Da queda do Daesh ao perigo da extrema-direita: a mutação do terrorismo

Em 2017, os ataques terroristas de extrema-direita na Europa Ocidental e na América do Norte chegaram aos 283. Destes resultaram 227 mortes. E podem culpar Anders Breivik por isso.

Lembras-te de Anders Breivik? Do ataque de 22 de julho de 2011 na ilha de Utoya, Noruega? 77 mortes resultaram desse atentado, que levou a cabo sozinho. Este foi aquele que é considerado o ponto de viragem entre o terrorismo entre países e o terrorismo de pessoas ou pequenos grupos singulares.

Uma análise aos dados de 2017 mostra que ocorreram, no total, 283 ataques terroristas de extrema-direita na Europa Ocidental e na América do Norte, entre 2011 e 2017. Estas são as duas regiões do planeta onde este tipo de actuação é mais visível. Destes 283 resultaram 227 mortes, segundo o Global Terrorism Index 2018. Estes números têm vindo a aumentar de ano para ano e, apesar de esta tendência dentro do terrorismo não ter a dimensão dos ataques terroristas elaborados por outros grupos, como o Estado Islâmico, a verdade é que este é o mais difícil de prever e deter.

E esta é a sua principal característica: são ataques altamente planeados, executados por norma por um só indivíduo, que não está assinalado como uma ameaça para a sociedade e que muitas vezes é influenciado e influencia outros através de um canal principal, a Internet, mais especificamente, pelas redes sociais e blogues.

A situação torna-se mais preocupante quando percebemos que em seis anos, de 2011 a 2017, houve um total de 152 ataques elaborados por indivíduos de extrema direita, por oposição aos oito anteriores, onde se registaram apenas seis ataques.

A ascensão do terrorismo de extrema-direita está também intimamente ligada à crise migratória de cidadãos vindos maioritariamente do Médio Oriente e África e que rumaram em direcção à Europa e à América do Norte, sobretudo a partir de 2015. Com esta crise ressurge, nestes continentes, desde logo, o chamado “white extremism” e os partidos de extrema-direita começam a ganhar o seu espaço na política e até assentos parlamentares com discursos populistas, inflamados, que promovem o ódio e tacitamente incentivam à violência.

O enfraquecimento ao terrorismo do EI

Em sentido inverso está a tendência de terrorismo de inspiração radical islâmica — de que é exemplar o Daesh. O número de mortes que resultam de ataques terroristas reivindicados por esta organização tem vindo a diminuir significativamente desde 2013. No Iraque, o número passou de 9783, em 2016, para 4271 no ano seguinte, uma descida de 56% no total de vítimas.

Porém, em 2017, o número de ataques e incidentes terroristas era, ainda, três vezes maior do que o valor registado em 2001. Neste sentido, quando se fala em terrorismo fala-se num problema global. Segundo o Global Terrorism Index 2018, em 2017, 67 países experienciaram pelo menos uma morte originada por este tipo de actuações e 19 países registaram mais de 100 vítimas.

Uma análise por grupos demonstra que, apesar de em 2017 o Daesh ter enfraquecido em termos de perda significativa de território e de tropas, este continua como o grupo que mais ataques terroristas levou a cabo desde inícios 2018 até 27 de Abril de 2019, 665 no total. Estes ataques espalham-se pela Europa, África e Ásia, segundo os dados do software de localização ESRI.

Para além disso, nos últimos meses assistiu-se também ao ressurgimento de outro grupo, os Taliban, que, apesar de actuarem sobretudo entre Afeganistão, Tajiquistão e Paquistão, foram responsáveis por 409 ataques de um total de 2870 registados entre 1 de Janeiro de 2018 e 27 de Abril de 2019. Deste modo, com as atenções ainda voltadas para o Daesh, os Taliban aproveitaram para expandir a sua actuação, tal como está a acontecer com o terrorismo de extrema-direita.