O resumo possível de 4 Horas de Padráda com os Pás de Problème

“No final é tudo música”. Um dos seus objectivos é a libertação do corpo e nisso os Pás de Problème são exímios.

Mais uma vez temos a “Grande Festa Anual de 4 Horas de Padráda”, o mote para uma noite eletrizante neste pedaço de Lisboa à beira rio. A noite começa a sul, perto do Sahara, enquanto o Trio Alcatifa nos convida para dançar a um ritmo calmo. Nossos conhecidos de Kumpania Algazarra trazem trompete, saxofone e teclado para nos pôr a mexer. É o aquecimento para uma explosão de energia que ocorre assim que Pás de Problème entram em palco. São sete, número mágico, em família e munidos de uma vontade explosiva para fazer a festa.

Com Gil Dionísio na voz e violino, Diamantino Viegas na guitarra, Pedro Tzigani no baixo, Duarte Loureiro na bateria, Reiul Roxo no trompete, Abuka no saxofone contralto e clarinete, Johnny no sax tenor levam o primeiro alinhamento ao rubro ao tocar antigos temas que põem tudo em êxtase. Entre Crowd Surfing e Mosh Pits o cheiro do fumo confunde-se com o do suor ao ritmo da banda. A sintonia entre os músicos e os seus fãs é incrível quer entre frases de intervenção ou em momentos de nonsense literário cantam todos juntos.

O primeiro alinhamento acaba e é visível o arfar de um público jovem. Enquanto uns saem para fumar um cigarro entra em palco Titz Vagabond com um objectivo certo, chocar. Com a sua performance Jogo Sujo Fogo Sujo, despe-se enquanto o vídeo passa imagens de teor homossexual. É o Strip de preconceitos.

Titz Vagabond com Jogo Sujo Fogo Sujo

Voltam Pás de Problème para apresentar o novo álbum, “The Shape of Party to Come”. É notória a quantidade de influência que estes jovens bebem. Desde música oriental, passando pelo Reggae, ao Jazz, Rock, Punk e Gipsy culminam tudo no seu próprio estilo. Músicos notáveis capazes dos solos mais calmos aos Riifs mais poderosos, fazem a festa enquanto a plateia consome este novo trabalho com prazer. Nada muda, são os mesmos só que se nota um maior trabalho no pormenor de cada música. É um álbum fantástico que, tocado ao vivo, ainda soa melhor devido a toda uma energia imposta por toda a gente que ali se encontra. “The Shape of Party to Come” é a fórmula certa para uma segunda parte incrível. Certamente um álbum a ouvir.

No segundo intervalo, das quatro horas de Pás, temos um duo, Shivers. Com guitarra e bateria, trazem Seattle a Lisboa enquanto rebentam as colunas com a sua paixão. O grito é um e é simples: “É tudo música!”. Agradecem aos anfitriões pela variedade de estilos numa noite única de Lisboa. E nós agradecemos de volta. Despedem-se ao antigo jeito do Punk, com uma guitarra desfeita com o seu braço a ser atirado para a plateia, sacrificada num espectáculo emotivo. Entre aplausos abraçam Pás de Problème. É tudo uma grande família.

Terceiro alinhamento. Montam-se sofás no palco para um talk show musical, com traços de ironia e comédia. A guitarra moribunda de Shivers tem a sua homenagem, é o espectador em palco da dita conversa que passa por músicas antigas a convidados especiais, como foi o caso de Pedro Castro Trio, levando a música portuguesa e o fado para esta festa singular. É a parte mais calma, permite respirar e alongar os músculos para mais 2 horas de Real Padráda.

Nova pausa. Há amor no ar entre casamentos de elementos da banda e o casamento em massa de toda a gente que quer dedicar a sua chama a um parceiro especial. Entre risos e beijos aplaude-se.

A banda volta para a última hora de concerto. É a sessão Trashy and Fast, não param. Entre inícios de jazz melancólico voltando à loucura de temas velozes põe os resistentes de uma noite louca a dançar e a saltar. Para acabar a noite volta Trio Alcatifa, acalmando a plateia com os seus temas arábicos belos e cativantes.

“No final é tudo música”. Um dos seus objectivos é a libertação do corpo e nisso os Pás de Problème são exímios. Toda uma noite cheia de energia, amor e muita música culmina com um ponto bem assente, “No final, é tudo música”, repetido as vezes que for necessário. No mundo competitivo em que vivemos por muitas vezes isso é olvidado. Esqueçam-se géneros e rótulos pois o único que se pode pôr a estes é o que esta num garrafão de mão em mão num palco mágico, Real Padráda.

Texto de Joaquim Ribeiro

Fotografias de Teresa Lopes da Silva