A história do computador com vírus vendido por 1,345 milhões de dólares

Um cocktail com WannaCry, BlackEnergy, ILOVEYOU, MyDoom, SoBig e DarkTequilla.

A última coisa que queremos que nos aconteça ao nosso computador pessoal é que fique infectado com vírus. Quem os cria é quase tão rápido como quem cria as dinâmicas de protecção e cada vírus acaba por ser uma espécie de ícone do seu tempo, por sintetizar as técnicas de invasão de um computador e geralmente a sua mecânica de acção.

A última década tem sido especialmente pródiga em ataques de larga escala; por exemplo, de 2017, podemos recordar o famoso WannaCry, que atacou infraestruturas centrais, como hospitais, em várias cidades do mundo, para além de milhares de empresas e computadores pessoais. O pedido de uma espécie de resgate a ser pago em criptomoedas, como se deu caso, é um desses pequenos sinais que localizam os vírus no tempo. Contudo, apesar desta ideia de ultra-representativa que as infecções digitais podem ter (um pouco como as doenças), o que provavelmente nunca pensaste é que estes pequenos e mal intencionados softwares pudessem a subir ao estatuto de obra de arte.

Uma obra de arte

A proposta é do artista chinês, Guo O Dong, e descreve-se muito simplesmente apesar de dar muito que pensar. Guo O Dong, em parceria com a empresa norte-americana Deep Instinct, instalou seis dos mais perigosos malware dos últimos tempos num pequeno portátil e chamou-lhe The Persistence of Chaos (A Persistência do Caos); naquele pequeno computador, Samsung concentrou WannaCry, BlackEnergy, ILOVEYOU, MyDoom, SoBig e DarkTequilla, seis malwares que no total provocaram um prejuízo de 95 mil milhões de dólares.

Depois da instalação feita por seis engenheiros contratados por Guo O Dong, o computador, completamente isolado de redes externas para que não volte a colocar os malwares em circulação activa, tornou-se numa daquelas peças polarizadoras do mundo da arte — em que o seu potencial de reflexão acaba por ser ofuscado pela obscenidade do preço que acabou por atingir; a licitação chegou ao 1,3 milhões de dólares.

Uma reflexão

The Persistence of Chaos tem um propósito claro para o artista chinês: o de demonstrar a proximidade cada vez mais sintomática entre o mundo digital e a vida real, aqui hiperbolizada pela metáfora do rombo financeiro provocado pelos vírus. Para além desta leitura, o título original da peça sugeria uma outra. Segundo o artista, originalmente a peça era para se ter chamado Antivaxxer, um termo que daria outra conotação política à obra e tornaria esta relação com a realidade ainda mais evidente.

O valor da peça surpreendeu toda a gente e até o próprio artista, que em entrevista à Artnet revelou que não esperava ter tanta atenção e, portanto, que o valor do leilão chegasse a números tão elevados. No entanto, Guo O Dong, reforça o valor que atribui à sua peça, equiparando-a nos nossos tempos a uma demonstração ao vivo de armas de guerra — neste caso, armas digitais.

Os pormenores

Quanto à soma astronómica que se prepara para receber, Guo O Dong ainda não definiu o seu destino falando em entrevista sobre duas opções. A primeira, mais lógica, seria usar todo o dinheiro conseguido para financiar uma outra peça; a segunda opção é, segundo ele, simplesmente pegar em todo o dinheiro e queimá-lo, algo que provavelmente ainda deixaria mais atónito quem neste momento critica a loucura que é gastar uma soma tão elevada num computador completamente infectado de vírus.

Pelo potencial de disseminação da infecção caso o computador esteja ligado à internet, o comprador tem de assinar um termo de responsabilização, garantindo que compra a obra para fins académicos ou puramente artísticos e comprometendo-se a não disseminar o malware. Para além disso, as capacidades de rede do computador também serão totalmente desactivadas antes do envio para o comprador final.

A lista dos vírus instalados no computador pode ser vista no site da obra:

ILOVEYOU: the ILOVEYOU virus, distributed via email and file sharing, affected 500,000+ systems and caused $15B in damages total, with $5.5B in damages being caused in the first week.

MyDoom: MyDoom, potentially commissioned by Russian e-mail spammers, was one of the fastest spreading worms. It’s projected that this virus caused $38B in damages.

SoBig: SoBig was a worm and trojan that circulated through emails as viral spam. This piece of malware could copy files, email itself to others, and could damage computer software/hardware. This piece of malware caused $37B in damages and affected hundreds of thousands of PCs.

WannaCry: WannaCry was an extremely virulent ransomware cryptoworm that also set up backdoors on systems. The attack affected 200,000+ computers across 150 countries, and caused the NHS $100M in damages with further totals accumulating close to $4B.

DarkTequila: aA sophisticated and evasive piece of malware that targeted users mainly in Latin America, DarkTequila stole bank credentials and corporate data even while offline. DarkTequila costed millions in damages across many users.

BlackEnergy: BlackEnergy 2 uses sophisticated rootkit/process-injection techniques, robust encryption, and a modular architecture known as a “dropper”. BlackEnergy was used in a cyberattack that prompted a large-scale blackout in Ukraine in December 2015.