Democracia Em Vertigem: um gesto de revolta que gerou um documentário

Documentário de Petra Costa pode ser visto no Netflix.

A imparcialidade é encarada como a impossível das virtudes, sobretudo no seio jornalístico, no qual códigos deontológicos tentam garantir esse território, visto que nós enquanto seres pensantes não envergamos inteiramente a dita perceção justa e redefinida. E esse dito virtuosismo pelo qual todos nós ansiamos em atingir não é de todo um materializado pódio. Já o cineasta italiano Nanni Moretti, no seu mais recente filme – Santiago, Itália – realçou o facto de não ser imparcial, até mesmo quando é requisitado sob a promessa dessa mesma “característica”. Para simplificarmos, ninguém é tal “coisa” e Petra Costa nunca o ambicionou ser neste Democracia Em Vertigem. E ainda bem que não o tentou.

Eis um documentário sobre a vontade de denúncia do atual estado da democracia brasileira, desenhando o seu diagnóstico através de um historial que se inicia no legado da realizadora até às eleições de 2018 que levaram o ex-militar Jair Messias Bolsonaro a presidente do país da Ordem e Progresso. No meio dessa linha narrativa, a presidência de Lula Inácio da Silva e o “impeachment” da “presidenta” Dilma Rousseff são marcados como embarques para este cenário não tão optimista. Aliás, tudo conduzido como tópicos de um autêntico filme-catástrofe, amenizados pela poesia intimista de Petra Costa que é recitada em elipses intercaladas do iminente desastre.

Democracia Em Vertigem funciona como pandan a um outro mediático filme nos bastidores da política brasileira, O Processo, de Maria Augusta Ramos, um exercício kafkiano num golpe arquitetado por forças invisíveis alicerçadas por uma ideologia política contrária. Mas no caso do filme de Costa, o desencanto formal dá lugar a um encanto estético de embelezar o não-embelezado, e no seio dessa moldura, a realizadora que intervém como uma testemunha da queda de um “bem sagrado” ironiza todo o processo de espetacularizar esse jogo. Tal como o reparo que faz nos preparativos do impeachment, onde os apoiantes do golpe são levados a um recinto à direita, enquanto os adeptos de Dilma Rousseff [que preenchem a esquerda política] são posicionados à esquerda do Planalto, não deixando o acaso como uma mera questão de coincidência. Petra Costa desenha uma “conspiração” na sombra das eventuais maroscas politizadas.

Aliás, espetacularidade é o que se poderá associar a todos esse método político, desde o teatro por detrás ao impeachment a Dilma, até ao sermão evangelizado de Janaína Paschoal, sem esquecer de Lula da Silva, a provar o seu status de animal político enquanto profere, a uma multidão apoiante, a vinda de uma nova Primavera, isto, em contraste com um discurso primário e movido pelo ódio de Bolsonaro, que, como sabem, viria a tornar-se presidente perante a desinformação e a falta de alternativas políticas. Com todas estas “personagens” e subenredos que desaguam pela ambição de poder, o Brasil é, tendo em conta esta Democracia em Vertigem, um autêntico teatro tragicómico no que requer ao seu mundo político.

Contudo, a imparcialidade procurada é uma ilusão premeditada, Petra Costa revela sempre fascínio pelo PT (Partido dos Trabalhadores) e repugna pelos seus antagonistas. Não tentemos encontrar aqui o senso detetivesco que o último trabalho de Michael Moore na sua não assumida sequela de Fahrenheit 9/11 possuía, onde ao apurar as causas da presidência concretizada de Trump apontou para o falhanço dos democratas em anos e anos de governação (o episódio de Barack Obama evidencia esse desmascara).

Fora essa pretensão de ser um documento, Democracia em Vertigem é um gesto de revolta que gerou um documentário de uma força inerente vivida, uma obra que assume a sua posição e muito mais a sua ambição. Petra Costa não engana ninguém quanto aos seus propósitos e sobretudo na sua marca enquanto autora (uma das promissoras e prolíferas vozes da cinematografia brasileira atual, e para isso só bastou assistir Elena). Mas à luz da imparcialidade, se é que isso existe, a condição do Brasil merece uma lupa e uma abordagem mais sóbria (possivelmente acinzentada) e não tanto alarmista. Porque se “o mal impera porque os homens de bem nada fazem“, é necessário entender o que falhou para gerar este novo “abraçar” das trevas.

Texto de Hugo Gomes

(Nota: este texto foi originalmente publicado no c7nema, um dos mais antigos sites de informação, opinião e crítica de cinema em Portugal, tendo sido aqui reproduzido com a devida autorização.)