É difícil ser verde nos subúrbios (americanos)

A dependência do carro é uma das características da vida nos subúrbios. O problema não é apenas americano, mas talvez seja mais complexo nos EUA, o segundo maior emissor mundial de gases de efeito estufa e um país definido pela cultura do automóvel.

Em 2018, depois de três anos em queda, os EUA reverteram a tendência e registaram um aumento de 3,4% das emissões de CO2 e outros gases responsáveis pelo aquecimento do planeta. A subida não é uma consequência (ainda) da decisão de saída do Acordo de Paris. No entanto, os dados não deixam de ser indicadores da despreocupação de Donald Trump em combater as alterações climáticas.

Essa falta de consciência ambiental é bem evidente no love affair americano com o carro. As estatísticas comprovam que o sector dos transportes é o maior responsável (29%) pela pegada de carbono dos EUA e que os veículos ligeiros ocupam a fatia mais larga dentro desse grupo (60%). Essa dependência excessiva do automóvel é especialmente agravada nos subúrbios, onde por necessidade e conforto se conduz mais.

Cresci na periferia da Área Metropolitana de Lisboa com acesso a uma boa rede de transportes públicos. Perto de casa, à distância de curtas caminhadas, sempre tive cafés, supermercados, correios, bancos, etc. Na minha vivência urbana nunca tinha ponderado sobre a facilidade de deslocação a pé e de transportes públicos que as áreas mais urbanizadas oferecem. Foi preciso mudar-me para um subúrbio de Long Island, em Nova Iorque, para ganhar consciência desse privilégio e do quão menos ecológicas as suburbanizações podem ser.

Dentro e arredores de Great Neck, ir de carro para todo o lado é a norma. No comboio, que faz a ligação a Manhattan em 35 minutos, é comum ver os seus habitantes no papel de passageiro. Já nos autocarros, os rostos são bem diferentes: é sobretudo a mão de obra, vinda das redondezas, que se desloca desta forma para trabalhar nas casas, supermercados e outros tipos de comércio.

Eu própria conduzo muito aqui porque o trabalho me obriga. Nas horas livres, sem a opção do carro, sou pedestre e utente dos transportes públicos. Conheço os dos “lados” da estrada e, ao fim de oito meses de vivência suburbana, admito que não é assim tão difícil ceder à tentação do automóvel.

A viver a meia hora de caminhada da mercearia mais próxima e a uma hora do centro, compreendi rapidamente os motivos por que se conduz tanto por aqui. De norte a sul, este a oeste, os subúrbios deste país foram concebidos para o automóvel: existe uma zona mais central onde está toda a vida da pequena cidade e, à volta, apenas casas e quilómetros e quilómetros de estradas.

As distâncias aliadas à centralização do comércio e frequência dos autocarros não incentivam a um estilo de vida mais verde. Por exemplo, aqui apenas duas carreiras servem os habitantes espalhados por uma área de 3,5 km. O n57 e o n58 partem das paragens finais a cada meia hora e estão ativos apenas até às 19h e 21h, respetivamente. No norte de Great Neck, o autocarro não faz o percurso completo a várias horas do dia, podendo deixar os passageiros, no caso mais extremo, apeados a 40 minutos de casa. Já os residentes do lado oeste da península podem chegar a fazer um percurso de 30 minutos até ao centro, quase o mesmo tempo a pé num trajeto bem mais direto.

A oferta de autocarros é escassa porque não há muita procura. Este cenário, no caso de Great Neck, justifica-se pelo facto de existir um poder de compra acima da média. Os habitantes podem comprar e manter dois ou mais carros por casa, sem se preocuparem muito com os encargos de combustível.

A questão socio-económica tem um peso importante no problema da pegada de carbono e a prova disso está no número e frequência dos autocarros que transportam a mão de obra mais barata de Great Neck. Quatro carreiras trazem e levam passageiros das redondezas todos os dias da semana; partem dos terminais, em média, de 10 em 10 minutos entre as 5h30 e 23h. Se pudessem, estes trabalhadores provavelmente optariam pelo carro. É por necessidade – e não consciência ambiental – que há mais procura e, portanto, um serviço com mais oferta.

A rede de transportes e as longas distâncias são obstáculos à mudança, assim como o sedentarismo, que é muito mais consequência do que causa do problema. Várias vezes “choquei” suburbanos por ter andado 15 ou 20 minutos para chegar a algum lado. Normalmente, estas distâncias não são consideradas razoáveis. A não ser que seja sábado e eles sejam judeus (a maioria em Great Neck) que levam a sério as inúmeras tradições e restrições do Shabbat. Proibidos de conduzir entre o pôr do sol de sexta e de sábado, é habitual ver homens, mulheres e crianças a deslocar-se a pé.

A dependência das crianças e jovens também não contribuiu para a resolução do problema. Num subúrbio rico como este, são os pais e nannys que levam os mais novos para quase todo o lado; ou são os adolescentes já com carta de condução que dão boleia aos amigos.

“Podes levar-me ali? Podes vir buscar-me?”, pedem constantemente porque não foram habituados a outra forma de viver. Uma mãe de Great Neck contou-me, em tom de crítica, que alguns colegas de trabalho pagavam a alguém para levar e buscar os filhos à escola porque não lhes apetecia ir sentados meia hora no autocarro amarelo.

Poder tirar a carta de condução aos 16 anos também não ajuda. É, sem dúvida, um alívio para o fardo dos pais motoristas. Mas esta promessa de liberdade para os adolescentes é demasiado difícil de resistir e, portanto, desde cedo habituam-se a usar o carro sem pensar nas consequências. “O sonho de qualquer adolescente é conduzir para a escola no último ano e ir ao baile de finalistas”, disse-me uma jovem de Great Neck. No liceu John L. Miller North High School parece que eles estão a realizá-lo, a julgar pelas queixas de falta de espaço no parque de estacionamento dos alunos.

Estes miúdos não são a Geração Verde. Talvez venham a sê-lo no futuro, nas universidades, nas cidades. No entanto, hoje, tanto eles como os pais estão habituados a um estilo de vida que não equaciona usar menos o automóvel; e estão confinados a um espaço que não impulsiona a mudança.

A dependência exagerada do carro não é apenas uma crise dos subúrbios. No ano passado, a taxa de utentes de transportes públicos caiu 2% nas grandes cidades dos EUA, incluindo em Nova Iorque. Apesar disso, o número de passageiros da extensa Long Island Rail Road, à qual Great Neck pertence, foi o mais elevado em sete décadas. Para viagens mais longas, há mais tendência para usufruir do comboio. Contudo, em relação ao autocarro, não se verifica o mesmo comportamento.

Enquanto não existir uma boa infraestrutura de transportes públicos e mais urbanização (comércio onde só existem casas e estradas), continuará a ser difícil levar uma vida mais verde nos subúrbios – e não só nos americanos. A sensibilização ambiental é essencial, mas não podemos esperar que as pessoas mudem sozinhas. Tem de haver educação e consciencialização, juntamente com reestruturação dos espaços que habitamos.

Texto de Mikhaela Anjos