Dez Anos de B Fachada no Pónei Dourado

Em 2009, como hoje, B Fachada dizia estar tudo por fazer e há que dar-lhe razão, pois o Portugal pré-FlorCaveira e Amor Fúria tinha muito pouca personalidade musical. Um país musicalmente refém de referências anglo-saxónicas, tanto musicais como culturais. Um país sem identidade, sem som há vários anos.

A partir de agora é capaz de ser assim: texto sobre disco de B Fachada de 6 em 6 meses. Porque foi esse, mais mês menos mês, o ritmo de edições de uma importância conferida pela marca autorial, mas que nem por isso deixa de resultar em discos com diferenças assinaláveis. Em 2009, como hoje, B Fachada dizia estar tudo por fazer e há que dar-lhe razão, pois o Portugal pré-FlorCaveira e Amor Fúria tinha muito pouca personalidade musical. Um país musicalmente refém de referências anglo-saxónicas, tanto musicais como culturais. Um país sem identidade, sem som há vários anos.

Mas não se pense que Fachada e os outros autores da FlorCaveira se fechavam nas capelinhas nacionais de Zeca, Fausto, Sérgio Godinho, José Mário Branco, enfim, os grandes autores da nossa canção. Nem B Fachada, nem Úria, nem João Coração, nenhum dos nomes que há dez anos criaram esta linhagem de autores que ainda hoje continua a dar frutos negava influências dos grandes clássicos: Dylan, Beatles, Beach Boys, Cash, entre outros (Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado até tem uma cantiga chamada “Zappa Português”).

Mas conferiram-lhes um cunho português. E nem falamos apenas da “tradição”, termo que insuflava a maior parte dos textos que na altura se redigiam. A marca lusitana de Fachada e companhia fazia-se mais sentir através das letras e só assim se justifica que uma canção como “Zé” seja pedida em todo e qualquer concerto que Fachada desse na temporada 2009/2010. Ouvida a esta distância, até me custa perceber o que tornou “Zé” tão especial. Acredito que tenha sido surpresa para quem se habituou a ouvir canções noutra língua durante tanto tempo. Aliás, tenho a certeza que esta estranheza boa foi um dos factores que tornou Fachada tão grande. O talento para as canções fez o resto.

Há uns tempos li um texto que, alicerçado em vários ícones do desporto, dizia que Portugal tem dificuldades na hora de honrar os seus heróis. Não estou com isto a tentar elevar Fachada ao estatuto de herói. Mas estou. Não é que esteja ao nível de um Afonso Henriques ou de um Vasco da Gama. Não me cabe a mim medir essa importância, até porque os três desbravaram caminhos diferentes e, parece-me, todos importantes.

O que me parece importante dizer aqui é que Bernardo foi um assunto polarizador: amado e odiado. E, embora a tendência do artista seja dizer que isso é bom, está sempre inerente uma certa ingratidão para com quem tenta mexer com isto. E sejamos francos: Fachada não era assim tão fácil de gostar, precisamente porque tinha uma personalidade bem vincada: apontava o dedo ao seu público por se alhear (estávamos em 2009, imaginem o que será em 2019) e dizia que, no panorama nacional, até à entrada da Cafetra em cena, não havia ninguém no seu campeonato.

Sim, há uma certa arrogância na figura, tal como em Cristiano Ronaldo, José Mourinho, Amália Rodrigues e José Saramago, só para ir buscar alguns nascidos no século XX. E o que é isso do “seu campeonato”? Uma linguagem crua que inclui rua e a tal comunicação mais tradicional que desde a participação do documentário Tradição Oral Contemporânea, de Tiago Pereira (lembram-se?) não mais se conseguiu livrar.

Voltaremos mais vezes a B Fachada, mas em Dezembro é mesmo mandatório, altura em que o seu primeiro homónimo fará 10 anos. Eventualmente, o melhor de todos.