Grizzly Bear, Passion Pit e Phoenix: 2009 foi assim

Todos enganam na forma como oferecem singles imediatos que escondem discos complexos.

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Em 2010, numa análise ao cartaz do Super Bock Super Rock, comentava com um companheiro de festivais da velha guarda que só teríamos direito a um, no máximo dois, solos de guitarra ao longo daqueles 3 dias de Meco. E seriam protagonizados por Prince, confirmação de última hora. Com St. Vincent e Julian Casablancas no cardápio, o desabafo era assumidamente exagerado, mas sintomático de uma mudança de paradigma nos festivais nacionais, totalmente alinhada com aquilo que são as tendências do momento, mas que ainda em 2019 continuam a encontrar resistência na altura de anunciar os cabeças de cartaz que são muito mais rap que rock.

Surge esta introdução na sequência de um artigo da Rolling Stone sobre a surpresa que é encontrar na pop de hoje um solo de guitarra, algo que, arrisco, começou a cimentar-se no final da década passada. Estes três discos não prescindem das guitarras, mas também não a colocam num plano de destaque óbvio. Resumem bem a transição.

Todos enganam na forma como oferecem singles imediatos que escondem discos complexos. Os Grizzly Bear, por exemplo, usam as harmonias “Two Weeks” como isco para nos pescar para o resto que exige mais paciência. Curiosidade: o unanimemente (trocadilho não intencional com “meme”) macabro vídeo do single antecipa de certa forma os filtros de Snapchat. Mas, embora os consigamos colar aos caminhos folk que Fleet Foxes e Bon Iver iam trilhando, os Grizzly Bear eram mais ligados a uma outra e nova estranha América psicadélica, passe a redundância: a dos Animal Collective (AC), Dirty Projectors e Yeasayer — todos, à exceção dos AC, de Brooklyn.

Já a EUFORIA (!!!) dos Passion Pit ia mais no sentido da dos MGMT e Empire the Sun. O fogo de artíficio de Manners encontrou um público e boa parte dele estaria no Myspace (ah, 2009…): “Sleepyhead” rodou 1.6 milhões de vezes. Números grandes para a altura, mas que hoje o YouTube nos ensina a ver como pequenos. Curiosidade para fazer a ponte para os Phoenix: os franceses chegaram a cabeças de cartaz do Coachella com muito menos argumentos que os Passion Pit, esses sim, uma banda de festival. A verdade é que, nesse sentido, os Phoenix foram uma fraude. As referências à música clássica com “Lisztomania” e o nome do disco podiam ter afastado, mas “1901” (protótipo do êxito indie da primeira década dos zeros) criou uma estranha ilusão de estádio. O êxito dos Phoenix é, por isso, um mistério: se os Grizzly Bear chegaram a um spot da Volkswagen, os Phoenix passaram em Gossip Girl, Vampire Diaries, Guitar Hero, anúncios publicitários e filmes. Também deram meme e tomaram as listas de melhores do ano. Solos de guitarra somados: zero.

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