Ciclistas quebram menos regras que automobilistas, mas infracções são mais visíveis

Ciclistas acham que estão acima do Código da Estrada? Uma breve análise.

Foto de Eduardo Enrietti via Unsplash

Com a chegada das bicicletas e trotinetas em força à paisagem urbana de Lisboa, não há discussão em que os mais cépticos – acostumados a ter a cidade desenhada em torno do automóvel e a conviver apenas com carros – não gritem em caixas de comentários online: “mas essa malta das bicicletas e trotinetas só sabe passar vermelhos e atrapalhar nos passeios”. Todavia, se é verdade que há ciclistas a infringir o Código da Estrada, não é menos verdade que os condutores também o fazem, só que as infracções de quem anda de bicicleta ou de trotineta são mais notáveis.

A conclusão chega da Dinamarca. De acordo com a Direcção de Estradas Dinamarquesa, menos de 5% dos ciclistas violam as regras do Código da Estrada, enquanto que 66% dos motoristas o fazem. Já a Danish Cycling Embassy, uma organização privada sem fins lucrativos, refere que as infracções dos ciclistas são mais visíveis aos olhos das pessoas em geral, enquanto que as transgressões de condutores de automóveis, como velocidade excessiva ou uso do telemóvel ao volante. A mesma entidade avança que os ciclistas acabam por infringir mais as regras quando não têm infra-estrutura para eles, pelo que, se quisermos bicicletas e trotinetas mais cumpridoras, por que não criar mais ciclovias?

Empiricamente é possível comprovar tais conclusões em Lisboa onde, quando não há espaço dedicado para bicicletas e trotinetas circularem, se vê os utilizadores desses meios de transporte a optar pelo passeio, fugindo às estradas onde os automóveis muitas vezes circulam em velocidade excessiva e impacientes com os veículos mais lentos. Noutras vezes, a semaforização privilegia o automóvel e, tanto ciclistas como peões preferem olhar duas vezes e seguir caminho, que ficar à espera do verde. Em suma, as transgressões de quem anda a pé ou de quem opta pela chamada mobilidade suave pode ser consequência do mau planeamento urbano das últimas décadas, com as cidades a serem definidas pela indústria automóvel e não em torno do bem estar comum.

Uma questão de perspectiva

No Reino Unido, as estatísticas também indicam que a ideia pré-concebida de que os ciclistas são os que mais violam o Código da Estrada é falsa. A Transport Of London, por exemplo, analisou a hipótese de que a maioria dos ciclistas passam os sinais vermelhos e descobriu que 84% deles pára efectivamente, concluindo que a “violação não é endémica”. Alguns dos ciclistas que passam ou antecipam os vermelhos fazem-no, em parte, por razões de segurança pessoal, por exemplo, por medo dos carros ou de um automobilista em particular. Além disso, cerca de 1700 pessoas morrem por ano nas estradas britânicas – zero a duas dessas mortes são provadas por bicicletas. Todavia, quando um caso envolve uma bicicleta ganha uma atenção mediática nos jornais e TVs muito maior do que se dissesse respeito a um motorista, porque precisamente os ciclistas são a causa de bem menos acidentes.

Essa realidade é notória em Portugal também, com notícias sobre trotinetas abandonadas em passeios ou sobre incidentes que aconteceram noutras cidades a serem repetidas na imprensa nacional, não se vendo um trabalho jornalístico a sério sobre os automóveis estacionados em cima de passeios ou de passadeiras, ou os problemas e desafios diários da mobilidade pedonal e ciclável numa cidade dominada pelo automóvel. “Se queremos tornar as nossas estradas mais seguras, precisamos de mudar a discussão e a atenção dos media das bicicletas para os automóveis, e não é por causa de os condutores serem grandes bandidos, é as percepções, que incluem mitos e mentiras, ajudam a moldar a vontade política e a diplomacia pública”, conclui o jornalista do The Guardian Peter Walker no vídeo-ensaio que partilhamos neste artigo. “E precisamos de ter um pouco um pouco mais de cortesia uns com os outros [na estrada].”

No mesmo vídeo do The Guardian, um oficial da política britânica de West Midlands, PC Mark Hodson, comenta que: “Não são auto-agressores enquanto grupo, os ciclistas. Por causa do sentimento inerente de vulnerabilidade que se tem numa bicicleta, tomam muito cuidado mesmo quando estão a ofender. É o oposto completo ao que as pessoas fazem nos carros, porque se sentem tão seguras nelas com os cintos, airbags, uma grande gaiola de aço ao redor.” Mark diz também que existe uma estratégia das autoridades de ligar menos aos ciclistas e colocar a sua atenção no verdadeiro perigo nas estradas: automobilistas.