algumas edições avançadas como remover fundos ou ajustar o brilho da imagem, adicionar efeitos de slow motion e renderizar animações 3D simples, como flocos de neve, lens flares ou ”texto a voar”.

Já o DaVinci Resolve é um editor de vídeo bem mais avançado, desenvolvido por uma empresa chamada Blackmagic Design que comercializa o DaVinci Resolve Studio, uma versão mais completa e que custa 300 dólares — o chamado Freemium. Com o DaVinci Resolve consegues fazer os básicos, mas também ‘brincar’ com várias ferramentas avançadas. Tens, por exemplo, edição multi-câmara, uma variedade de títulos e efeitos 2D/3D, a possibilidade de remover elementos da imagem, edição de fundos chroma, estabilização de imagem e tracking de objectos, correcções de cor, edição avançada de áudio, etc.

Blender (animação)

Para 3D, existe o Blender. Este software cobre tudo o que o 3D envolve – modelação, rigging, animação, simulação de fluídos, fumos e partículas, renderização, composição, tracking de movimento, textura de objectos… Pode ser usado para criar vídeos de animação, modelos para impressão 3D ou mesmo videojogos. O Blender é reconhecido na indústria audiovisual, tendo sido criado como ferramenta interna de um estúdio de animação e usado em vários anúncios, séries televisivas, curtas e longas metragens.

A aplicação é livre e desenvolvida por centenas de pessoas pelo mundo fora, incluindo estúdios e artistas profissionais que também usam o Blender e sentem vontade de o melhorar. Além de donativos, o Blender também vive de uma opção paga de cloud para quem procure sincronizar os seus ficheiros entre diferentes dispositivos ou acesso a recursos educativos sobre como usar o Blender. Existe para macOS, Windows e Linux.

GIMP / Krita (design)

Entramos agora no campo das alternativas ao Photoshop e trazemos duas. Disponível para macOS, Windows e Linux, o GIMP é provavelmente a mais conhecida, trata-se de um software que permite manipular digitalmente imagens e desenvolver trabalhos de design. A aplicação oferece as ferramentas habituais e uma série de customizações, e a sua utilidade pode ser expandida com plug-ins de terceiros. Tem bastantes opções embora algumas delas não sejam propriamente intuitivas — por exemplo na criação de um GIF são os layers que funcionam como frames.

Uma alternativa ou complemento ao GIMP é o Krita, um software que alguns podem preferir consoante o tipo de trabalho que pretendem desenvolver e das suas preferências pessoais – por exemplo, permite vários tipos de layers, fazendo lembrar o sistema de smart objects do Photoshop. O Krita tem ganho adeptos especialmente no mundo da ilustração digital embora seja versátil tal como o Gimp.

Inkscape (design vectorial)

O GIMP apresenta-o como um complemento e podemos vê-lo da mesma forma que vemos Photoshop e Illustrator. Se o GIMP serve para trabalhar com bitmap, no Inkscape a base é vectorial. Fazer ilustrações complexas ou desenhos simples, construir diagramas ou gráficos, e desenvolver a identidade visual de uma marca são algumas tarefas para as quais o Inkscape é pensado. O principal formato de exportação do Inkscape é o Scalable Vector Graphics (ou SVG), o standard do vector e não um formato proprietário como o .ai, uma vantagem na compatibilidade dos trabalhos desenvolvidos com esta app face a software como o Illustrator; além disso, o SVG pode ser lido por uma dezena de outras aplicações, ao contrário do .ai, como browsers e visualizadores de imagens.

Tal como o GIMP, o Inkscape é uma potente aplicação que tem de ser bem explorada para que se tire todo o proveito. Uma boa dica se te quiseres iniciar é explora tudo, tenta, cria, liberta-te, percebe a diferença entre as Extensões e os Filtros e não procures replicar o teu processo de trabalho no Illustrator, percebe como trabalhar com este novo software. O Inkscape há para macOS, Windows e Linux.

Neste campeonato do desenho vectorial, mas noutra divisão temos ainda o Akira de que te falámos lá em cima — uma espécie de alternativa ao Sketch, isto é, focado em desenho de interfaces mobile/app.

VLC (reprodutor)

O VLC é amplamente conhecido entre utilizadores macOS e Windows e a melhor opção para utilizadores Linux para reprodução de vídeo. Trata-se de um reprodutor multimédia, dá para ver vídeo mas também ouvir música, e inclusive fazer streaming desses conteúdos – ou assistir a conteúdos via streaming. Há para todas as plataformas, incluindo iOS e Android.

Simplenote (notas)

O Simplenote é desenvolvido pela Automattic, a empresa que é a principal contribuidora para o WordPress, projecto de código aberto e livre. Não é FOSS mas é uma aplicação de notas que também pode ser visto como um editor de texto, por exemplo, para escrever artigos ou publicações para um blogue. Suporta linguagem Markdown como muitos editores semelhantes e, além de ter versões desktop (macOS, Windows e Linux), também pode ser acedido em iOS e Android, e num browser.

Firefox (browser)

Um navegador web é hoje em dia essencial num computador. E o Firefox é a opção que te recomendamos. Desenvolvido pela Mozilla, bebe a filosofia desta no que toca à defesa de uma World Wide Web aberta e neutra; o projecto é de código aberto, o que significa que qualquer pessoa pode olhar para o código e ver o que faz exactamente. A Mozilla tem desenvolvido uma série de serviços em cima do Firefox, que permitem sincronizar os nossos dados (definições, marcadores, etc) entre diferentes dispositivos ou partilhar até 2,5 GB de ficheiros, por exemplo – tudo de forma segura, privada e encriptada.

O Firefox utiliza um engenho próprio, chamado Gecko, o que é um ponto importante dado cada vez mais browsers serem baseados no código open source da Google Chromium (Chrome, Edge, Opera, Brave…). Usar o Firefox é contribuir para que o Gecko continue relevante e para que os programadores de websites e webapps não tenham apenas de ser preocupar com um engenho no desenvolvimento dos seus produtos/serviços. O Firefox existe para macOS, Windows e Linux.

Atom (programação)

Para escrever umas linhas de código, programar uma app ou desenvolver um website, recomendamos o Atom. Trata-se de um editor de código open source, que, por isso, é altamente personalizável; além de poderes instalar um template para tornares a aplicação mais ao teu gosto, podes também descarregar pacotes que adicionam funcionalidades – por exemplo, há um que te permite colaborar em tempo real com um colega nas minhas linhas de código. Também podes desenvolver novas coisas para o Atom e partilhá-las com a comunidade. O Atom está disponível para macOS, Windows e Linux.