‘Amici e alleati’: quando a extrema-direita abandona o Estado-nação

Este sábado, em Milão, há um comício pan-europeu destinado a provar o sucesso que a aliança de extrema-direita pode ter.

O The New York Times chamou-lhe “a campanha permanente”. Matteo Salvini, ministro do Interior e líder do partido italiano Liga, subiu a um palanque para prometer recuperar o setor agrícola do país, “massacrado por cereais canadianos, arroz do Camboja, tomates marroquinos e laranjas tunisinas”, em troca de um voto nas eleições europeias da próxima semana, que apelidou de “referendo de vida ou morte”.

Salvini é um eurocético com grande experiência europeia, que foi eurodeputado entre 2009 e 2018, antes de chegar ao governo, e nunca deixou de colocar a União Europeia no centro do seu discurso político nacional, ao ponto de ter alegadamente namorado a ideia de se assumir como spitzenkandidat do partido da Europa das Nações e da Liberdade. Depois das eleições de maio, ninguém imagina que a dança de cadeiras nos cargos de topo e na formação de grupos políticos no Parlamento Europeu vá acontecer sem a sua participação ativa. Se conseguir reunir num só grupo, como tem tentado, grandes partidos da direita eurocética como a AfD alemã, a RN de Marine Le Pen e o Fidesz de Viktor Orbán, imediatamente se tornará um kingmaker, essencial para quebrar o enguiço parlamentar que as sondagens adivinham. O seu partido nacional é um dos mais antigos movimentos populistas na Europa e a recente experiência no governo, em coligação com os também populistas do Movimento 5 Estrelas, tem-se revelado especialmente frutífera na normalização de uma nova forma de política. Itália é um dos países mais populosos e uma das maiores economias europeias, mas o seu sistema político tende a revelar-se excessivamente complexo e áspero, devorando governos sem conseguir produzir maiorias sólidas. Isso tornou o país um campo especialmente favorável a partidos fora do mainstream e o primeiro Estado-membro fundador da UE em que partidos desses chegam ao poder. Numa palavra, Salvini venceu onde Le Pen – bom, duas gerações de Le Pen – falhou.

O grande problema da ala da direita antieuropeísta no Parlamento é a sua histórica dificuldade em formar um só grupo suficientemente coeso, que permita uma força numérica ameaçadora do bloco moderado que sempre governou a política europeia. Estas podem ser as eleições que derrubam esse obstáculo e Salvini pode ser o arquiteto dessa união e do problema basilar do conflito entre os vários nacionalismos. A missão tem-se revelado especialmente difícil e um exemplo curioso surgiu quando Salvini tentou convencer o Partido da Liberdade austríaco, uma relevante formação de extrema-direita que pertence à coligação de governo no seu país, a juntar-se ao seu movimento, apenas para rapidamente se aperceberem de problemas estruturantes, por os austríacos defenderem o reconhecimento da dupla cidadania a uma minoria do norte de Itália com importantes laços de cultura e idioma que os ligam aos seus vizinhos. Por outro lado, com Marine Le Pen e o seu partido, renomeado Reunião Nacional, líder das sondagens em França, o problema está liderança. Os franceses consideram-se criadores do modelo de sucesso da extrema-direita europeia, alegando que a Liga meramente o importou para Itália, e por isso mostram-se reticentes na cedência da liderança de uma eventual agremiação à escala europeia. Viktor Orbán, confesso admirador de Salvini e outro dos seduzidos, já declarou não querer qualquer associação com Le Pen. Da Bélgica, no entanto, chega um apoio entusiasmado de Geert Wilders.

Não é fácil reunir num só espaço partidos e políticos cuja principal ideia passa por colocar o interesse nacional em primeiro lugar e rejeitar qualquer tipo de subalternização perante outros países. No entanto, vale a pena considerar o que está em jogo. O movimento que Salvini tem vindo reunir, direcionado a uma “Europa do Senso Comum” sob o nome “Aliança Europeia dos Povos e Nações”, conta já com importantes apoios de partidos vindos da Alemanha, da Áustria, da Dinamarca, da França e da Estónia. Cálculos de especialistas apontam para que uma aliança entre todos os partidos de “extrema-direita” na União Europeia pudesse reunir 173 lugares no Parlamento Europeu, destronando os socialistas como o segundo maior bloco. Esse tipo de influência, ainda que improvável, seria absolutamente esmagadora para o status quo e muito baralharia as contas que se vão fazendo para o futuro depois de maio. No entanto, as sondagens atribuem já ao novo movimento de Salvini mais de 70 lugares, que seriam equivalentes à quarta maior força parlamentar. Este sábado, em Milão, há já um comício pan-europeu destinado a provar o sucesso que a aliança pode ter – apesar de  hesitações de última hora a propósito da posição a adotar quanto à Rússia.

Atualmente, a direita à direita do PPE divide-se em três grupos: os Conservadores e Reformistas (ECR), a Europa das Nações e da Liberdade (ENF) e ainda a Europa da Liberdade e da Democracia Direta (EFDD). Somados, significam cerca de 150 eurodeputados. Parece claro que não se manterão todos esses grupos, nem com o mesmo nome, mas não é evidente de que forma se irão repartir depois de tomarem posse os novos deputados – e é importante juntar a estas contas os atuais 18 não-inscritos, alguns dos quais ultranacionalistas à deriva.

Uma grande onda parece ameaçar Bruxelas, cidade muito distante do mar. Os dois maiores partidos europeus vão certamente perder lugares e, mais importante e pela primeira vez, a maioria parlamentar. A verificar-se, o descalabro pode atribuir-se à imagem de imobilismo e opacidade que se colou às instituições e à União como um todo, mas também à recusa insistente dos seus membros em mobilizar cidadãos nacionais através de um discurso europeu, algo a que os partidos dos extremos nunca fugiram. Talvez o mais curioso nestes diversos movimentos anti-europeístas seja que a implosão da União tenha desaparecido dos seus planos. Na verdade, o seu discurso já não se centra apenas em voltar ao Estado-nação, à soberania nacional e aproveitar o caminho para a destruição de instituições multilaterais; o discurso populista é hoje um discurso reformista, de disrupção na continuidade pela defesa de um retorno às origens do projeto europeu como comunidade de Estados. Hoje, a xenofobia parece já não jogar a favor do mainstream e os partidos nacionalistas desejam unir-se a partidos nacionalistas de outros Estados-membros para, em conjunto, avançarem com um determinado projeto político.

A discussão já não se faz no plano de “se há União Europeia”, mas antes no plano de “quanta União Europeia”. Ora, esse é, fundamentalmente, o ideal europeu. Os “inimigos” do projeto querem hoje apenas discutir como o mudar por dentro, para que, aos seus olhos não deixe funcionar. Os antissistema foram engolidos pelo sistema que queriam derrubar.

Ironicamente, a União Europeia ganhou e ninguém se apercebeu.

João Diogo Barbosa