Como desconfiar de uma conta falsa numa rede social

As contas falsas nas redes sociais não são tão difíceis de identificar como se possa pensar. Pelo contrário seguem quase todas os mesmos critérios e cometem quase todas os mesmos erros que a denunciam.

Estamos à porta de mais umas eleições e, como tal, é preciso redobrar a atenção no que toca ao binómio informação vs desinformação. Se as redes sociais, por um lado, nos permitem acompanhar de um modo mais próximo as campanhas eleitorais dos vários partidos, debater directamente com os seus representantes e aceder a informação dispensando os mediadores que nem sempre fazem bem o seu trabalho, por outro são terreno fértil para pôr em prática técnicas e tácticas de propaganda.

Desengane-se quem acha que a propaganda e a desinformação intencional é um exclusivo da internet porque não o é; contudo, neste novo meio estas estratégias ganham novas formas que é preciso escrutinar. Uma dessas estratégias é a utilização de contas falsas, que, por sua vez, podem ter diversos objectivos específicos.

À partida, a criação de contas falsas numa rede social pode servir um de dois propósitos mais evidentes: iniciar a circulação de informação falsa através de publicações que procuram atingir a viralidade ou, por outro lado, numa manobra mais discreta, alimentar com interação contas verdadeiras para que as mensagens que estas promovem possam chegar mais longe. Na praça pública portuguesa, existem os dois casos mas como os identificar?

As contas falsas nas redes sociais não são tão difíceis de identificar como se possa pensar. Pelo contrário seguem quase todas os mesmos critérios e cometem quase todas os mesmos erros que a denunciam. Ainda assim, nenhum teste é falível e tudo o que aqui será partilhado não serve (nem pretende servir) de mecanismo de prova formal, sendo apenas um guia para que possamos descortinar no nosso dia-a-dia quando estamos perante perfis automatizados ou humanos reais.

Fotografias de perfil falsas

Se a pessoa não existe é difícil que tenha uma fotografia de perfil. Se o nome facilmente se inventa com um bocadinho de imaginação, a fotografia é muito mais difícil de falsear. Neste capítulo, os criadores de contas falsas podem usar uma de três estratégias: recorrer a uma fotografia descarregada do perfil de outra pessoa no Facebook, utilizar uma fotografia de banco de imagem de uma face visível ou procurar imagens enigmáticas como flores, personagens de desenhos animados ou pessoas de costas. N

em sempre é fácil fazer a verificação da imagem mas um passo útil é pesquisar por imagem através das ferramentas da Google. Em caso de imagens de bancos de imagem pagos, a probabilidade da fotografia surgir indexada na Google é alta e, nesse caso, está descoberta a careca do fake.

Contas mono-temáticas

“Estás sempre a falar da mesma coisa, deves ser pago para isso”; com certeza que esta ideia já te passou pela cabeça uma dezena de vezes em relação a pessoas reais, no caso das contas falsas ela é ainda mais evidente. Como geralmente quem gere as contas falsas gere mais que uma, acaba por não ter tempo ou dedicação suficiente para a fazer interagir com temas diferentes; assim, geralmente uma conta falsa é muito activa mas só interage com determinado assunto.

Quando estas contas procuram interagir contra outras fora do seu circuito, fazem-no muitas vezes por palavras-chave. Uma forma de o perceber, especialmente fácil no Twitter, é vendo as interacções “Tweets & Replies” do utilizador. Se criou a conta há seis meses e ainda não falou de outra coisa a não ser de política ou futebol – sempre do mesmo partido ou sempre do mesmo clube –, é provável que estejamos perante uma conta falsa.

Interacções em circuito fechado

Este é outro dos erros básicos mas muitas vezes repetido. Quando um só indivíduo ou um grupo de indivíduos gere uma série de contas falsas, acaba por cair na tendência de as fazer interagir em circuito fechados, pelo menos nos primeiros tempos enquanto a sua mensagem não ganham tracção e não arranjam ‘amigos’ online.

Faz parte do ciclo de vida de qualquer estreante nas redes sociais começar por interagir com aqueles que conhece na vida real, nestes casos como não existe uma vida real, as interacções tendem a dar-se com outras contas falsas e geralmente sem grande intimidade – é preciso ter em conta que estas falhas são geralmente cumulativas.

Mais partilhas que publicações

Se alguém cria uma conta nas redes sociais, à partida, é porque tem algo a dizer. Se, pelo contrário, uma conta se dedica única e exclusivamente a fazer likes e partilhas de outras páginas é preciso começar a desconfiar. Se essas partilhas têm todas a mesma tendência política, partidária ou clubística é de fazer soar os alarmes. É normal que uma pessoa tenha as suas afinidades mas não é normal que use os seus próprios meios com um comportamento puramente disseminador dessa tendência.

 

Na desinformação como na informação, há quem o faça bem e mal. Se, por um lado, há contas que deixam pistas evidentes que revelam a sua falsidade, por outro, há quem se dedique com relativo profissionalismo ao feito e consiga criar perfis bastante fidedignos. Estes são mais difíceis de identificar. Por outro lado também, é importante deixar aberto o precedente para as utilizações mais estranhas das redes sociais, nem toda a gente tem de postar tanto como nós e qualquer desconfiança merece uma espécie de presunção da inocência.

As dicas aqui partilhadas, como dito lá em cima, não são um método científico para deteção de contas falsas mas antes uma espécie de checklist do que podes verificar quando as interações te parecem pouco vulgares — por exemplo se alguém vindo do nada interagir contigo a defender acerrimamente um ponto de vista ou se uma conta desconhecida for a criadora de um viral. Este tipo de diagnóstico é o seu uso como filtro para as discussões que valem a pena ter nas redes sociais. Se é muito útil o espaço público online, por permitir discussões abertas e dar espaço a todos os pontos de vista, a resposta das contas falsas a determinadas palavras-chave pode servir meramente para lhes dar mais tracção e aí há que seguir a máxima don’t feed the trolls.