Mechelas, o albúm que dura muito mais do que meses

E a prova disso está nas pequenas coisas.

“Para quê fazer um albúm se ele dura meses?” é a questão que Sam The Kid levanta na sua faixa do último albúm, Mechelas, uma compilação de 18 faixas produzidas exclusivamente pelo rapper de Chelas, pensadas a partir de 2014 e lançadas entre 2016 e 2018 no canal de youtube de Sam The Kid, TvChelas e mais tarde em versão física. A ideia final, percebeu-se, passou por organizá-las por ordem de lançamento fechando a lista com o toque “precioso” da única faixa a solo, “Sendo Assim”.

Mas no meio disto tudo qual foi o impacto que esta compilação teve? Será que durou apenas meses como retoricamente Sam questiona?

Samuel Mira, mais conhecido por STK (Sam The Kid) tem vindo a marcar o panorama do hip hop português há já largos anos. Tudo começou nos anos 90 quando se “apaixonou” pelo rap; em 1993 descobriu a sonoridade e seis anos depois a paixão dava os primeiros frutos — o seu primeiro disco Entre(tanto). Desde aí a carreira do rapper português ascendeu a níveis inimagináveis e hoje é considerado um dos melhores rappers do hip hop nacional, com colaborações com grandes artistas nacionais, criação de mais álbuns e um talento reconhecido por gente de todas as áreas.

Qualquer um dos álbuns do Sam The Kid foram uma espécie de acontecimento nacional mas situando-nos de volta em 2019, questionamo-nos, porque é que Mechelas não teve o mesmo tratamento? Apesar de não ter passado despercebido, não teve o impacto que se esperava… mas teve provavelmente o que queria.

Os tempos mudam e surgem rappers da nova escola que por vezes fazem esquecer os chamados OG’s ou os relegam para um novo estatuto. O legado de Sam The Kid ainda hoje se mantém mas a sua posição no rap alterou-se significativamente fruto do seu trabalho e Mechelas é um excelente reflexo disso. O álbum conta com uma produção exuberante, colaborações até dizer chega, versos incríveis e todo um trabalho árduo, bem pensado, que merece o destaque que agora lhe está a ser dado através da série Vamos Por Partes. Cada faixa é um pretexto para Sam partilhar dicas de produção e dar a conhecer quem convidou para cada colaboração.

O álbum abre com a música “Caravana” com participação do tão conhecido rapper Boss AC. Com um instrumental de boom bap a fazer lembrar os anos 90 e a presença de um dos MC’s com mais notoriedade a nível nacional este som tinha tudo para dar certo, como um verdadeiro hino aos amantes do rap tuga e da velha guarda. “Caravana” atingiu tanta popularidade que foi alvo de remixes e covers de rappers mais conhecidos como Slow J ou rappers underground que ficaram agarrados ao instrumental.

Cedo se percebe que este álbum é muito mais do que um “álbum de gaveta” e como tal merece a mesma atenção que os anteriores de Sam The Kid; a prova disso está nas pequenas coisas, como os pormenores contados por Sam na série de Youtube Vamos por Partes.

Mechelas é sobretudo um álbum de grandes colaborações, à moda antiga do rap, e remete-nos constantemente para dois mundos diferentes que acabam por se sintetizar num só, a presença de rappers da nova e velha escola. Num momento estamos a ouvir Maze na música “Começar de Novo” com uma frescura nas barras e versos entusiasmantes, noutro momento estamos a “dar canal” à enriquecedora e refrescante música do grupo de Mem-Martins, Grognation; num momento estamos a ouvir Karlon Krioulo, fundador dos Nigga Poison, e noutro estamos a ouvir MULECA XIII numa novíssima aparição no universo do rap português.

Dito isto, e agora dirigindo-me a si (com a devida reverência), Sr. Samuel Mira, como acha que um álbum destes só dura meses? Mechelas mostra-nos exactamente o contrário. “Pulamos” para a 3ª música e podemos comprovar que essa ideia é como o título da música, “Engana”. Enquanto que nós achamos que Sam está enganado à durabilidade deste álbum, o rapper Beware Jack representa o homem que engana a morte diariamente, numa música que fala sobre a street life, um som mais descontraído que nos apresenta discretamente o projecto há muito prometido de Sam The Kid e BW Jack, Classe Crua — que entretanto já tem novo vídeo.

Desengane-se quem acha que apenas o real hip hop nacional está aqui representado, a adicionar a este inigualável álbum temos colaborações vindos de outros quadrantes, como é o exemplo da 5ª música “Na Fita” com Zuka que mais tarde entrara num hit de verão da Blaya, mas aqui tivera palco para as suas rimas que há muito não se ouviam. Muleca XIII é outra das participações surpreendentes e por descobrir neste álbum. Como o nome da música diz, “Arrisca” é a 8ª faixa do álbum e foi de facto arriscada por sair do cânone de quase todo o disco – a rapper ‘baiana’ é quase desconhecida em Portugal, não é homie do Sam, nem convidada por ninguém. KID MC, de Angola, e Hernâni da Silva, de Moçambique, somam-se ao leque de colaborações intercontinentais com temas com uma vibe muito própria que servem de cartão de visita para quem quiser descobrir mais sobre estes pesos pesados do rap africano. Mais distante no universo de referências só Francis Dale, o português, que surge para dar melodia ao refrão da faixa Montanhas, com Bob da Rage Sense, numa aparição inédita cantando na sua língua materna.

Agora recuemos um bocadinho para os inícios do álbum para em jeito de agradecimento nos debruçarmos sobre a 2ª música. “Eternamente”, conta com a participação de Sir Scratch, um beat harmonioso e relaxado, e leva-nos a pensar sobre a liberdade e felicidade de ter alguém; é mais uma demonstração de um dos caminhos deste disco — o mesmo trilhado pela faixa com Boss AC — o de homenagem aos clássicos, e onde se somam as faixas com Bob da Rage, Lancelot, Maze e Daddy-O-Pop que fez parte do primeiro grupo de Sam The Kid, os Official Nasty.

Este álbum é também uma prova que STK domina em todos os estilos da produção; à medida que vamos ouvindo cada beat conseguimos imaginar o processo de criação que o próprio com orgulho faz questão de explicar na série “Vamos Por Partes”. Com a pouca dinâmica que hoje vemos em algumas produções é importante dar consistência naquilo que se está a fazer e Samuel Mira faz isso como ninguém, junta uma variedade de sonoridades, vai procurando vários samples, tenta encaixá-los nos vários momentos que compõem o instrumental sem perder o estilo que caracteriza a sua produção neste método.

Vive-se tanto mais quanto se sente
Todo o valor está no que sofremos
Que nenhum homem seja indiferente
Amemos muito como odiamos já
A verdade está sempre nos extremos
Porque é no sentimento que ela está”

Um excerto do Poema de Fausto Guedes Teixeira, Amar ou Odiar, abre a 13ª faixa; Se é relativamente usual Sam iniciar as suas músicas com excertos de um poema, neste caso serve para dar deixar claro que o meio termo é que não pode ser. Esta música conta com a participação do rapper Blasph, também conhecido por Frankie Dilúvio, que ao longo da faixa usa algumas figuras de estilo que só os mais atentos ou habituados ao seu rap conseguem “apanhar”.

“Visto Fila, enervo-me e sou um cão de fila”

Blasph introduz aqui uma polissemia. Veste a marca de roupa Fila, e tem o mesmo temperamento que um Cão de Fila de São Miguel, uma raça canina originária dos Açores, muito utilizada para a guarda de gado bovino, pela sua aguçada inteligência, lealdade e desconfiança de estranhos. Resumidamente, Blasph veste streetwear, é inteligente e tem pavio curto para quem se quer aventurar no seu território. Esta faixa, bem como a dica, é exemplar da outra lane em que corre este disco, trazendo para o meio de todas estas referências (clássicos, internacionais) rappers que habitualmente se movem no marginal e por lá forjaram um nome de referência — Blasph, Ferry, Nameless.

Assim chegamos aos momentos finais do álbum, onde surge, depois da celebração, uma perspetiva mais crítica. Phoenix RDC dá mote àquela que é “A História”, uma música que retrata a história do hip hop desde as origens com versos acerca dos N.W.A e outros impulsionadores do movimento.

Hip Hop é intervenção inovação e festa
Hip Hop é o trap que deixa tua bitch histérica
Hip Hop é Kendrick, J. Cole kings da nova era
Drake Tory Lanez Gambino This is América”

Um final criativo, em que Phoenix RDC, que tem sido um dos rappers nacionais com uma ascensão mais rápida num estilo clássico, marca a sua posição. Posto isto chegamos à última faixa “Sendo Assim”. Este final conta como já referimos apenas com Sam The Kid, e como não podia faltar com uma produção brilhante com instrumental da autoria do próprio.

Tal como na faixa anterior, Sam também critica e compara o rap português na atualidade em todos os seus pontos (industrial, musical e lírico) com outros tempos, nomeadamente os 90′. Ao mesmo tempo, a faixa serve como uma dedicatória, a quem faz o que sente, apoia a cultura e dá valor aos princípios do hip hop. Durante a faixa, nota-se a particularidade do estilo de Sam The Kid, através de jogos de palavras e rimas que lhe são tão característicos. O tema é praticamente o mesmo da música anterior mas desta vez a abordagem é mais inclusiva e reflexiva; percebe-se que a visão de Sam face ao fenómeno da nova escola é diferente e que aproveita a sua faixa para uma reflexão mais alargada sobre o mundo da música — produtores e ouvintes.

No final fica certa a resposta que se há discos que duram bem mais que meses, Mechelas foi um deles. Com vários caminhos por percorrer e descobrir entre a lista de convidados, comebacks que nos fazem recordar os primeiros sons de hip hop que ouvíamos no início dos anos 2000, perspetivas frescas sobre o panorama e uma produção sempre sublime, Mechelas, é um disco fora da norma e ainda assim exemplar. Recupera o espírito de mixtape que por exemplo nos EUA tem dado nome a DJ Khaled, e fá-lo de uma forma consistente e com muita substância, com músicas que são, como se costuma dizer, clássicos directos. Como se Sam The Kid nos convidasse a viajar pelo seu universo de referências lusófonas e, finalmente, nos mostrasse cada segredo desse espaço que tão bem conhece. Porque Hip Hop é subir e levar os seus consigo, este disco é uma ode a este género que agora parece estar na moda mas onde o espírito de sacrifício continua a ser o ingrediente de base para a maioria dos intervenientes.

Texto de Bernardo Pereira
Editado por João Ribeiro